Brasil

Trajetória interrompida

Pedido de R$ 2 milhões a Joesley Batista deixa Aécio Neves afastado de suas funções no Senado e da presidência do PSDB. Com a irmã e um primo na cadeia, o neto de Tancredo agora se concentra em tentar provar que é inocente

Crédito: Jorge William

ATINGIDO Sob investigação na Lava Jato, Aécio irá se dedicar à própria defesa (Crédito: Jorge William)

Exilado na ilha grega de Patmos durante o primeiro século da era cristã, o apóstolo João teve ali as visões que o inspiraram a escrever o Livro do Apocalipse, o último do Novo Testamento. Não por acaso, Patmos é o nome da operação da Polícia Federal que na quinta-feira 18 colocou na cadeia pessoas próximas a Aécio Neves e interrompeu, ao menos temporariamente, a trajetória política do senador que presidia o PSDB. Entre os oito mandados de prisão preventiva expedidos pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), destacavam-se o de Andrea Neves, irmã e assessora de Aécio, 78e de Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred, primo de ambos e coordenador da campanha de Aécio em 2014. Andrea e Fred são citados numa gravação feita por Joesley Batista, sócio do frigorífico JBS, durante um encontro com Aécio em um hotel em São Paulo, em 24 de março. Na meia hora da conversa gravada pelo empresário que foi entregue à Procuradoria Geral da República (PGR) como parte de sua delação premiada, o senador trata dos detalhes da entrega de R$ 2 milhões, dinheiro pedido originalmente por Andrea Neves a Joesley Batista. O valor seria usado no pagamento dos advogados que defendem Aécio na Lava Jato.

As gravações serviram para que a Polícia Federal produzisse provas, incluindo imagens do dinheiro sendo entregue ao primo de Aécio, Fred, e o caminho que percorrido a partir dali. A PF confirmou que as quatro parcelas, de R$ 500 mil cada, foram levadas por Ricardo Saud, diretor da JBS, a Frederico Pacheco de Medeiros. Em vez de seguir para os advogados de Aécio, contudo, o valor foi creditado em uma conta da Tapera Participações Empreendimentos Agropecuários, de Gustavo Perrella, filho do senador Zezé Perrella (PMDB-MG). Nas gravações feitas pela PF, Mendherson Souza Lima, cunhado e secretário parlamentar de Perrella, recebe uma mala de dinheiro das mãos de Fred, em São Paulo. Mendherson também foi preso na operação Patmos. Agentes da PF seguiram Mendherson em três viagens que ele fez de carro para levar o dinheiro de São Paulo a Belo Horizonte. Quando ele foi detido, na quinta-feira, R$ 400 mil foram apreendidos em sua casa. Perrella divulgou um vídeo em que admite a amizade entre Fred e seu assessor, mas ressalta que jamais recebeu dinheiro de Joesley Batista e que os sigilos dele e das empresas de seus filhos estão à disposição da Justiça.

DETIDA Andres Neves, irmã e assessora de Aécio: prisão preventiva foi decretada pelo ministro Edson Fachin, do STF
DETIDA Andres Neves, irmã e assessora de Aécio: prisão preventiva foi decretada pelo ministro Edson Fachin, do STF (Crédito:Divulgação)

A defesa de Aécio sustenta que o empréstimo não teve nada de ilegal. As provas de que ele pediu e recebeu dinheiro da JBS, contudo, embasaram a decisão do ministro Fachin de afastá-lo de suas funções no Senado. Na mesma tarde, o parlamentar anunciou seu licenciamento por tempo indeterminado da presidência nacional do PSDB. Para alguém que alimentava o sonho de se eleger presidente da República, o dia 18 de maio foi de fato apocalíptico. Além de efetuar oito prisões, a Polícia Federal realizou na manhã da quinta-feira buscas nos gabinetes de Aécio Neves e de Zezé Perrella no Senado, no apartamento de Andrea no Rio de Janeiro e na residência do senador tucano no Lado Sul, em Brasília. Andrea foi detida em sua casa no condomínio Retiro das Pedras, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e levada para uma ala isolada do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, na capital mineira. Segundo os investigadores, ela havia agendado um voo para Londres e pretendia embarcar na noite da quinta-feira 18.

busca a apreensão Agentes da PF levam computadores da casa de Aécio em Brasília: o passaporte ficou retido
Busca a apreensão Agentes da PF levam computadores da casa de Aécio em Brasília: o passaporte ficou retido (Crédito:AFP PHOTO / EVARISTO SA)

“FARSA PREMEDITADA E CRIMINOSA”

A primeira reação de Aécio, publicada em uma rede social, foi declarar que estava “tranquilo quanto à correção” de seus atos. Ele admitiu ter uma relação “estritamente pessoal” com senhor Joesley Batista, “sem qualquer envolvimento com o setor público”, e que aguardaria “ter acesso ao conjunto das informações para prestar todos os esclarecimentos necessários”. À medida que o cerco foi se fechando, as versões se alteraram. Em nota, o advogado de Aécio, o José Eduardo Alckmin, fez um ataque direto a Joesley, afirmando que o empresário montou uma “farsa premeditada e criminosa, induzindo as conversas para alcançar seus objetivos de obter os benefícios da delação”. O advogado alega ainda que o senador pretendia vender ao empresário um apartamento de sua família, mas que Joesley insistiu no “empréstimo” de R$ 2 milhões, sem qualquer contrapartida. Para José Eduardo Alckmin, a fala de Aécio na gravação foi descontextualizada. A transcrição da conversa entre os dois mostra que não é bem assim.

Segundo as transcrições, Joesley disse a Aécio ter recebeu uma visita de Andrea Neves em seu escritório, ocasião em que a irmã do senador falou dos “dois milhões, pra tratar de advogado”. No entendimento do ministro Fachin, do STF, trata-se de uma “solicitação de vantagem indevida”. Ainda na transcrição, Aécio diz que antes de ter enviado a irmã ele havia passado “dez noites sem dormir direito” e que estava sem “dinheiro pra pagar nada”. Os dois acertaram os detalhes sobre a entrega do dinheiro, combinando que Joesley deveria procurar o primo de Aécio, Fred. Quando o empresário diz que enviaria o dinheiro por intermédio de alguém de sua confiança, o senador diz: “Tem que ser um que a gente mata antes de fazer delação”. Mas não é só. Além de acertar os detalhes do recurso, Aécio e Joesley falaram sobre o que poderia ser feito para deter o avanço da Lava Jato. Entre outras coisas, Aécio diz que é preciso “entrar no abuso de autoridade”, dando a entender que usaria sua influência no Senado para tentar limitar a atuação dos procuradores da força-tarefa.

colegas Aécio e o senador mineiro Zezé Perrella: segundo a PF, dinheiro da JBS foi para empresa de um filho dele
Colegas Aécio e o senador mineiro Zezé Perrella: segundo a PF, dinheiro da JBS foi para empresa de um filho dele (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress)

DEVASTADO

O diálogo que permitiu à Polícia Federal flagrar a entrega do dinheiro também serviu de base para que a Procuradoria Geral da República (PGR) pedisse a prisão preventiva de Aécio. O ministro Edson Fachin, do STF, negou o pedido, mas apreendeu o passaporte do tucano e proibiu que ele mantivesse contato com outros investigados na Lava Jato. A divulgação da conversa com Joesley e as imagens do dinheiro entregue à pessoa que ele indicou o colocam em uma espécie de exílio político.
Embora permanecesse à frente do PSDB, o ex-governador de Minas Gerais, neto de Tancredo Neves e candidato derrotado à Presidência da República em 2014, já vinha enfrentando desgaste por ser alvo de sete inquéritos no âmbito da Lava Jato.

Segundo pessoas próximas, a prisão da irmã, o afastamento de suas funções no Senado e a decisão de deixar o comando do partido o deixaram devastado. Agora, ele terá de construir uma defesa à altura das ambições que cultiva desde o início de sua vida pública. Foi esse o tom da nota que divulgou na tarde da quinta-feira 18: “Me dedicarei diuturnamente a provar a minha inocência e de meus familiares para resgatar a honra e a dignidade que construí ao longo de meus mais de trinta anos de vida dedicada à política”.

IMBRÓGLIO TUCANO

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Antonio Cruz/Agência Brasil

Ao se licenciar da presidência do PSDB, Aécio Neves deixou o partido sem comando justamente quando ele era mais necessário. Na quinta-feira 18, as lideranças tucanas sequer haviam entrado em consenso sobre o apoio ao governo federal, do qual participa com quatro ministérios. Indicado pelo próprio Aécio para assumir interinamente a presidência do partido, o senador Tasso Jereissati (foto), levou ao gabinete de Michel Temer os ministros Bruno Araújo (Cidades), Antonio Imbassahy (Secretaria-Geral da Presidência) e o chanceler Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores). Embora mais cedo Araújo tivesse colocado o cargo à disposição, os três foram convencidos a permanecer. Apenas a ministra Luislinda Valois (Direitos Humanos) não participou do encontro. Para o líder do PSDB na Câmara, Ricardo Trípoli, o apoio a Temer dependerá do andamento das investigações. O PSDB pretende decidir ainda em junho o nome de seu candidato à eleição presidencial de 2018. O destino de Temer pode impactar também nas ambições dos tucanos nas urnas.

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