O papagaio de Céline

É perturbador constatar que alguém capaz de desprezar completamente a humanidade seja capaz de deixar-lhe um legado tão importante


Parece estranho você não estar aqui enquanto Carla Bruni canta “Quelqu’un m’a dit”, já que a escutamos pela primeira vez num inverno parisiense, não faz tanto tempo assim, e você imediatamente quis sair para comprar o CD. Depois, escutou a música durante toda a viagem e seus olhos ficavam sempre mais verdes quando soavam os primeiros acordes. Acho até que sei de cor, tantas vezes ouvi a canção.

Na verdade, eu estava ouvindo outra coisa, mas o iPod ia caindo e, no movimento brusco de apanhá-lo, a máquina saltou para outra lista e fez-me essa surpresa. E Carla Bruni, é claro, trouxe a sua lembrança, impedindo que eu iniciasse a crônica do modo que havia pensado, porque determinadas músicas agarram-se às imagens daqueles que se foram cedo demais, como uma insígnia de saudade. Portanto, peço desculpas pela interrupção, mas o leito de um riacho às vezes toma rumos inesperados e, no fim das contas, é a costura de melancolia que nos confere toda a humanidade.

De qualquer maneira eu ia falar de minha mãe, que também se foi cedo demais, porque sonhei com ela, sentada na escrivaninha de seu quarto, traduzindo “Morte a Crédito”, de Céline, o genial escritor francês que foi considerado uma vergonha nacional após a guerra, por causa de suas inclinações nazistas e seu declarado antissemitismo. Deixou, entretanto, pelo menos uma obra-prima, “Viagem ao Fim da Noite”, publicada em 1932. Bukowski dizia: primeiro leia Céline! O escritor viveu exilado por algum tempo, mas acabou sendo anistiado e voltou para a França.

Mas voltemos ao sonho: mamãe estava de banho tomado, o cabelo úmido penteado para trás, sentada naquela cadeira, e eu na beirada da cama. E falávamos de Céline, de sua atormentada personalidade e de sua obra fundamental. É perturbador constatar que alguém capaz de desprezar completamente a humanidade seja capaz de deixar-lhe um legado tão importante. Ela já estava doente quando traduzia Céline, eu penso. Ela sabia que não lhe restava muito tempo e ainda assim admirava a tarde luminosa e, ainda que não houvesse nenhuma música ligada ao momento, havia a brisa marinha que se aproveitava das janelas escancaradas. Tudo isso se foi. Vou atrás das palavras do escritor, como se buscasse alguma melodia que coroasse a lembrança: “Aqui estamos  mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste… Dentro de pouco tempo estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou aqui por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra.”

Céline morreu em 61 e sua casa incendiou-se completamente, anos depois, em maio de 68, quando a juventude francesa tomava de assalto as ruas da capital. Não sobrou nada. Na verdade, sobrou seu papagaio Toto que, na noite do incêndio, estava num aviário vizinho. Um papagaio verde. Tão verde quanto a cor dos seus olhos, naquele inverno em Paris, não faz tanto tempo assim, quando Carla Bruni nos sussurrou pela primeira vez: alguém me disse que você ainda me ama.

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