Comportamento

Um novo olhar sobre a Capela Sistina

Depois de mais de vinte anos, equipe fotografa todos os detalhes da obra-prima de Michelangelo, num projeto de cinco anos que custou R$ 9,3 milhões

Um novo olhar sobre a Capela Sistina

EQUIPE Os fotógrafos que registraram imagens da capela por 69 noites: câmeras e iluminação especiais

41Quem vai à Capela Sistina, no Vaticano, fica logo sabendo que não se pode parar para admirar os afrescos do artista Michelangelo Buonarroti (1475-1564). A ordem é manter o passo para que os 20 mil visitantes diários possam observar, rapidamente, uma das obras-primas do mestre renascentista. Lá, câmeras são proibidas. Durante 69 noites, porém, depois do por do sol em Roma, quando as multidões esvaziavam os salões, uma equipe se reuniu para conduzir um trabalho secreto: fazer fotografias de cada uma das pinturas que adornam as paredes da monumental edificação. O resultado saiu num livro de imagens mostrando todos os detalhes da capela, lançado recentemente. Com ele, será possível ver, bem de perto e em escala real, os pormenores de painéis como “A Criação de Adão”, que no santuário está a 20 metros de altura. Antes, era preciso subir para olhá-los. “É possível enxergar até as pinceladas”, disse à ISTOÉ Giorgio Armaroli, executivo-chefe da editora Scripta Maneant, responsável pelo projeto. “Fica difícil não se emocionar, especialmente por causa da força das cores.”

Foram 270 mil fotos cobrindo os afrescos de Michelangelo e outros artistas que decoram a Capela Sistina. Os trabalhos iam das 19h às 2 da manhã, quando o prédio estava fechado para o público, e envolveu três fotógrafos. Essas sessões duraram algumas semanas, mas o projeto todo se estendeu por cinco anos e custou 2,8 milhões de euros (R$ 9,3 milhões). Culminou na publicação de um livro de luxo de três volumes e 870 páginas, lançado ao preço de 12,7 mil euros (R$ 42,3 mil) e focado no mercado de bibliotecas, especialistas e colecionadores. Mais de duzentas folhas estão na escala 1:1. Nelas, é possível admirar, por exemplo, a mão de Deus se estendendo à de Adão no painel mais célebre da capela, além da face de Jesus em “O Julgamento Final”. Para isso, foram necessários livros de nove quilos com páginas de quase um metro e meio de largura.

Tecnologia

As obras haviam sido registradas pela última vez entre 1980 e 1994. Naquela época, a fotografia digital apenas começava. As imagens de então foram feitas em filme após a polêmica restauração que, pela primeira vez em séculos, limpou o local onde os papas são eleitos. As capturas atuais se deram em máquinas digitais e usaram a iluminação perfeita, nem quente nem fria. Foi realizada uma pós-produção no computador para conferir profundidade, intensidade e leveza. Essas medidas aproximaram as reproduções do que se vê a olho nu, deixando-as 99,9% idênticas ao que está nas paredes – incluindo esboços abaixo da camada final de tinta. Michelangelo levou quase uma década para acabar a capela. O processo foi extenuante para o artista e para os papas que o comissionaram. Ele reclamava dos prazos apertados e do desgaste físico e mental. Os pontífices precisavam driblar atrasos e lidar com a personalidade rabugenta do mestre renascentista. No ensaio atual, as negociações entre a editora e o Vaticano demoraram um ano e meio. Depois de convencer a Igreja, foi preciso estabelecer o modo de conduzir o serviço para que as pinturas não fossem danificadas. “Decidimos manter o projeto em sigilo, pois não tínhamos certeza de nada”, afirma Armaroli. “Havia problemas todos os dias.”

Daqui para frente, os produtores vão buscar compradores e patrocinadores para os livros. Além disso, as imagens vão ajudar em futuras restaurações, porque mostram exatamente como a capela se encontra em 2017. “Faremos uma campanha pela conservação da Capela Sistina”, diz Armaroli. “Agora, poderemos fazer reparos porque temos essas fotos.”

LIVRO Fotos foram lançadas em três volumes de nove quilos cada: 220 páginas em escala real
LIVRO Fotos foram lançadas em três volumes de nove quilos cada: 220 páginas em escala real

37]SORRISO REVELADO
Um novo estudo descobriu o significado da mais enigmática expressão da história da arte. Mas o sorriso de Mona Lisa é menos ambíguo do que se pensava: a Gioconda está “feliz”. Publicado num periódico ligado à “Nature”, a análise foi feita por psiquiatras da Universidade de Freiburg (Alemanha). Os pesquisadores apresentaram a observadores nove versões da Mona Lisa alteradas digitalmente. Perguntados sobre quais emoções identificavam em cada uma, em quase 100% dos testes eles classificaram o sorriso original como de felicidade. “Nosso cérebro é tendencioso para expressões faciais positivas”, disse a autora, Emanuela Liaci.