Artes Visuais

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Em individual na Zipper Galeria, Mario Ramiro transita entre a desmaterialização da obra de arte e a fotografia de espíritos

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MARIO RAMIRO – IMPROVÁVEL/ Zipper Galeria/ até 13/5

Em “Improvável”, primeira individual de Mario Ramiro na Zipper Galeria, dois âmbitos da produção intelectual humana encontram-se de forma imprevista: a desmaterialização da obra de arte e a materialização de espíritos.

O primeiro núcleo reúne uma coleção de trabalhos seriais em xerografia do final dos anos 1970 a meados dos 80, quando Mario Ramiro começou sua trajetória artística cercado por criadores que escapavam dos padrões do que era considerado arte e instauravam as ditas “poéticas processuais”. Trabalhavam com vídeo, filme, arte postal, performance, body art, instalação, livros de artista, off-set, xerox arte e outras manifestações marginais e insuspeitas que provavelmente nunca chegaram a ser catalogadas ou historiografadas.

QUADRO-A-QUADRO Dos trabalhos em xerox (à esq.) à pesquisa com fantasmas (acima)
À  pesquisa com fantasmas

Naquele tempo, muitos artistas de pegada conceitual faziam performances diante da câmera de vídeo, fotográfica, ou da máquina fotocopiadora. Entre eles, estava Hudinilson Jr. (1957-2013), ex-integrante do coletivo 3NÓS3 ao lado de Rafael França (1957-1991) e Mario Ramiro. Uma das qualidades mais exploradas, então, era a da reprodução da imagem, o que trabalhava a favor de uma dessacralização do original. Em Ramiro, diferentemente, vemos a opção pelo desenrolar de sequências de cenas (ou poses), formando pequenas narrativas, quadro-a-quadro.

No xeroxcinema de Mario Ramiro (“categoria” ou proposição que talvez tenha passado batida pela historiografia), os quadros são sempre fechados em uma parte do corpo — cabeça, mãos —, que contracena com um elemento externo — fita crepe, faixa de pano. Na interação entre corpo e elementos, desdobram-se ficções e ilusões. Em uma destas historietas, a mão executa um passe de mágica e desaparece com um ovo. Em outra, o artista engole e cospe uma fita de papel, em uma ação que sugere um fenômeno mediúnico conhecido como “exalação de ectoplasma”.

Aqui faz-se a ponte com os trabalhos recentes, que se voltam para métodos e maquinários de superação de fronteiras entre o mundo físico e o metafísico. Entre eles, estão a escultura sonora “Rádio Dante” (2014), que remete às pesquisas da escritora Hilda Hilst com comunicação com fantasmas via rádio; “Gabinete de fluídos” (2013), instalação com 400 xerox e reproduções de fotografias de fenômenos poltergeist; e finalmente “Mesas de acesso” (2017), construída a partir de especificações do espiritualista norte-americano Andrew Jackson Davis (1853). Nesta instalação concebida especialmente para a individual, Ramiro reflete sobre a crença de que as tecnologias elétricas funcionariam como mediadoras entre o mundo concreto e o invisível.

Mario Ramiro iniciou sua pesquisa em torno do invisível no final dos anos 80, quando construía esculturas de calor que irradiavam “volumes imateriais” em torno dos objetos. Entre 1991 e 2000, realizou um mestrado na Escola de Arte e Mídia de Colônia, Alemanha, focado na produção de fotografias do invisível. Em 2008, apresentou o doutorado na ECA USP sobre “A Fotografia dos Espíritos no Brasil”. Estudos sobre esse gênero fotográfico existiam, até então, apenas no âmbito do espiritismo.

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SONIA ANDRADE – CRISTAIS, PEDRAS E VÍDEOS/Galeria Marcelo Guarnieri, SP/ até 29/4

Obra de uma artista até aqui reconhecida como pioneira da videoarte no Brasil — portanto associada ao trabalho com a imagem eletrônica — , a instalação “Hydragrammas” (2016), apresentada na 32ª Bienal de São Paulo, no ano passado, foi uma revelação. Havia de tudo naquele conjunto de 100 assemblages feitas dos mais variados materiais coletados da vida cotidiana. Um verdadeiro alfabeto imagético. Tudo menos vídeos. Menos as referencias explícitas entre o corpo humano e a televisão, que estiveram presentes nos trabalhos dos anos 1970, 80 e 90. Evidenciava-se naquela instalação a importância dada por Sonia Andrade aos corpos gerados a partir da fricção entre as coisas. A partir do cruzamento entre palavra e imagem. Entre objeto real e sua imagem. Esta é uma chave para a compreensão de uma obra tão vibrante quanto misteriosa, que hoje se mostra na galeria Marcelo Guarnieri, em São Paulo.

QUADRO-A-QUADRO Dos trabalhos em xerox
QUADRO-A-QUADRO Dos trabalhos em xerox

Nas cinco videoinstalações exibidas em “Cristais, Pedras e Vídeos” as relações propostas pela artista se fazem do contato entre coisas e luz e imagens projetadas. As coisas aqui são pedras — ametistas, obsidianas, selenitas, cristais, areia. As projeções, em alguns casos, são imagens das próprias pedras, criando uma sobreposição entre obra e modelo; natureza e artifício tecnológico.
Saber que esse conjunto de instalações, produzido entre 2001 e 2017, foi concebido a partir de versos do poema “The Undertaking”, de John Donne, poeta inglês do século 16, apenas amplia a camada de mistério inerente aos trabalhos feitos de pedras às quais se atribuem propriedades mágicas.

“It were but madness now t’impart/ The skill of specular stone” [Seria loucura agora partilhar a matéria da pedra especular]. Com esses versos, componente oculto dos trabalhos, Sonia Andrade dá peso e materialidade à imagem projetada sobre minérios. Para a videoartista que é — desde 1974, quando participou da primeira exposição de vídeo que teve lugar no Brasil, no MAC-USP —, a palavra oculta vem indagar que o vídeo, imagem gerada do mundo, não é mera matéria especular, mas é o mundo em si. Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. PA