Cultura

Senhora avançada

O inédito O amor mascarado traz heroína antibalzaquiana

Como bom mestre do romance francês, Honoré de Balzac (1799-1850) não poderia deixar por menos. Para cumprimentar uma amiga querida, a duquesa de Dino, que aniversariava, o escritor fez questão de dar-lhe de presente nada menos que o livro O amor mascarado (Bom Texto, 142 págs., R$ 23), inicialmente intitulado Imprudência e felicidade. A pequena obra, que acabou ficando anos relegada à biblioteca da família, só veio a público em 1911, mais de 60 anos depois da morte do autor, graças à iniciativa da editora Renaissance du Livre. E só agora, quase um século depois, chega às livrarias brasileiras.

Para manter a aura de ineditismo, a Bom Texto também incluiu a mesma apresentação feita aos franceses pela Renaissance du Livre. Imagine,
se à época já era tido como algo fantástico encontrar um original desconhecido do versátil autor de Eugênia Grandet, descobrir um
clássico que permaneceu 92 anos longe dos olhos do leitor brasileiro, então, é motivo de total euforia. O enredo é singelo, embora rico e envolvente. Trata-se da história da bela viúva Elinor de Roselis, que, ressabiada por um casamento desastroso, quer a todo custo conhecer
a maternidade sem precisar correr os riscos de uma nova união infeliz. Acaba encontrando e seduzindo o jovem, romântico e impulsivo Leon
de Préval, de quem arranca a esperada fecundação, sem, no
entanto, revelar sua identidade.

Os desencontros e infortúnios que cercam os dois personagens até que o destino (ou as boas amizades) os reúna formam um rico perfil da sociedade burguesa e mundana de então. Esta, por sinal, era a grande especialidade de Balzac. Aquele cuja mulher de 30 anos cristalizou a expressão balzaquiana para senhoras prestes a deixar a juventude e que vivem as angústias de entrar em tempos sem perspectivas que não uma existência recatada e morna de uma sociedade entediante. Elinor de Roselis é o oposto da balzaquiana padrão, mesmo alcançando os 30 anos ao longo do romance. Dona de uma produção independente, ela pode ser considerada uma verdadeira precursora das moças moderninhas de hoje. Apesar de o desfecho ter sido personalizado para, afinal, agradar como presente a uma duquesa de respeito.