Economia & Negócios

A ameaça das greves

No horizonte do governo está o desafio de como enfrentar a mobilização dos trabalhadores no momento em que a inflação volta a subir e a CUT retoma a idéia de gatilho salarial

No momento em que o governo precisa cortar gastos para enfrentar a alta da inflação e as incertezas da economia mundial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem em seu horizonte uma nova ameaça: as greves. Para tentar conter uma onda de paralisações que já começa a se formar entre as categorias ligadas ao serviço público, na última semana o governo conseguiu aprovar uma medida provisória que poderá ter o efeito de uma bomba-relógio. Na quartafeira 16, a Câmara aprovou a MP 431, que reajusta os salários de 800 mil servidores civis e 600 mil militares, incluindo todos os aposentados e pensionistas, com aumentos que ultrapassam 100% para algumas categorias, até 2012. Para isso, a União vai somar R$ 31,9 bilhões em sua folha salarial nos próximos quatro anos. Serão R$ 7,7 bilhões apenas em 2008. Além disso, estão em estudo na Casa Civil novas MPs que serão encaminhadas ao Congresso nas próximas semanas. Estas tratarão dos salários de categorias específicas, como os auditores da Receita, os servidores da Polícia Federal e o pessoal do INSS e da área econômica, o que implicará gastos ainda mais elevados. É verdade que no funcionalismo existem categorias que recebem salários muito aquém daqueles que são pagos pela iniciativa privada. Mas também há casos de servidores bem remunerados e que contam com aposentadorias privilegiadas. Esses também serão favorecidos pelos aumentos nos gastos públicos. A MP 431 contempla casos com salários de R$ 10 mil que passarão a R$ 19 mil. "Os reajustes salariais previstos na MP variam de 12% a 132%", afirma o deputado Geraldo Magela (PT-DF). "No Congresso, a oposição ficou atônita, quando viu o tamanho da MP e o tamanho do impacto", admite o deputado petista.

Entre os sindicalistas, no entanto, não há indícios de que as propostas levadas pelo governo tenham amenizado o risco de greves. "A volta da inflação vai gerar uma campanha agressiva, um setembro forte", anuncia o secretáriogeral da Central Única dos Trabalhadores, Quintino Severo. "Queremos criar um instrumento de prevenção para a inflação alta. As convenções coletivas ocorrem em setembro, mas precisamos de mecanismos de revisão salarial para janeiro ou fevereiro", diz Severo. Na prática, o que o diretor da CUT defende é a volta do gatilho salarial, que, durante o governo de José Sarney (1985-1990), disparava sempre que a inflação atingia 20%. Essa política gerou uma corrida entre salários e preços que, além de não recompor totalmente as perdas salariais, servia para realimentar a inflação.

Se as MPs não funcionarem como medida preventiva, o governo terá que aprimorar seus mecanismos de diálogo. Nos casos em que já foram deflagradas greves, as negociações foram lentas e provocaram prejuízos ao País. Na Advocacia- Geral da União, categoria que tem salário inicial de R$ 11,2 mil, por exemplo, a paralisação durou quase três meses. Funcionários da Receita também mantiveram uma greve de quase dois meses. Os Correios permanecem em greve há 30 dias e mais de 120 milhões de cartas e encomendas não chegam aos destinatários. Com os petroleiros o caso é ainda mais complicado. Na última semana, eles promoveram uma mobilização parcial. A Petrobras registrou uma queda de 63 mil barris na produção de petróleo apenas na segunda-feira 14, quando os grevistas conseguiram reduzir as atividades em 33 plataformas. Os petroleiros somam 150 mil trabalhadores e têm data-base em setembro. Representam hoje um dos sindicatos mais organizados do País e ameaçam paralisação geral para o próximo dia 5. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, os petroleiros ensaiaram uma das piores greves de sua história, que obrigou o governo a intervir com o Exército e a baixar posteriormente uma lei de anistia para os punidos e demitidos. Na sexta-feira 18, a Petrobras informou que está realizando reuniões "periódicas" com os trabalhadores a fim de evitar a greve.

Outra categoria que ameaça parar é a dos bancários, que reúne 480 mil trabalhadores no País. O IV Congresso dos Bancários de Brasília, no início do mês, aprovou como proposta à conferência nacional o índice de 13,08% como reivindicação da campanha deste ano. O cálculo leva em conta a soma do INPC projetado de setembro de 2007 a agosto de 2008 e a taxa de crescimento do PIB no ano passado. A Conferência Nacional dos Bancários, que vai estabelecer o índice de reivindicação, será realizada na próxima semana. Os bancários de Brasília querem ainda uma cesta alimentação de um salário mínimo, numa lista com mais de 20 reivindicações.

Os metalúrgicos também começaram a se mobilizar em torno da recuperação salarial. Segundo a CUT, a categoria dever reivindicar aumento de 12%, que é a soma da inflação, e ganhos de produtividade. A CUT representa mais de um milhão de metalúrgicos em todo o País. A categoria reúne funcionários de montadoras e dos setores de máquinas agrícolas e eletrodomésticos. O presidente terá que ser habilidoso para conduzir esses processos e administrar a banda sindicalista do governo.