Eleições 2010

Cartas marcadas no metrô de Serra

Fraude em licitação de R$ 4 bilhões indica um acerto prévio entre o governo paulista e as construtoras para definir os vencedores de uma das maiores obras da gestão tucana

Cartas marcadas no metrô de Serra

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ESCÂNDALOS
No primeio mês do governo Serra, uma cratera se abriu nas obras da Linha 4 do Metrô.
Agora, a “Folha de S. Paulo” registra antecipadamente
os nomes dos vencedores da licitação da Linha 5

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Por essa José Serra não esperava. Na reta final da campanha, o tucano passou a ter de explicar uma fraude numa obra de R$ 4 bilhões na licitação do Metrô de São Paulo. O esquema com empreiteiras contratadas pelo governo paulista foi revelado pela “Folha de S. Paulo”. Na terça-feira 26, o jornal mostrou que teve acesso aos resultados da concorrência seis meses antes de o governador do Estado, Alberto Goldman, anunciar os vencedores. A reportagem não deixa dúvidas de que as obras de expansão da Linha 5 (Lilás) – que devem levar 12 quilômetros de trilhos do Largo Treze, na zona sul da cidade, às estações Santa Cruz (Azul) e Chácara Klabin (Verde) – fazem parte de um jogo de cartas marcadas.

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“O que eu posso esperar dessa gente? Qualquer coisa que não tenha a nossa
responsabilidade eles tentam colocar como responsabilidade nossa”

Alberto Goldman, atual governador paulista, responsável pelo
final da licitação de R$ 4 bilhões, que teve cartas marcadas

 

No dia 23 de abril, o jornal havia registrado em cartório e em vídeo gravado na redação os nomes dos consórcios que seriam escolhidos para vencer a concorrência de um processo iniciado em outubro de 2008, quando Serra era governador de São Paulo. Três dias depois do registro, começou uma estranha movimentação: o Metrô rejeitou a oferta do consórcio Galvão/Serveng para as obras do lote 2 da Linha 5 por suspeita de superfaturamento e determinou que os 17 consórcios que disputavam todos os lotes em aberto (2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8) apresentassem novas propostas entre maio e junho. Em 21 de outubro, o atual governador, Alberto Goldman (PSDB), divulgou o nome dos novos vencedores. Surpresa: os felizardos escolhidos eram exatamente os mesmos que a “Folha” tinha identificado seis meses antes.
“Direcionamento não houve”, alegou o presidenciável Serra. “Pode ter havido acordo de construtoras e eu creio que o governador Goldman vai instaurar uma investigação.” A candidata do PT, Dilma Rousseff, sugeriu que “pelo menos desta vez” a gestão tucana tomasse providências diante das evidências de um escândalo. Mas Serra deixou claro que defende uma apuração apenas parcial, excluindo o governo do Estado das investigações. “Não houve nada”, disse ele. Há sinais claros de que o Estado de São Paulo, na gestão de Serra, fez uma licitação acertada previamente com as empreiteiras, mas, mesmo assim, ele entende que não existe razão para que o governo seja investigado. Para se defender, o ex-governador usa a tática do ataque: “Quem faz isso publicamente e abertamente é o governo federal.” É fato: Serra sempre aponta que não existem escândalos que o comprometam, mesmo quando eles surgem com provas evidentes.

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“Não (precisa investigar a gestão do Estado de São Paulo), porque não houve nada”
José Serra, ex-governador de São Paulo e candidato
do PSDB à Presidência da República

 

“Não basta interromper as obras, ocorreram vários crimes”, afirma o deputado estadual Major Olímpio (PDT). “Houve formação de cartel e há fortes indícios de improbidade administrativa. Não adianta só a polícia e o Ministério Público apurarem. Apenas a Assembleia Legislativa, através de uma CPI, pode investigar todos os níveis do poder público, inclusive o governador.” Acuado, Goldman, a exemplo de Serra, partiu para o ataque: “O que eu posso esperar dessa gente? Qualquer coisa que não tenha nossa responsabilidade eles tentam colocar como responsabilidade nossa.”

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CAOS
 No dia 21 de setembro, 150 mil pessoas foram afetadas
pela paralisação da linha mais movimentada do Metrô

 

Os problemas no processo de licitação da Linha 5 não são os únicos que lançam dúvidas sobre autoridades e empresas ligadas à Secretaria de Transportes do governo paulista, responsável pelas principais obras do Estado e protagonista de vários escândalos. No ano passado, a Justiça de São Paulo pediu o bloqueio de uma conta de Jorge Fagali Neto, irmão do presidente do Metrô, num banco da Suíça. Para os promotores do caso, há indícios de que ele tenha recebido recursos ilegais da Alstom – empresa que está sob investigação no Brasil e na Suíça por suspeita de pagar propina para fechar contratos milionários com o governo de São Paulo. A conta atribuída a Fagali Neto recebeu créditos que somam quase R$ 20 milhões. Ele nega a acusação. Outro processo que tira o sono de Serra corre desde 2007. Em janeiro daquele ano, uma cratera de 38 metros de profundidade surgiu, de repente, numa rua da zona oeste de São Paulo, onde estava sendo escavado um túnel da Estação Pinheiros. Sete pessoas morreram soterradas. O Ministério Público descobriu uma série de irregularidades na obra, entre elas a alteração do projeto inicial e a inversão do sentido e da sequência das escavações. Catorze funcionários e ex-funcionários do Metrô e das empreiteiras contratadas respondem na Justiça. Mas, até agora, ninguém foi punido.

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Quem vive o cotidiano do Metrô não se surpreende com as irregularidades. “O mais grave é que as obras costumam atender a apelos políticos. Por isso, elas demoram tanto. O metrô da Cidade do México, que tem 230 quilômetros de extensão, começou a ser construído na mesma época que o de São Paulo, que tem apenas 65 quilômetros de trilhos”, afirma Wagner Fajardo, presidente da Federação Nacional dos Metroviários. “O PSDB, nos últimos 16 anos, construiu cerca de 20 quilômetros de metrô em São Paulo. Em média, 1,2 quilômetro por ano de governo. Nesse ritmo, Serra levaria 400 anos para fazer o que ele está prometendo, se for eleito presidente da República.” Fajardo lembra que os passageiros viajam como sardinha em lata. Nos horários de pico, em determinadas linhas, dez ou 11 pessoas se espremem em cada metro quadrado de vagão. Em setembro, a Linha Vermelha, a mais movimentada da cidade, ficou paralisada durante mais de duas horas. Pelo menos 150 mil usuários foram afetados. De acordo com a direção do Metrô, uma blusa presa numa das portas provocou o caos. Em pânico, passageiros que estavam dentro dos trens quebraram as janelas, saíram dos vagões e começaram a andar sobre os trilhos. Naquele dia, problemas técnicos levaram o Metrô paulista às manchetes nacionais. Agora, foi a corrupção.