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Não sei como ela era como gerente de um sushi bar, nem como foi sua performance como produtora de vídeos. Difícil imaginá-la equilibrando copos e pratos como garçonete ou tendo que instalar um sorriso no rosto ao encarar a função de hostess num restaurante. O que posso dizer com alguma propriedade é que a moça aí ao lado não nasceu, definitivamente, para exercer a nobre arte (e não vai aí nenhum deboche enrustido) do secretariado executivo. “Nunca fiquei mais de seis meses num emprego”, disse Bárbara Eugênia (esses são seus nomes próprios) ao site Vitroleiros, numa das poucas entrevistas que concedeu desde que lançou um dos melhores CDs na praça. Dá para entender… basta ouvir logo a primeira faixa, “A Chave”, composição dela com Junior Boca e Dustan Gallas (esses dois assinam os arranjos e a produção do “disco”). A menina não nasceu para preencher comandas, recolher ingressos, reservar mesas nem muito menos para colar post-its ou organizar reuniões de executivos. Mesmo ainda vivendo das traduções dos textos burocráticos (segundo ela própria), que faz para pagar o grosso de suas contas, a dona do genial CD em questão, chamado “Journal de BaD”, nasceu para cantar. E compor.

Bárbara é de Niterói, viveu nos Estados Unidos, no Rio e em Atibaia, até vir parar em São Paulo em 2005. Talvez pela antena afiada que a larga rodagem costuma proporcionar, não demorou, mesmo considerando os semestres variados gastos nas diferentes ocupações, a magnetizar para perto de seus olhos meio assustados e sensuais, algumas das maiores feras da música brasileira de todos os tempos. Do genial Edgar Scandurra ao não menos brilhante Tom Zé, apresentado a ela pela maior “cupida” da MPB brasileira, Patricia Palumbo. Quer mais? De Tatá Aeroplano a Rica Amabis, de Pupillo a Fernando Catatau, Otto, Karina Buhr e mais um monte de figuras que não estão aí para brincar… todos eles contribuem, em maior ou menor grau, para um trabalho delicioso, que de alguma maneira foi gestado num bar no andar de cima do, com o perdão da redundância, pequeno restaurante Le Petit Trou, que tem no seu contrato social o próprio Scandurra. Foi o mestre guitarrista quem percebeu em Bárbara o “physique du rôle” e principalmente as habilidades vocais e suingue necessários para encarnar a protagonista de uma temporada de homenagens ao finado iconoclasta francês Serge Gainsbourg. Os poucos e bons que subiram aquela escadinha do restaurante no bairro de Pinheiros em 2008 tinham a sensação de se elevar muito mais do que apenas um simples andar, quando a matadora combinação entre a voz rouca afinada e doce, uma certa beleza europeia e a silhueta fina entrava em cena.

Azar dos donos de restaurantes, clientes de tradutores e editores em busca de secretárias… Sorte deles e de todos nós. Bárbara Eugênia nasceu para a música. Pegue o CD e tire a prova.