Cultura

Figurinha de chiclete

Em Hulk, o cultuado diretor Ang Lee derrapa na sua intencional mistura pop-dramática e faz uma caricatura do monstrão verde

Os números são proporcionais ao seu tamanhão. Para dar vida à criatura que assusta humanos e militares americanos em Hulk (The Hulk, Estados Unidos, 2003) – cartaz nacional –, a Industrial Light & Magic, de George Lucas, movimentou 69 artistas, 41 animadores, uma infinidade de técnicos mais 2,5 milhões de horas no computador, que ajudaram a estudar e desenvolver 100 camadas de pele e 1.165 formas de músculos, num custo total, somando o cachê artístico, de US$ 150 milhões. É muito dinheiro para um resultado pífio, tanto no visual de figurinha de chiclete de bola quanto na história pretensiosamente cheia de psicologismos. Até os fãs do personagem dos quadrinhos – criado em 1962 por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics –, que compareceram a uma sessão especial, não manifestaram grande emoção pelo que viram na tela. Primeiro, pela xaropada de quase uma hora tentando explicar a origem de Hulk. Segundo, porque o monstrão está há anos-luz das recentes criações digitais no cinema, como o elfo Dobby de Harry Potter e a câmara secreta ou o Golum de O senhor dos anéis – as duas torres. Hulk é apenas uma caricatura.

No seriado televisivo dos anos 1970, O incrível Hulk, o personagem do doutor David Banner (Bill Bixby) pelo menos deixava mais claros seus conflitos e o que o levou a se expor – inadvertidamente – a uma quantidade excessiva de raios gama causadores das suas transformações no raivoso monstro verde, interpretado por Lou Ferrigno, que no filme faz uma aparição relâmpago. O mais curioso em Hulk, contudo, é que por trás daquela bobagem toda há a assinatura do diretor taiwanês Ang Lee, responsável por ótimas comédias familiares, como O banquete de casamento e Comer, beber, viver e o acrobático, mas não menos intrigante, O tigre e o dragão.

Em Hulk, David Banner é um cientista que teima em desafiar as ordens dos militares e vai em frente com seu projeto maluco a ponto de usar o próprio filho como cobaia. Tudo dá errado, acontece um acidente, os pais desaparecem e o garoto adotado por uma família, enfim, torna-se cientista. Crescido, Bruce Banner (Eric Bana) segue, sem saber, os passos do pai biológico na pesquisa de regeneração de tecidos e, para salvar um colega, se expõe a uma quantidade maciça de radiação, que acaba despertando o monstro adormecido dentro dele. Mas até a criatura aparecer e – como os americanos tanto gostam na ficção – ameaçar a paz democrática rola muita psicologia barata. Ang Lee disse que fez uma combinação incomum de cultura pop com drama realista. A mistura, que fantasiosamente poderia resultar numa boa fast-food, ficou tão enjoativa quanto os sundaes de máquina.