Comportamento

TV é coisa do passado

Com a opção de assistir a seus programas favoritos quando e onde desejam, mais consumidores trocam a programação das emissoras por serviços de “streaming” como Netflix. A era da liberdade de escolha é bem-vinda — e chegou para ficar

TV é coisa do passado

Desde 1989, a vinheta de abertura do desenho animado “Os Simpsons” traz a cada episódio uma variação da mesma cena: a típica família de classe média que encerra os afazeres do dia no sofá da sala, diante da TV. A cena reflete um hábito enraizado ainda na década de 1950, quando os televisores se popularizaram de lar em lar e as emissoras criaram o que ficou conhecido como “horário nobre”, a faixa da programação que atrai maior audiência. Pois a emblemática cena que abre “Os Simpsons” está se tornando um retrato do passado. “No futuro, ninguém vai acreditar que as emissoras de TV exibiam seus programas exclusivamente em determinado horário”, afirmou Reed Hastings, co-fundador e CEO da Netflix, durante uma rápida passagem por São Paulo, na semana passada. Criada em 1997 como plataforma para locação de DVDs via internet, a Netflix se tornou símbolo de uma das mais importantes mudanças de comportamento da sociedade atual: o modo de ver TV.

GERAÇÃO “ON DEMAND”
O empresário Yuri Kubala, 29 anos, começou a abandonar a TV por assinatura em 2013. Recentemente, trocou o pacote de canais pelo menor possível, apenas para manter o “combo” que garante a conexão com a internet de banda larga. Sua TV passou a ser o smartphone. “Chego a ligar o celular na pia da cozinha enquanto lavo louça assistindo a uma série, e continuo na minha cama antes de dormir”, afirma. Júlia Chávez, 31 anos, e o marido Henrique Vilela, 37, cancelaram a TV a cabo de vez. O motivo: poder filtrar o conteúdo acessado pelos filhos Guilherme, 6, e Nina, 3. “Com tantas opções boas na internet, não precisamos da televisão”, diz Júlia. “Nós amamos assistir a filmes e seriados”.

67Os números confirmam essa tendência. No Brasil, as operadoras de TV por assinatura registraram queda de 4,3%, fechando 2016 com menos de 19 milhões de clientes — pior resultado desde 2013. Em parte, a redução reflete a crise econômica que aumentou o desemprego e forçou as famílias a diminuir despesas. Porém, o aumento do número de brasileiros dispostos a pagar por internet de banda larga vai na contramão da necessidade de cortes. “Além do fator crise, há uma mudança de hábito importante. As novas gerações priorizam a mobilidade e consomem entretenimento sob demanda”, afirma Rodrigo Tafner, coordenador do curso Sistemas de Informação em Comunicação e Gestão da Escola Superior de Propaganda e Marketing. “É um público que cresceu podendo assistir ao que quer, quando e onde acha mais conveviente”, diz.

visionário Reed Hastings, CEO da Netflix, em São Paulo: símbolo de um novo tempo
VISIONÁRIO Reed Hastings, CEO da Netflix, em São Paulo: símbolo de um novo tempo

A preferência pela mobilidade e pela conveniência das telas do tablet, notebook e smartphone ajuda a entender a queda na venda de televisores, um fenômeno global nos dois últimos anos. Mas não é só a garotada que está migrando para o vídeo “on demand”. Na casa do designer gráfico Gilberto Moralli, 59 anos, e da mulher Suzie, 55, a grande tela plana de TV é hoje um item decorativo. “A televisão já era há muito tempo. Na nossa casa é só internet”, afirma. Hoje, é no notebook que Moralli assiste a seus filmes prediletos.

“A TV, como a conhecemos, está dando os últimos suspiros”, diz o diretor de cinema Daniel Bydlowski, membro do Directors Guild of America e doutorando pela Universidade da Califórnia, nos EUA. “O espectador já se acostumou com telas menores e a maioria assiste aos filmes e seriados enquanto checa seus e-mails ou conversa com amigos”, acredita. A tecnologia por trás dessa flexibilização é o “streaming”, a transferência de dados via internet que permite a reprodução de arquivos de áudio e vídeo. Youtube e sites de música como Spotify, Deezer e Soundcloud se tornaram possíveis graças ao streaming. O mesmo vale para a Netflix, que cobra uma assinatura mensal para quem quer acessar seu imenso catálogo de séries e filmes.

Para Almir Almas, vice-chefe do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Universidade de São Paulo e diretor da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão, até o conceito de “grade de programação” tende a desaparecer. “A grade, neste caso, é feita pelo usuário, que ganha uma liberdade de escolha maior e se torna curador da própria programação”, afirma. Para acompanhar os novos anseios do telespectador, as operadoras de TV por assinatura passaram a oferecer programação sob demanda, vendendo filmes e episódios de séries avulsos.

A rede Globo lançou no ano passado o GloboPlay, que transmite conteúdo por streaming para computadores e smartphones. O serviço é gratuito e tem sido usado de forma estratégica para atrair parte do público que havia abandonado a programação da emissora. Algumas minisséries, como “Justiça”, foram disponibilizadas no aplicativo GloboPlay antes mesmo de irem ao ar na grade regular da TV.

COMERCIAIS PERSONALIZADOS
A publicitária Beatriz Pennino, 29 anos, mora em São Paulo com mais duas pessoas — e os três optaram por não ter o aparelho de televisão em casa. Nem mesmo canais abertos estão disponíveis. “Não sou mais refém da programação fixa e acabei me acostumando a consumir conteúdo ‘on demand’”, diz ela, que assiste basicamente à Netflix, com suas séries e filmes, e ao Youtube, onde busca vídeos mais informativos, como cursos de filosofia. “Por oferecer enorme variedade de conteúdo, esses serviços também puderam fazer algo que tanto a TV quanto o cinema vinham evitando: arriscar e apostar em novidades”, diz o cineasta Daniel Bydlowski. Usando sistemas inteligentes que permitem captar o gosto da audiência de forma mais apurada, Netflix e Amazon puderam se concentrar em fatias menores do mercado, oferecendo e, recomendando aos usuários os programas de seu interesse.

No caso da Amazon, as informações sobre a audência podem ser usadas não só na criação de conteúdo personalizado, mas também para vender outros produtos, já que o principal negócio da empresa é o varejo eletrônico. “Além disso, a aquisição dessas informações ajuda na criação de comerciais personalizados, o que nunca foi possível na mídia tradicional”, completa Bydlowski.

Diane de tudo isso, a TV ainda tem futuro? “Por incrível que possa parecer, sim”, diz o professor Almir Almas. Presente em 97% dos lares do País, a TV gratuita ajuda a entreter e a informar a grande maioria dos brasileiros. “A saída que eu vejo é a interatividade, como a escolha da programação. Isso é possível com a digitalização do sinal. Além disso, as redes de TV podem enviar conteúdos para aparelhos de celular sem que eles precisem estar conectados à internet”. Muitos aparelhos saem de fábrica com o recurso. Ao que parece, a TV do futuro será de bolso.

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