Edição nº2487 11.08 Ver edições anteriores

Uma nação a fazer. Ou refazer.

Em 1918, quase 30 anos depois da proclamação da República, Monteiro Lobato concebeu um primor de crônica. O texto versava sobre as decepções com o novo regime, àquela altura ainda em processo de maturação. “O Brasil é uma nação a fazer. Ou refazer, já que destruíram os alicerces da primeira tentativa séria”, escreveu.

A frase se ajusta com perfeição aos dias atuais, mas não só a eles. Como agora, o País, entra governo, sai governo, parece uma nação inacabada, a fazer. Ou mesmo destroçada, a refazer. E quantas vezes na história nos deixamos engabelar pelas “tentativas sérias” de, enfim, resolvê-lo, para logo a realidade se impor teimosa e devastadora, a implodir a solução vendida ao povo como o paraíso na terra? Podemos elencar algumas. Em 1930, com a deposição de Washington Luís, em 1945, com a de Getúlio, em 1988, promulgada a Constituição, em 1992, depois do impeachment de Collor, e, no ano passado, com a queda de Dilma. Não que a saída, na maioria desses casos, como também em 15 de novembro de 1889, não tenha sido vantajosa para o Brasil. Mas, evidentemente, não chegamos nem perto do Olimpo.

Nas últimas semanas, voltamos a viver tempos sombrios. Na sexta-feira, prevalecia aquele velho adágio popular, a murmurar pelas ruas, praças, redes e círculos sociais: por ora, “se não tem tu, vai tu mesmo”. Ou seja, como ainda não há um nome de consenso para conduzir o País até 2018, o presidente Temer segue equilibrando-se no cargo, mesmo frágil e com a espada de Dâmocles a pender sobre seus ombros.

Extingue-se a luz. As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as jóias

As articulações de coxia dizem muito sobre o Brasil atual. A mera cogitação de que Lula, FHC e Sarney possam se reunir à mesa a fim de debater alternativas para o futuro é a prova inequívoca de que a política brasileira andou em círculos. E o acordão destinado a salvar os implicados na Lava Jato? Parece ousadia, mas é a exacerbação da sem-vergonhice mesmo.

Para Monteiro Lobato, Pedro II, cujo governo constituiu-se no mais estável da história nacional, era a luz do baile. “Muita harmonia, respeito às damas, polidez de maneiras, jóias de arte sobre os consolos, dando ao conjunto uma impressão genérica de apuradíssima cultura social. Extingue-se a luz. As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as jóias… Como, se era a mesma gente!” Pergunto: quem representou a “luz do baile” na história recente do Brasil? E quem, em meio a esse pântano político, poderá vir a sê-lo no curto prazo? Se é que houve alguém e haverá outro. De novo, somos uma nação a fazer. Ou refazer.


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