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Os EUA no golpe de 64

Documentos americanos revelam que a CIA apoiou as Marchas com Deus pela Liberdade e estava em sintonia com golpistas

Os EUA no golpe de 64

APOIO LOGÍSTICO EUA temiam resistência e enviaram ajuda aos golpistas. Não foi preciso (DIVULGAÇÃO)

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Sempre se soube que as Marchas da Família com Deus pela Liberdade – passeatas que ajudaram a criar, junto à opinião pública, as condições políticas para o golpe militar de 1964 – foram organizadas por entidades anticomunistas e por grupos conservadores. O que não se sabia é que entre as senhoras católicas estavam agentes da CIA, a Agência Central de Inteligência dos EUA. Uma série de documentos secretos recentemente desclassificados pelo governo americano revela o envolvimento direto da agência nos acontecimentos que levaram à ditadura militar.

O papel que demonstra o patrocínio americano às Marchas da Família foi descoberto pelo cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos maiores especialistas nas relações entre Brasil- Estados Unidos. Trata-se de um telegrama “top secret” enviado pelo então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, à Casa Branca, ao Departamento de Estado e à CIA no dia 27 de março de 1964, quatro dias antes do golpe. No telegrama, Gordon menciona que a CIA empreendera covert measures (medidas encobertas) para viabilizar as passeatas: “Suporte velado às passeatas pró-democracia (a próxima grande acontecerá no dia 2 de abril aqui no Rio, e outras estão sendo programadas), uma discreta palavra do governo dos EUA demonstrando preocupação com esses eventos e o encorajamento de sentimentos democráticos e anticomunistas no Congresso, nas Forças Armadas e nos grupos amigáveis de trabalhadores, estudantes, na Igreja e nos negócios.”

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Os americanos monitoravam até os passos do general Humberto Castello Branco, que, como chefe do Estado- Maior do Exército, comandava a conspiração e se tornaria o primeiro presidente do período militar. No dia 27 de março de 1964, um telegrama de Lincoln Gordon para várias autoridades americanas informava que a intenção de Castello Branco era a de atuar “somente no caso de uma óbvia provocação inconstitucional”. Mas que ele já estava preparado para as hipóteses em que isso aconteceria: “Uma greve geral comandada por um líder comunista, outra rebelião de sargentos, uma proposta de plebiscito pelo Congresso ou alguma medida governamental contra os líderes democráticos militares e civis.” E Gordon já sugeria um envolvimento direto dos Estados Unidos. Comparava, então, o Brasil não a Cuba, mas à China de Mao Tsé-tung.

O embaixador sugeria ajuda militar aos golpistas – o que acabou acontecendo. Um telegrama enviado a ele pelo Departamento de Estado americano no dia 31 de março de 1964 reporta o envio de ajuda militar para alguma eventualidade. Um petroleiro com combustível foi deslocado do Porto de Aruba para as imediações de Santos. O telegrama estima que o navio chegaria à costa brasileira entre os dias 8 e 13 de abril. Em seguida, seriam despachados três navios-tanques. Além deles, foram enviados, informa o telegrama, um porta-aviões, quatro destróieres, dois navios-escolta e uma força-tarefa com os petroleiros. Acompanhando os navios, 110 toneladas de munição./wp-content/uploads/sites/14/istoeimagens/imagens/mi_131601449368080.jpg

Os informes demonstram ainda um acompanhamento em sintonia fina do movimento das tropas golpistas. Um telegrama da CIA do dia 31 de março dizia: “Uma revolução promovida pelas forças anti-Goulart deverá concluir-se definitivamente esta semana, provavelmente nos próximos dias.” Segundo o informe, as últimas negociações envolviam os Estados sob controle de “governadores democratas”, São Paulo (Adhemar de Barros, depois cassado como corrupto) e Minas Gerais (Magalhães Pinto). “Depois que a revolução se iniciar, tropas de São Paulo e Minas Gerais marcharão sobre o Rio de Janeiro.” O telegrama apenas alertava para a possibilidade de sangue. “A revolução pode não se resolver rapidamente”, dizia. Na verdade, praticamente não houve resistência ao golpe, precipitada em Minas Gerais pelo general Olympio Mourão Filho.

Esses documentos adicionam novos elementos às recentes informações que demonstram o envolvimento direto de Washington nos acontecimentos que levaram à deposição do então presidente João Goulart. Em 15 de julho, o jornal Folha de S.Paulo publicou os detalhes de um “Plano de Contingência para o Brasil” idealizado por Lincoln Gordon propondo medidas para evitar que o Brasil “se transformasse numa nova Cuba”.

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Há duas semanas, o jornal Correio Braziliense revelou a existência de um Centro de Informações do Exterior, montado no Itamaraty, que tinha por tarefa principal monitorar as ações de brasileiros no Exterior, como o próprio Goulart e os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes. O Centro de Informações do Exterior (Ciex – não confundir com o homônimo Ciex, serviço secreto do Exército) foi criado em 1966 esse serviço secreto do Itamaraty foi idealizado pelo embaixador aposentado Manoel Pio Corrêa, que então servia no Uruguai. Em seu livro de memórias, Por dentro da Companhia, o ex-agente da CIA Philip Agee afirma que Pio Corrêa era agente da CIA. “A CIA sempre teve entre seus colaboradores diplomatas, militares, estudantes, jornalistas, professores, enfim, gente de todas as profissões”, afirma Moniz Bandeira.