Artes Visuais

Tunga, o agregador

Seleção de obras íntimas, históricas e inéditas compõe a última individual do artista falecido em junho

Pálpebras – Tunga/ Galeria Millan, SP/ de 15/10 a 12/11

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O ESCULTOR E A ALQUIMIA: Tunga em seu atelier

Aquele que agrega, agrupa pessoas, incorpora novas ideias, reúne elementos, junta conceitos, informações. Agregador seria uma boa definição para Tunga, o conhecido escultor e artista performático que atraiu todas as tribos e gerações da arte contemporânea em torno de uma obra misteriosa e surpreendente, deixando em todos o sentimento de perda e tristeza diante de sua morte, em junho passado.

Uma obra da série “Phanógrafos”: ele não produziu para ser comercializado

As homenagens prestadas ao artista este ano são muitas. Como demonstração de sua centralidade na arte brasileira, o MAM-RJ elege um desenho da série “Em Polvorosa” (1996) como ícone da exposição que atualmente apresenta uma mescla das três grandes coleções que constituem o acervo do museu. O Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), dedicou-lhe três dias de performances, em setembro. Na Galeria Psicoativa (dedicada ao artista e inaugurada em 2012, com mais de dois mil metros quadrados) foi realizada a performance “Vanguarda Viperina”, envolvendo três serpentes sedadas e trançadas (com acompanhamento de biólogos). Em março do ano que vem, uma exposição em Londres explorará a obra de Tunga em relação à medicina e à alquimia.

A galeria Millan exibe em São Paulo a exposição “Pálpebras”, com uma seleção de obras íntimas, históricas e inéditas ocupando dois edifícios. Não se trata de retrospectiva, nem exatamente de uma exposição póstuma, uma vez que parte do desenho da mostra concebida pelo próprio Tunga para a individual que faria em setembro de 2015, no então recém-inaugurado edifício anexo da Millan.

O anexo estará montado, portanto, tal qual a concepção de Tunga, mostrando esculturas inéditas da série “Morfológicas”, compostas por peças robustas em bronze. Esse seu trabalho derradeiro é bastante elucidativo de um processo tantas vezes associado à alquimia. Embora elaboradas sem misturas de materiais e elementos, as peças apresentam morfologias híbridas, em estranhas composições de sensualidade, surrealismo e erotismo, que chegam a evocar outra grande artista do século 20, Maria Martins.

Na galeria principal, a homenagem propriamente dita se faz com a exibição de duas peças históricas — “Vênus” (anos 1970) e “Eixo Exógeno” (1986), emprestadas de coleções particulares —, e de peças “íntimas”, como as esculturas da série “Phanógrafos”, que estavam guardadas no ateliê do artista, o estúdio Agnut. “Tunga não é um artista que produziu para o mercado. Há coisas que ficaram dois, quatro, seis anos na sala dele e nunca seriam comercializadas”, diz à IstoÉ Fernando Sant’anna, seu assistente por 15 anos. Também em exibição, a instalação “Delivered in Voices” (2015) é outra peça vista anteriormente apenas dentro do estúdio Agnut.

Erotismo: Uma das inéditas “Morfológicas”: peças robustas em bronze evocam sensualidade e surrealismo
Erotismo: Uma das inéditas “Morfológicas”: peças robustas em bronze evocam sensualidade e surrealismo

O pernambucano Tunga (Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, Palmares, 1952 — Rio de Janeiro, 2016) está entre os primeiros artistas contemporâneos internacionais a expor no Museu do Louvre, com a obra “À Luz de Dois Mundos” (2005). Tem duas obras na coleção do MoMA-NY e seu filme “Nervo de Prata”, parceria com Artur Omar, foi o primeiro vídeo brasileiro adquirido pelo Centro Pompidou, de Paris.

A presente homenagem é obra de Fernando Sant’anna e de André Millan, amigo pessoal de Tunga, que há exatos 30 anos realizou sua primeira exposição individual. “Esta é uma exposição emocional, em que tentamos criar um universo para mostrar o quão enorme é o terreno onde Tunga atua”, diz Sant’anna. “Ele não deixou somente uma obra física. Sua obra é uma maneira de pensar”.

Fotos: divulgação; Cortesia Calder Foundation, New York-AUTVIS, Brasil, 2016