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SALVADOR Com cachê 
de US$ 25 milhões por filme, o ator vive herói altruísta 
na maior co-produção 
dos EUA com a China

Entrevista

Matt Damon

Vivemos tempos assustadores

Vivemos tempos assustadores

Elaine Guerini
Edição 17.02.2017 - nº 2462

Graças às peripécias de seu personagem mais conhecido, o agente Jason Bourne, Matt Damon provou seu poder como chamariz de bilheteria. Pela capacidade de levar multidões aos cinemas, o ator de 46 anos e com salário estimado em US$ 25 milhões foi escolhido para estrelar a maior parceria dos EUA e da China na história do cinema: “A Grande Muralha”, que estreia no Brasil na quinta-feira 23. O filme de ação, orçado em US$ 150 milhões, é fruto da influência crescente da China sobre Hollywood. No ano passado, o grupo chinês Wanda, presidido por Wang Jianlin, comprou a empresa Legendary Pictures, de Los Angeles, uma das responsáveis por “A Grande Muralha”. Na trama, Matt Damon é um mercenário europeu em busca de pólvora que acaba ajudando os chineses a vencer criaturas mitológicas. Em entrevista por telefone à ISTOÉ, de Pequim, Damon falou da experiência de filmar por lá, afirmou não temer a interferência do governo chinês em Hollywood e criticou os movimentos nacionalistas de extrema-direita no mundo.

Ao investir em Hollywood, o objetivo da China também é o de aumentar a sua influência cultural no mundo, promovendo seus valores nas telas. Vê algum traço político em “A Grande Muralha” ou sentiu essa intenção nos bastidores?

Quase sempre é possível interpretar algo político nos temas dos filmes. Quem quiser certamente conseguirá enxergar um suposto “soft power” (poder de convencimento, no jargão diplomático) da China, no sentido de querer divulgar valores orientais no filme, da mesma forma como os americanos sempre fizeram com as produções que espalham pelo mundo. Só não podemos esquecer que o poder, neste caso, está dividido.

Como assim?

Ainda que o homem mais importante do set de “A Grande Muralha”, o diretor Zhang Yimou, seja chinês, o filme foi roteirizado por um time de americanos (liderados por Tony Gilroy, indicado ao Oscar pelo roteiro e pela direção de “Michael Clayton”, de 2007). Não vejo aqui qualquer tentativa de um filme propaganda por parte da China. Particularmente, entendo “ A Grande Muralha” como um filme-pipoca, com elementos dramáticos comuns nas duas culturas, principalmente com o que eles têm de apelo mais universal.

Então a ideia de heroísmo, com o protagonista se sacrificando por um bem maior, não está no filme por acaso?

Não. A abordagem do heroísmo aqui é parecida com a que vemos nos filmes americanos e também nos chineses. Pelo menos é assim que os dois países gostam de vender seus heróis. É um tema que abrange todos nós, por gostarmos de pensar que somos capazes de colocar as nossas necessidades pessoais de lado, na hora de salvar a humanidade, como vemos com frequência nos cinemas. Ainda que, longe das telas, nem sempre seja verdade.

Por ser uma coprodução, o roteiro precisou ser submetido à aprovação do governo chinês?

Sinceramente, não sei. Mas posso dizer que o processo não foi muito diferente do que vejo acontecer com qualquer filme em Hollywood nos dias de hoje, principalmente com os “blockbusters”. Como o mercado chinês está tão poderoso atualmente, todos os estúdios estão há um bom tempo de olho no público nos cinemas deles, querendo que seus filmes façam uma boa performance naquelas salas. Com isso, ninguém parece ter interesse em incluir qualquer conteúdo capaz de atrapalhar a entrada da obra lá.

Com a China investindo cada vez mais na indústria de cinema americana, você não se preocupa com uma possível censura imposta aos filmes de Hollywood? Muitos temas, incluindo a democracia, são proibidos por lá, onde o governo controla o conteúdo de tudo o que é exibido.

Vemos, sim, filmes que não conseguem chegar à China. Alguns são banidos integralmente. Mas eu não me preocuparia muito com isso pelo fato de os estúdios já estarem, por si mesmos, se censurando nesse sentido. Eles já dão esse poder à China, que está triunfando sobre a indústria americana, a partir do momento em que os estúdios se deixam influenciar pelo que a China quer ver, só para faturar no mercado deles. Felizmente, filmes americanos menores jamais sofrerão dessa autocensura.

É o caso, por exemplo, de “Manchester à Beira-Mar” (indicado a seis Oscars, inclusive o de melhor filme), que você produziu?

Sim. Felizmente, a influência chinesa nunca será um problema para os filmes que nunca tiveram a ambição de exibição por lá. Eu mesmo teria dirigido e protagonizado “Manchester”, caso não estivesse comprometido com “A Grande Muralha”. Como eu teria espaço na agenda após o prazo de pelo menos dois anos, passei a direção para Kenneth Lonergan e o papel para Casey Affleck. É um dos filmes mais devastadores que já vi, no bom sentido. No sentido de despertar a plateia para a vida, mesmo depois de uma tragédia (no filme, o protagonista perde os filhos em um incêndio).

São raras as produções hollywoodianas que, quando ambientadas no exterior, deixam diretores locais, conhecedores da cultura, assumirem o controle. A escolha do chinês Zhang Yimou foi um avanço nesse sentido?

Foi. E foi também a razão pela qual eu quis me envolver no projeto. Zhang soube tratar com respeito os elementos da mitologia chinesa presentes na trama, algo que poderia ter escapado do olhar de um diretor estrangeiro, que talvez nem imaginasse o significado.
Dê um exemplo.
A história é baseada em um conto chinês da Dinastia Song, em que criaturas atacam a Grande Muralha a cada 60 anos. Os monstros foram inspirados no “Taotei”, uma besta mitológica que foi o símbolo da China antes da escolha do dragão. Essa figura típica no folclore chinês foi ultrapassada por representar uma fonte de ganância. Considero fascinantes esses aspectos, que fazem do filme uma fantasia histórica.

O que mais o impressionou nessa superprodução, a maior colaboração já vista entre China e EUA?

Tínhamos uma equipe técnica gigantesca, o que exigiu pelo menos um grupo de 100 tradutores no set de filmagem. Foi uma loucura trabalharmos com metade da equipe chinesa e a outra metade internacional. Apesar de toda a minha experiência no cinema, por já ter filmado tanto (ele atuou em mais de 70 títulos), confesso que nunca tinha visto nada igual.

Mas você já fez grandes produções antes, como as do agente Jason Bourne.

Sim. Mas aqui a escala de produção foi insana, maior do que qualquer coisa que eu já tenha feito. Por mais que o orçamento possa ter sido equivalente a de outros filmes que fiz, o que o dinheiro consegue comprar na China é incrivelmente mais visível. Havia um mar de figurantes no set. Foram feitas cenas de batalha massivas, com as lutas meticulosamente coreografadas. Os cenários e os efeitos especiais também saltam aos olhos. Outra grande diferença entre esse filme e os blockbusters com heróis de quadrinhos da Marvel, por exemplo, foi o fato de tudo ter sido feito por chineses e americanos. Vejo esse tipo de cooperação, ainda que motivada por razões econômicas, como algo bom para os dois países.

Quanto tempo você precisou passar na China?

Seis meses. A verdade é que eu teria rodado qualquer título com Yimou, mesmo um filme modesto. Quando ele me telefonou, dizendo que se tratava de uma superprodução rodada inteiramente na China, o que me permitiria passar um bom tempo no país, fui encorajado ainda mais a aceitar. Em Los Angeles tenho muitos amigos de ascendência chinesa, que me fazem pensar que tenho familiaridade com a comunidade e com a cultura. Mas nada como fazer uma imersão na China para perceber como eu conhecia pouco.
Como foi a experiência?

Uma aventura da qual jamais vou me esquecer. Tive a sorte de levar comigo a minha mulher (a argentina Luciana Barroso) e as minhas filhas (Isabella, de 10 anos, Gia, de 8, e Stella, de 6). Foi incrível vê-las mergulhadas em uma outra parte do mundo, descobrindo outra cultura por um tempo.

Quer que suas filhas tenham uma visão mais abrangente do mundo, sobretudo no momento atual, diante de um planeta ameaçado pelas tendências racistas e xenófobas, vindas inclusive de Donald Trump, o novo presidente americano?

Sim. Acredito que se as pessoas viajassem mais, o mundo seria um lugar muito melhor. Infelizmente, nós, americanos, estamos geograficamente isolados nos EUA, o que vejo como um problema. Sempre tive inveja dos europeus que podem experimentar outras culturas e visitar outros países, como se estivessem passeando pelos seus quintais. As distância dificulta a vida do americano, no sentido de descobrir o mundo. Muitos sequer têm passaporte, diferentemente do que ocorre com o povo europeu.

Ser exposto ao mundo, em função de seu trabalho, mudou seu modo de ver outras culturas?

Sem dúvida. Tenho a sorte de o meu trabalho permitir que eu viaje tanto. Muitas vezes, ele até exige. Só nos últimos dois anos, além da China, eu morei na Hungria, na Inglaterra, na Espanha e na Alemanha. A nossa visão de mundo muda quando precisamos coexistir com outras nacionalidades, ficando expostos a outras culturas e a outros hábitos. Quando os vizinhos se conhecem, fica muito mais difícil colocar um muro entre eles.

Como você vê o avanço de políticos de direita e a propagação da intolerância no mundo?

Eu faço filmes por acreditar no imenso poder de empatia do cinema. E é isso que nós mais precisamos desenvolver em momentos como este: a habilidade de entender a perspectiva dos outros. Eu me preocupo muito com o que acontecerá com essa nova geração exposta a tantos movimentos nacionalistas de extrema-direita, que emergem com força em países da Europa e nos EUA. Se não me engano, isso está acontecendo no Brasil também. Vivemos tempos assustadores.
 Confira o making off com depoimentos do elenco sobre as filmagens:
 E o trailer oficial:


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