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Voto pela incerteza

A vitória de Donald Trump confirmou uma insatisfação global com os políticos. Mundo afora, eleitores têm preferido votar pelo desconhecido. O profeta dos tempos modernos parece ter sido o Palhaço Tiririca com seu bordão de campanha “Pior que tá não fica. Vote no Tiririca.” Há décadas, a América Latina tem sido terreno fértil para demagogos populistas. Paradoxalmente, quando ela está dando adeus a populistas de esquerda, populistas de direita ganham espaço na Europa e nos EUA. Longos períodos de baixo crescimento econômico e forte concentração de renda criam o terreno para os vendedores de milagres. A extrema esquerda culpa os mais ricos pelas mazelas do resto da população. Nos EUA, isso quase levou o socialista Bernie Sanders à candidatura pelo partido democrata. Discursos semelhantes levaram a extrema esquerda ao poder na Grécia e a um impasse político na Espanha.

Já a extrema direita inflama a xenofobia e o ultranacionalismo. Culpar mexicanos, chineses e árabes pelo desemprego dos americanos foi um dos pilares da vitória de Trump. Responsabilizar os refugiados pelas dificuldades levou ao Brexit, à liderança de Marie Le Pen na corrida eleitoral na França, e a governos de extrema direita na Áustria e na Hungria. Em dezembro, possivelmente os italianos levem ao poder o Movimento Cinco Estrelas, que pretende tirar a Itália da Zona do Euro, no que pode ser o golpe de misericórdia na União Europeia – projeto que, apesar de seus inúmeros defeitos, impulsionou o crescimento econômico e impediu conflitos bélicos na região por meio de uma conexão comercial, financeira e humana mais estreita entre os países membros. Foi um cenário de dificuldades econômicas e ultranacionalismo após a Grande Depressão dos anos 30 que culminou na Segunda Guerra Mundial.

A rejeição de políticos tradicionais abre espaço para novas lideranças, criando uma oportunidade para mudanças necessárias e positivas, mas também para pretensos salvadores da pátria e suas falsas soluções sem sacrifícios. Tal fenômeno ficou claro nas eleições municipais brasileiras e é provável que se repita aqui nas eleições em 2018. A insatisfação generalizada tem levado ao poder, através do voto, líderes antidemocráticos que colocam o futuro da própria democracia em risco. Trump afirmou que só reconheceria os resultados das eleições se ganhasse. A democracia já viveu dias melhores.

A rejeição de políticos tradicionais abre espaço para novas lideranças, criando
oportunidade para mudanças positivas mas, também, para pretensos salvadores da pátria


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