Brasil

Com a boca na botija

O deputado João Magalhães cai na rede da Operação João-de- Barro e sua mulher é flagrada recebendo propina

Com a boca na botija

INVESTIGADO Agentes da PF retiram documentos do gabinete de João Magalhães (sergio lima)

i50327.jpgO corregedor da Câmara, Inocêncio Oliveira (PR-PE), nem esperou ouvir o que o deputado João Magalhães (PMDB-MG) teria a dizer em sua defesa. Tão logo leu a transcrição de uma escuta telefônica feita pela Polícia Federal que mostra a mulher de Magalhães, Renata, buscando, a pedido do marido, propina no escritório do lobista João Carlos de Carvalho, Inocêncio determinou a criação de uma comissão de sindicância na Câmara para apurar o caso. A medida foi aprovada na seqüência pelo presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP). A sorte de Magalhães é que o flagrante dado em sua mulher se tornou público na última semana de funcionamento do Congresso antes do recesso. Além disso, quando as atividades parlamentares forem retomadas, em agosto, todos estarão com os olhos nas eleições municipais. Mesmo assim, dada a gravidade do que foi revelado, é bem provável que o deputado mineiro acabe tendo o seu mandato cassado.

A escuta feita pela PF, cuja transcrição foi publicada pelo Correio Braziliense na segunda-feira 14, não deixa qualquer margem a dúvida. Magalhães foi investigado na Operação João-de- Barro, da Polícia Federal, que apurou a existência de um esquema de desvio de verbas do orçamento de responsabilidade do Ministério das Cidades em municípios. O deputado foi apontado pela PF como "principal mentor do esquema criminoso". Quando seu nome começou a ser mencionado, Magalhães negou qualquer envolvimento no esquema. Segundo a PF, ele era o responsável por reservar as emendas parlamentares dele e de outros deputados mineiros que seriam usadas para o desvio dos recursos públicos. O lobista Carvalho se encarregava de preparar os projetos para a obtenção dos recursos no Ministério das Cidades junto às prefeituras. A escuta comprova a relação entre os dois. E comprova que o elo a uni-los era mesmo dinheiro.

No dia 10 de dezembro do ano passado, Magalhães ligou para Carvalho para marcar um encontro para pegar um "CD". Ele explica que teria de viajar e que, por isso, mandaria a esposa em seu lugar. Mais tarde, no escritório de Carvalho, fica claro que o "CD", na verdade, era dinheiro. A PF estima que Renata deve ter saído da conversa com um pacote de R$ 20 mil. "Aquelas notas de 20 confundem demais", diz Carvalho, num determinado momento. "Tô achando que esse dinheiro tá miúdo", continua, referindo-se ao fato de que muitas notas poderiam fazer um grande volume. "A gente coloca na sacola aqui", responde Renata.

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Depois da denúncia, Magalhães não foi mais encontrado. Seu advogado, Marcelo Bessa, limitou-se a dizer, em nota, que o grampo que pegou Renata Magalhães, por se tratar de material sob segredo de Justiça, não poderia ser comentado, não podendo "sequer se atestar a autenticidade dos eventuais diálogos". A comissão de sindicância que irá investigar o caso vai começar a trabalhar no dia 4 de agosto, após o recesso, e tem 60 dias para concluir seus trabalhos.