SAUDADES DA GUANABARA

A falência do ensino público causou-nos um estrago tão grande que vamos precisar de tempo para recuperar a palavra


Em algum lugar entre o sonho e a realidade, numa zona que a medicina ainda não conseguiu entender, alguém me entrega uma frase estranha: por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Quase uma mensagem secreta, trazida de além-mar, numa trama de espionagem, eu penso e, ato contínuo, começo a abrir os olhos. Por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Um novelista romântico a passeio pela cidade talvez tenha decidido fazer-me um agrado e, na busca pelo remetente, eu finalmente acordo de vez com as palavras brincando no fundo dos olhos e, mais à frente, a imagem da árvore espelhada na retina. Acordo também com vontade de ver outra vez um pé de abricó-de-macaco exibindo sua exuberância na floração, mas pulo da cama, pois o dia me chama. Mais tarde eu procuro uma imagem na rede e exercito meu platonismo cotidiano, eu penso. Mais tarde.

A frase, entretanto, continua comigo, exigindo ser usada quanto antes e, convenhamos, construir uma crônica ao redor dela me parece uma tarefa mais simples do que colocá-la na boca de alguma personagem que, para entrar em cena e dizer eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco…vai-me exigir um equilíbrio delicado, já que trata-se de uma espécie amazônica e, se florescem por toda parte, eu acredito que a comédia, ou drama, deva se passar no Norte. Ou talvez ela pudesse ser dita numa cena de adeus, filmada naquela minha enseada da infância, com a luz perfeita que havia então. A personagem estenderia o olhar acompanhando a curva sinuosa da praia e diria: eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Não. Pensando bem, ela vai ser usada numa crônica. Uma crônica da memória, já que a imagem vem do passado, e também uma crônica de verão, já que é nesta estação que a árvore floresce com mais luxúria. Uma crônica da Guanabara, eu decido:

Eu estudava no Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na rua Pio Dutra, na Ilha do Governador, com aquele uniforme de então, camisa cáqui, calça azul e o escudo costurado no bolso, com os golfinhos da insígnia em baixo relevo. Um colégio que tinha sido modelo do Estado da Guanabara, vale a pena acrescentar. Tínhamos um excelente ensino. E então vieram os anos 70 e a educação pública brasileira começou a ruir, sem que ninguém mexesse um dedo para deter o estrago que se fazia na população. Junto com o resto da nação, a classe média carioca, que sempre colocou os filhos nos bons colégios que o Estado oferecia (porque é assim que deve ser), começou a fazer das tripas coração para pagar as escolas particulares, na tentativa de dar uma formação decente à prole, pois é esse o desejo de todo pai e toda mãe do planeta. Dar à cria uma chance de sobrevivência, enfim. A falência do ensino público causou-nos um estrago tão grande que, mesmo que se tome alguma iniciativa eficaz neste sentido, ainda vamos precisar de muito tempo para recuperar a palavra e seus tantos sentidos.

Acredito que nossa presidente conhece a importância da educação na vida dos povos e certamente tomará medidas que deem oportunidades iguais a todos, tal qual tínhamos num passado não tão remoto, quando floresciam por toda parte os abricós-de-macaco, guardados intactos nos arquivos de
um jovem escritor.

Veja também
+Deolane Bezerra, viúva de MC Kevin, revela que fez cirurgia na vagina
+ Vídeos mostram pessoas preparando saladas com Cheetos no TikTok
+ Mulher e filho de Schumacher falam sobre saúde do ex-piloto
+ Carvão “gourmet” que não suja as mãos vira meme nas rede sociais; ouça
+ Mãe encontra filho de 2 anos morto com bilhete ao lado ao chegar em casa
+ Agência dos EUA alerta: nunca lave carne de frango crua
+ Passageira agride e arranca dois dentes de aeromoça
+ Gel de babosa na bebida: veja os benefícios
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Yasmin Brunet quebra o silêncio
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago


Mais posts

Ver mais

Copyright © 2021 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.