Cultura

Mortos-vivos

Miguel Méndez cai no realismo fantástico

Ao prefaciar Os mortos também contam (Escrituras, 160 págs., R$ 20), o autor mexicano Miguel Méndez convida o leitor a vislumbrar a estranha história de seu livro, caso ele seja, “além de paciente, generoso”. O autor tem razão. Não porque a obra guarde má qualidade literária. Ao contrário, só com muito talento e estilo próprio um escritor consegue encadear tantas ambiguidades numa trama de realismo fantástico. E Méndez o faz tão bem que, em algumas passagens, chega a lembrar o clássico Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. O alerta do autor é fundamental até para a linguagem. Ele usa trechos em pachuco, dialeto originário dos chicanos, como são chamados os mexicanos que imigraram para os Estados Unidos. Portanto, a releitura de parágrafos faz parte da árdua empreitada.

Mas vale a pena insistir. A história é centrada em algum ponto entre
a morte e a vida. Após anos, três falecidos emergem do fundo de um rio em busca de um sepultamento cristão. Reconduzidos a uma estranha existência terrestre, eles são almas dentro de ossadas com algumas pelancas, sem carne ou vísceras. Têm voz e memória, mas nenhuma
das necessidades humanas, como fome, sede ou sono. Sofredores
sem consolo, são úteis para o autor mostrar quão efêmera é a vida
e como a história se repete.

Eles morreram em datas diferentes, com distância de até 500 anos. É extraordinária a descrição da trôpega saída do rio para a terra, com direito a brisa e pôr-do-sol. Méndez tornou-se chicano na América, onde sobreviveu com quebra-galhos até tornar-se professor na Universidade do Arizona. O autor é também o personagem procurado pelos três insepultos para contar seus casos num livro. Nele, há apenas uma certeza: nenhum destino fica sem conclusão para sempre.