Brasil

As donas de casa de Dilma

Como a mãe e a tia da presidente eleita se preparam para mudar a rotina do Palácio da Alvorada

As donas de casa de Dilma

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ESTILO
Arilda, a tia (à esq.), com Dilma Jane, a mãe,
na casa que dividem em Belo Horizonte

 

Pela primeira vez na história do Palácio da Alvorada, a mãe e a tia de um presidente vão influenciar diretamente o estilo e a rotina da residência oficial. A ex-professora Dilma Jane, mãe da presidente eleita Dilma Rousseff, promete se mudar para o palácio logo depois da posse da filha, a quem chama de Dilminha. Junto, levará Arilda, a irmã com quem divide uma casa ampla e confortável próxima à Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Aos 86 anos, Dilma Jane já perdeu as contas de quantas temporadas passou na casa da filha. Nunca imaginou, porém, que um dia se mudaria para um palácio. Mas não se intimida com a novidade. “A Dilminha precisa de pessoas de confiança ao lado dela”, diz a primeira-mãe. “Mas primeiro vou conhecer o Torto, vou me divertir”, completa, referindo-se à Granja do Torto, que Dilma ocupará nas próximas semanas. Quanto ao Alvorada, ela está animada com a possibilidade de ajudar na administração, junto com Arilda, já que a filha “vai estar mais ocupada do que nunca”.

Católica, “mas não carola”, Dilma Jane encantou-se ao saber que o palácio de 7,3 mil metros quadrados abriga uma capela. Urbana, embora filha de fazendeiros, ela não demonstrou o menor interesse em manter o galinheiro instalado no Alvorada pela primeira-dama Marisa Letícia. Cinéfila como a filha, adorou a ideia de poder ir ao cinema sem sair de casa, pois tanto o Torto quanto o Alvorada têm sala de projeção de filmes. No palácio, Dilma Jane e Arilda devem ocupar uma das cinco suítes da área privativa de 800 metros quadrados, no segundo pavimento do edifício. Só a suíte presidencial tem 120 metros quadrados. Para alegrar o ambiente de dimensões tão extensas, a primeira-mãe planeja espalhar flores pela casa.

Dois outros novos moradores também devem animar o palácio. São o labrador Nego, que Dilma herdou do ex-ministro José Dirceu, e a cadelinha dachshund Naná, que ela achou durante a campanha, à beira do Lago Paranoá. São muitos os detalhes a serem resolvidos nos próximos meses. Dilma Jane e Arilda, porém, não se preocupam. Na semana passada, enquanto a presidente eleita estava às voltas com a transição de governo e participava da cúpula das 20 maiores economias do mundo, elas trataram de fazer as malas. “Vamos descansar numa fazenda por uns dias”, contou a primeira-mãe. “Estamos precisando mesmo descansar.”

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Apesar de terem ficado longe dos holofotes durante toda a campanha, Dilma Jane e Arilda acompanharam de perto a disputa. Chegaram a ficar ressentidas devido aos ataques sofridos por Dilma, em especial no campo da religiosidade. “Somos gerações de católicos apostólicos”, afirma Dilma Jane. Mesmo no domingo que culminou com a eleição da filha, Dilma Jane passou boa parte do tempo apreensiva. Só relaxou quando a eleição estava definida. Entre familiares e amigos, cerca de 15 pessoas acompanharam a apuração em sua casa, entre elas o irmão da presidente eleita, o advogado Igor Rousseff. O primeiro marido de Dilma, Cláudio Galeno Linhares, também integrava o grupo, acompanhado da mulher, a nicaraguense Maira.

Dilma telefonou para a mãe por volta das 21h20, antes de fazer o discurso da vitória. “Conversamos um pouquinho e atravessaram a ligação”, conta a primeira-mãe. Bem-humorada, Dilma Jane costuma dizer que está acostumada a ver interrompidos os telefonemas entre ela e a filha. Mas Dilma sempre encontra tempo para a família. E a mãe jamais deixou de estar ao lado da filha. Viúva desde 1962, ela entrou em regime de dedicação quase integral à Dilma oito anos depois, quando a filha foi presa em São Paulo, por integrar a organização VAR-Palmares, de resistência ao regime militar.

Nesse período, Dilma Jane ficou muito amiga dos pais do então estudante Fernando Pimentel, que era de Belo Horizonte e fora preso em Porto Alegre, por motivos similares aos de Dilma. “Uma vez por mês, minha mãe tinha permissão para me visitar no Sul”, lembra Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte e uma das lideranças petistas mais próximas à presidente eleita. Muitas vezes, Geralda Damata, mãe de Pimentel, falecida em 2008, percorreu junto com Dilma Jane a estrada que liga a capital mineira a São Paulo, antes de seguir para Porto Alegre. “Naquela época, a viagem era feita de ônibus mesmo”, recorda Pimentel.

Com permissão para visitar a filha todos os domingos no presídio Tiradentes, em São Paulo, Dilma Jane passou quase três anos viajando entre os dois Estados. Sua chegada era sempre motivo de alegria, como lembra Eleonora Menicucci, pró-reitora da Universidade Federal de São Paulo, que também estava presa no Tiradentes e tinha família em Minas Gerais. “Dona Dilma era muito elegante, além de generosa e solidária”, lembra Eleonora. “Para mim, trazia até fotos de minha filha, Maria, que estava com um ano e dez meses quando fui presa.”

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PASSADO
A mãe da presidente eleita com a pequena Dilma

 

Depois que Dilma foi libertada e se mudou para Porto Alegre, Dilma Jane e Arilda, que também é viúva, se acostumaram a passar longas temporadas na casa que a presidente eleita dividia com o segundo marido, o advogado Carlos Franklin Paixão Araújo. Os amigos do casal se lembram bem de como elas mimavam a “Dilminha”. Quando se separou de Araújo, Dilma comprou uma cobertura nas imediações de sua antiga casa e logo preparou um quarto para as duas. Elas também passaram longas temporadas nas casas que Dilma ocupou em Brasília, inclusive na Península dos Ministros. Assim que voltarem da temporada de repouso no campo, Dilma Jane e Arilda começam a se preparar para uma nova fase. Desta vez, com direito a palácio.
 

 A MORADIA TRANSITÓRIA

Espalhada por mais de 750 mil metros quadrados, a Granja do Torto, em Brasília, abrigará Dilma Rousseff até a posse, quando ela se mudará para o Palácio da Alvorada. O Torto já foi a residência oficial de dois presidentes da República: João Goulart e João Baptista Figueiredo. Com mil metros quadrados, a casa principal tem quatro dormitórios – além de uma suíte presidencial – e uma sala de cinema para 22 pessoas. Um riacho artificial atravessa o jardim. No entorno bucólico, ficam a piscina, o campo de futebol e uma churrasqueira de sete metros de comprimento que encantou Lula antes mesmo de ele assumir a Presidência. Ao mudar-se para a propriedade, Dilma Rousseff repete uma opção feita por Lula durante a transição de 2002 e no decorrer da reforma do Palácio do Alvorada, entre dezembro de 2004 e março de 2006. Nos anos Lula, porém, o Torto ficou mais conhecido por abrigar as festas juninas promovidas pela primeira-dama Marisa Letícia.

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