Budapeste

Há uma urgência de futuro no Leste Europeu que ainda esbarra nos inchaços provocados pelos anos de socialismo


Tirei férias. Longas e merecidas. Trabalhei tanto nos últimos meses que as coisas começaram a perder o sabor e isto é sempre um sinal de perigo, de modo que arrumei a mala e ganhei estrada, furei mundo, como me disse uma vez Tonho, no agreste de Pernambuco. Fui à cata de alguma nova magia, de ­algum novo interesse, porque às vezes a gente perde o rumo e resolve parar de chofre, como se a imobilidade pudesse resolver alguma coisa. Perdemos a direção e simplesmente nos deixamos ficar, à espera de alguma coisa da qual não fazemos a mais tênue ideia. É puxado! A insatisfação com um objetivo em mente é uma coisa, agora sentir-se insatisfeito, sem nenhuma concretude nos próprios desejos, é de levar qualquer um à loucura. Mover-se, nessas horas, costuma dar algum resultado. Sair é saudável. De modo que acabei num trem em direção à Hungria, na companhia de amigos, todos com os olhares perdidos na paisagem que ia se descortinando à passagem do comboio.

Há qualquer coisa cinematográfica nos trens que incita nossa imaginação. Há, nos vagões que cortam a cena, uma ideia de aventura que se sobrepõe à monotonia de uma longa viagem, ainda que as janelas hoje em dia sejam panorâmicas e a natureza tenha por costume quase sempre oferecer seu melhor. Eu resolvi olhar as pessoas, porque gosto de inventar histórias para elas, e fumei um cigarro na plataforma da estação de Tatabánya, tentando descobrir um olhar cúmplice, alguém que estivesse disposto a me contar alguma história, mas não fui correspondido em meus anseios. Aliás, à exceção dos empregados do hotel, não encontramos muita gente disposta a nos contar histórias tantas vezes ouvidas. Há uma urgência de futuro no Leste Europeu que ainda esbarra nos inchaços provocados pelos anos de socialismo soviético. Vinte anos não foram o bastante para arrancar do inconsciente coletivo a insegurança e o medo, após anos de estado totalitário.

Em Budapeste, eu tinha desistido da ideia de buscar gente e já estava me contentando em visitar apenas os palácios e museus (como diz um amigo meu, a gente acaba viajando para visitar a casa dos ricos), quando resolvemos ir a um banho público, que data do século XII e cujas águas termais têm ao que parece imenso ­poder de cura. Era domingo e as famílias banhavam-se unidas, aproveitando o feriado. Eu estava mergulhado numa piscina de águas muito quentes que cheiravam a enxofre, quando uma senhora muito clara desceu
as escadas, apoiada no corrimão, e veio sentar-se ao meu lado. E ela, que se chamava Jolán e tinha 78 anos, contou-me todas as histórias que eu queria ouvir, num inglês precioso (ela tinha sido tradutora toda a sua vida). Jolán enterrou seus sonhos de conhecer o mundo, porque sua geração saiu da guerra para o domínio soviético, de modo que ela achou melhor enterrar o sonho e esperar.
– Esperar o quê? – eu perguntei, preocupado com o excesso de tempo mergulhado naquelas águas.
– Que o pesadelo acabasse – ela me disse e, ato contínuo, levantou e ordenou que mudássemos de piscina.
– E foi muito difícil esperar? – eu ainda perguntei, antes de segui-la para dentro de uma piscina gelada.
– Muito – ela me disse, e afundou nas águas glaciais. Depois, veio à tona e me sorriu. – Mas é sempre
difícil, não é?
Eu não respondi. Tomei coragem e afundei nas águas geladas. Nadei até o outro lado, tentando afugentar o frio, e depois, quando eu a procurei, ela já não estava mais onde eu a tinha deixado. Desaparecera no meio de tanta gente. Sem dúvida, cansou-se de esperar.

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