10 curiosidades da obra mais assustadora de Caravaggio

Crédito: Keka Consiglio

(Crédito: Keka Consiglio)


Tenho refletindo muito sobre o nível de stress de todos com essa pandemia e, por isso, escolhi para a coluna de hoje uma obra sensacional, perfeita para os dias de hoje. A lenda dizia “fuja de seus olhos, antes que eles o transformem em pedra”. Pois bem. Os olhos são de Medusa, uma das grandes obras-primas do mestre Caravaggio (1571-1610). Produzida no final no século XVI, é uma das pinturas mais assustadoras do mundo, mas, ao mesmo tempo, é também uma das mais sensacionais.

Sempre que viajo para Florença (Itália), reservo um dia para ser petrificada com a obra. Entre grupos que entram e que saem da sala onde ela fica, com toda a proteção possível (de guardas e câmeras), tento conseguir ficar o maior tempo sozinha com a obra. Saio emocionada todas as vezes que isso ocorre e imaginando como pode uma obra produzida há quase 500 anos ter tanta força no olhar, que realmente assusta.

Caravaggio é um dos pioneiros do movimento barroco. Viveu uma vida super tumultuada e violenta, que vale uma coluna exclusiva só para isso. Suas aventuras e trapalhadas eram realmente grandes e, até hoje, ninguém sabe ao certo como ele exatamente morreu. Sabemos apenas que foi de forma prematura. Ele era um homem de excessos, e que podia ser encontrado trabalhando compulsivamente em uma obra-prima, assim como ser encontrado em tavernas, sempre envolvido em brigas com bêbados. Um duelo de espadas foi considerado ilegal e ele foi acusado de assassinato de Ranuccio Tomassoni, um tipo estranho que era uma espécie de cafetão da época. Para fugir da pena de morte, ele fugiu de Roma e se exilou em Malta. Era viciado em perigo e tinha excesso de coragem para cruzar a linha entre a realidade e um mundo paralelo de boemia e muita violência. Para apresentar um pouco mais de Medusa, uma das grandes obras-primas do mundo das artes, compartilho 10 curiosidades:

– Encomenda antiga- A pintura foi encomendada como um presente para o Grão-Duque da Toscana. Existem duas versões desta pintura: uma produzida em 1596 e que é de propriedade privada, e uma segunda pintada em 1597 e que faz parte do acervo permanente do Museu Uffizi (Galleria degli Uffizi). A obra mostra Medusa de boca aberta e com olhos arregalados de terror. Seu cabelo foi substituído por cobras. O realismo das serpentes emaranhadas na cabeça da Medusa mostra claramente o caráter inquieto de Caravaggio.

– Escudo- A pintura de Caravaggio foi feita em um escudo de madeira circular e curvo para resgatar essa história de Medusa. A placa de álamo foi coberta com uma camada de linho e recebeu quatro diferentes níveis de preparação. Em cima de tudo, foi colocada uma camada adicional para tornar a imagem mais brilhante. Especialistas dizem que o pintor reutilizou um escudo antigo, pois há uma camada de preparação de gesso anterior, detectada sob a pintura original.

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 – Sobre a lenda- Medusa era uma bela mulher e que chamou a atenção de Poseidon. Devido a uma rivalidade de longa data, Poseidon queria profanar o templo de Atenas. Por isso, ficou com Medusa dentro do local. Furioso, Atena se vingou transformando Medusa em um monstro com cabelo de cobra, capaz de transformar os observadores em pedra. Sem dúvida, é uma história machista e que sobra para a mulher, mas era assim na época. Depois disso, Perseu, filho de Zeus e da rainha mortal Danaë, tentou matar Medusa por acreditar que conseguiria salvar sua mãe das garras do Rei Polidectes, que a cobiçava. Os deuses o apoiaram, dando uma mochila para guardar a cabeça de Medusa, sandálias aladas de Hermes, proteção contra as trevas, espada e escudo. O reflexo no escudo permitiu enfrentar Medusa sem olhar diretamente para seus olhos aterrorizadores. Mais tarde, a cabeça de Medusa foi gravada no escudo e apresentada a Atena, que a chamou de Aegis.

 – Tinta sobre tinta – A pintura foi produzida com chumbo branco, terras naturais e chumbo-estanho amarelo, misturado com óleos secantes. Existe uma quantidade considerável de partículas amorfas de cloretos de cobre no pigmento verde, dando a sensação que foi criada a partir de uma antiga receita de mistura de pigmentos. O brilho até hoje é mantido graças a três boas camadas de verniz, aplicadas pelo artista em abundância, misturadas com óleo secante, aroeira e terebintina e cera de abelha. Atualmente, o escudo fica protegido dentro de uma proteção de vidro sem acesso a partículas do ar.

– Autorretrato- Ao observarmos pacientemente a pintura, podemos ver que a testa, os olhos esbugalhados e as bochechas dilatadas de Medusa se parecem com as de Caravaggio. Ele usou um espelho convexo para estudar seu reflexo e utilizou suas feições como inspiração para a pintura. O que será que o incentivou Caravaggio a imortalizar seu rosto em um monstro? Mas, o mais impressionante é que esse não é o único autorretrato do artista. Caravaggio pintou alguns traços de seu rosto na cabeça ensanguentada de Golias, que era segurado pelos cabelos por David, o vitorioso. Outra obra com várias características de seu rosto é São João Batista, cuja cabeça foi decapitada e aparece jogada em cima de bandeja, segurada por Salomé. Essa pintura está na ilha de Malta, local que Caravaggio teve que se exilar para não ser preso depois de assassinar um homem.

– Efeito tridimensional- Caravaggio era um mestre. Misturava ‘claro e escuro’ em suas pinturas com uma maestria incrível, conseguindo um efeito tridimensional dos personagens que pintava. Suas pinturas apresentam uma iluminação dramática e intensa, em um realismo psicológico e sempre em cenas marcantes. Além desse efeito, Caravaggio frequentemente pinta o ato de olhar, que ora aparece dirigido para fora da pintura em direção do espectador, e ora está diretamente voltado para figuras da cena representada. Caravaggio mudou os rumos da arte. Até os dias de hoje, fotógrafos tentam imitar suas técnicas de luminosidade, o efeito claro-escuro e a estratégia de ressaltar as figuras em fundos escuros, como uma mágica tridimensional para ganhar profundidade.

– Sem esboços e sem nu feminino – Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Caravaggio normalmente pintava diretamente na tela, sem desenhos preparatórios. Ele também se diferenciava da maioria dos outros pintores de sua época por nunca ter pintado nus femininos, apesar de estar sempre em companhia de prostitutas. Ele usava as prostitutas como modelos, mas elas apareciam nas obras sempre vestidas. Grande parte de seu trabalho mostra nus masculinos bem sugestivos, o que gerava na época especulações sobre sua sexualidade (até hoje não comprovadas). Violência, assassinato e morte eram temas frequentemente de suas pinturas extremamente realistas.

-Ele era religioso- Sim, acredite. Isso não é Fake News. No Caravaggio era católico ortodoxo e pintou muitas cenas bíblicas para contar a história da Igreja. Quase metade de seu trabalho foi sobre temas religiosos e a visita gratuita a igrejas de Roma com suas obras é imperdível. Quando puder, visite Santa Maria del Popolo e a Igreja de São Luis dos Franceses. Porém, a conotação sensual ou, em alguns casos, violenta de suas pinturas demorou para ser entendida pelo público, tendo obras rejeitadas por muitos representantes da Igreja. Ele tornava igualmente sedutor dois temas antagônicos: sexo e religião. Para nossa sorte, essa ambiguidade era admirada por muitos de seus patronos.

-Influência- Caravaggio mudou o rumo da arte. Inspirou outros grandes mestres como Velázquez (Espanha) e muitos pintores holandeses que buscavam luminosidade em suas obras. Artistas famosos usaram sua história como inspiração para seus trabalhos. Uma obra de Leonardo da Vinci com o mesmo propósito foi produzida, mas não sobreviveu, mas existe uma pintura de Peter Paul Rubens no Museu Kunsthistorisches (Viena), um busto de mármore de Gianlorenzo Bernini, uma cabeça da Medusa de Antonio Canova no Metropolitan Museum of Art, além de outra semelhante nos Museus do Vaticano.

– Fora do museu- Fora do Museu Uffizi é possível também pode admirar uma escultura de bronze produzida por Benvenuto Cellini. Esta escultura, feita em 1545, mostra Perseu segurando a cabeça da Medusa. Ele está praticamente nu, vestindo suas sandálias aladas e com o pé em cima do corpo, comemorando a morte da Medusa. A obra fica em Florença na Piazza della Signoria.

É inspirador notar como Caravaggio transitava em todos os lugares com maestria. Que a obra inspire um mundo menos polarizado e menos cruel, sem serpentes, sem mortes e sem ódio no olhar. Se tiver uma boa história para compartilhar, aguardo contato pelo Instagram Keka Consiglio, Facebook ou Twitter.

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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