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Autor da inesquecível composição que empresta o título à coluna, João Gilberto tem um ótimo motivo para deixar para lá as agruras do iminente despejo e espairecer um pouco diante da televisão. Os mais próximos e os bem informados sabem que há um bom tempo o mestre da Bossa Nova parou de olhar só para os barquinhos, as tardinhas e as morenas que passam pelo Leblon. Para surpresa de fãs, imprensa e dos pouquíssimos que desfrutam de sua companhia, mais de uma vez, o bardo declarou que é quase viciado em lutas de vale-tudo ou, mais precisamente, Mixed Martial Arts, MMA para os íntimos.

Brigas nunca mais. Lutas todos os sábados à noite. Aviso então ao mais ilustre morador do Leblon: agora o nome do cara a observar é José Aldo. Sim, porque enquanto nos corredores de academias, nas rodas em escritórios, bares, praias e quebradas variadas a conversa continua em torno do famigerado chute à La Steven Seagal, desferido pelo megacampeão Anderson Silva para nocautear de forma fulminante o excelente Vitor Belfort, o mundo cada vez mais elástico e numeroso dos interessados em lutas mistas só tem olhos para este pequeno amazonense. Aos menos familiarizados com o assunto e vendo-o entre os gigantes do ringue, seus 1,71 m e 66 kg (nos dias de luta) parecem equipamento insuficiente para subjugar até o mais fraco dos oponentes. Engano.

Num ano com efemérides incríveis como a vitória de Mauricio Shogun na revanche contra Lyoto Machida e o próprio confronto Silva/Belfort, Aldo foi eleito o melhor lutador do ano pelo fórum de especialistas convocado pelo UFC, entidade que organiza e explora a atividade esportivo-mediática. Aldo é considerado pelos próprios nomes citados acima como um dos mais eficientes lutadores que o mundo já viu. De fato, o moleque, filho de um pedreiro que bebia demais e de uma senhora batalhadora que apanhava do marido, que deixou a casa dos pais aos 16 anos, seguiu para o Rio sem nada nos bolsos, viveu de favor dormindo em tatames de academias com goteiras e trabalhou como copeiro em troca de pratos de comida, se transformou numa das mais eficientes máquinas de luta de que se tem notícia. Sua extrema habilidade na luta de chão (em especial o jiu-jítsu) se une à eficácia absoluta de seus chutes e socos (base no muay thai). Tudo isso ao mesmo tempo, agora. Numa de suas 19 lutas e 18 vitórias, nocauteou o adversário aos 7 segundos do primeiro assalto. Depois de ter morado um bom tempo na favela Santo Amaro, no Rio, quase colado numa boca de fumo, hoje Aldo vive com bastante conforto, ganhando patrocínios e bolsas respeitáveis e circulando/competindo pelos Estados Unidos, Europa e outras partes do mundo por onde as lutas do UFC têm andado, incluindo o Japão e novamente o Brasil, que no meio do ano voltará a sediar uma das etapas do evento.