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HISTÓRIA  A médica, premiada pela Nature,  coordenou equipe responsável pela descoberta da associação entre o vírus da Zika e a microcefalia

Entrevista

Celina Turchi

“Tenho orgulho da ciência brasileira”

“Tenho orgulho da ciência brasileira”

Cilene Pereira
Edição 22.12.2016 - nº 2455

Aos 64 anos, a médica Celina Turchi acaba de entrar para a história da medicina brasileira. Na semana passada, ela foi incluída pela revista Nature – uma das mais renomadas publicações científicas do mundo – na lista dos dez cientistas mais importantes de 2016. É uma espécie de Oscar da ciência mundial. Graduada pela Universidade Federal de Goiás e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Pernambuco, Celina coordenou uma força-tarefa incluindo cientistas brasileiros e de outros países responsável pela descoberta da associação entre o vírus da zika e a microcefalia. A informação foi fundamental para nortear o trabalho de prevenção e acompanhamento dirigido a grávidas residentes nas áreas de risco de todo o planeta. Representou, ainda, o primeiro grande achado sobre um vírus cujas formas de ação e prejuízos à saúde em muito permanecem um mistério. “As gestantes das áreas acometidas pelo vírus vêm sendo monitoradas para melhor conhecermos em que momento da infecção ocorrem os danos nos fetos”, disse nesta entrevista à ISTOÉ ao se referir a uma das perguntas sem resposta sobre o assunto. Ao falar sobre a inclusão de seu nome na lista da Nature, a especialista faz questão de lembrar que não trabalhou sozinha e compartilha a honra com aqueles que, como ela, passaram o último ano empenhados em decifrar o mais recente desafio da ciência médica mundial.

Como a sra. recebeu a notícia de que estava na lista da Nature?

Foi uma grata surpresa. Entendo que esse é o reconhecimento para pesquisadores e profissionais de saúde que atuaram no epicentro da epidemia de microcefalia, trabalhando de forma colaborativa para gerar evidências científicas.

Havia sido comunicada pela revista antes?

Há aproximadamente um mês recebi um pedido de entrevista, mas foi uma surpresa estar incluída no seleto grupo de cientistas de 2016. Seguramente um reconhecimento pela atuação do Brasil (Ministério da Saúde, Secretaria de Saúde de Pernambuco e instituições de pesquisa).

A ciência brasileira é feita sempre com muito sacrifício. De que maneira a distinção feita pela Nature ajudará o trabalho dos pesquisadores?

Acredito que sirva de estímulo aos investigadores jovens e também para reforçar as instituições de pesquisa nacionais. Verbas para educação na formação e manutenção dos cientistas que estão atuando são fundamentais para dar resposta rápida às emergências em saúde pública.2

Que tipo de dificuldade a sra. enfrentou na realização do trabalho?

Gosto de pensar que, mais do que dificuldade, tínhamos o desafio inusitado de gerar evidências no meio de uma epidemia sem precedentes. Nesse aspecto, foi diferente de tudo o que já tinha vivenciado na minha vida de pesquisadora.

Qual o primeiro passo que tomou diante de algo tão distinto?

Por experiência, sabia que só agregando especialistas de diferentes áreas de pesquisa e profissionais de saúde poderíamos avançar rapidamente. Estabelecer a relação entre microcefalia e Zika dependia de estudo bem desenhado, conduzido com rigor científico e em laboratório de excelência para realização dos testes laboratoriais.

Quem participou dessa força-tarefa?

A participação dos cientistas do Laboratório Lavite do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães- Fiocruz Pernambuco foi fundamental. Também trabalhamos com epidemiologistas de diferentes instituições de pesquisas públicas, como a Universidade Federal de Pernambuco.

O grupo teve um nome?

Sim. Nós o batizamos de MERG Microcephaly Epidemic Research Group (Grupo de Pesquisa em Epidemia de Microcefalia, em tradução livre). Nele, contamos ainda com a energia e inteligência da pesquisadora Laura Rodrigues, brasileira e acadêmica da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM). Sei que deixei de mencionar inúmeros colegas, e já me desculpo por antecedência.

De que maneira os cientistas reagiram ao seu chamado de ajuda?

Houve um verdadeiro espírito de compartilhamento de informações e formação de rede. Eu mesma fui convocada pelo Ministério da Saúde para apoiar as atividades em Pernambuco, uma vez que trabalho na Fiocruz-PE como pesquisadora visitante.

Quanto tempo vocês levaram para constatar a relação entre o vírus e a microcefalia?

O estudo foi iniciado em janeiro de 2016. Em abril, dados parciais já indicavam fortes evidências da associação. Os resultados preliminares desse trabalho com metodologia de investigação de casos (neonatos com microcefalia) e controles (sem microcefalia) foram publicados na revista Lancet Infectious Diseases.

Nessa mesma época, no ano passado, vocês estavam começando as investigações. É verdade que o trabalho era tão intenso que a sra. não conseguiu dormir por dias e não passou o Natal com sua família?

Sim. Tínhamos acabado de receber os recursos financeiros da pesquisa (20 de dezembro de 2015) e precisávamos iniciar os processos. Acredito que 2015 e 2016 foram intensos, mas houve muita generosidade e colaboração de todos.

Inclusive da mãe de uma assistente, que chegou a mandar comida para vocês, não é mesmo?

Esses são bastidores das pesquisas. Como trabalhamos em períodos que no final de ano são considerados de recesso, tivemos a ótima surpresa de contar com refeições adequadas. Como você pode imaginar, temos muito a agradecer a todos.
Como vocês gerenciaram os momentos de tensão?
Mesmo nas horas de maior estresse o importante era trabalhar focado. O convívio dentro do grupo e fora dele sempre foi extremamente cordial.

Qual foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção?

O número excessivo de casos de recém-nascidos com características diferentes (pequenas cabeças), o assombro dos profissionais de saúde com a situação e particularmente o olhar indagador das mães (por vezes adolescentes) tentando entender o que estava acontecendo.

Os médicos começaram a comentar entre si que haviam visto muitos casos de crianças com características cerebrais distintas?

Mais que comentar. Foi iniciativa de duas neuropediatras dar o alerta para a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco da possibilidade de estar ocorrendo algum evento que precisava ser investigado. Nosso reconhecimento às neuropediatras Ana e Vanessa Van der Linder (mãe e filha, respectivamente), que na sua rotina de atendimento no setor público identificaram precocemente o surto.

Como teve a ideia de que o problema poderia estar ligado ao zika?

Essa foi uma hipótese levantada inicialmente pelo médico Carlos Brito. No início da epidemia não havia dados na literatura científica sobre os efeitos da infecção do Zika e associação com má-formações congênitas.

Suas descobertas obrigaram a adoção de condutas de proteção à grávidas de todo o mundo. Como se sente em relação ao impacto disso na vida de milhões de mulheres?

A formulação de protocolos para grávidas e neonatos antecederam os achados do estudo. Devemos reconhecer o papel dos técnicos do Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco e outros Estados que, em conjunto com os médicos e demais profissionais de saúde, desdobraram-se para fazer os guias de monitoramento e acompanhamento. Sinto orgulho em fazer parte dessa história que vem sendo escrita por brasileiros. Tenho orgulho da ciência brasileira.

Já havia registros de casos esporádicos do vírus em outros países há pelo menos 70 anos. Por que ele permaneceu tanto tempo sem causar nada e agora mostra-se tão agressivo?

Esta é uma pergunta interessante, mas não podemos respondê-la com segurança.

O que a publicação de seu estudo mudou na sua rotina de pesquisadora?

A epidemia de microcefalia no Nordeste mudou a minha vida. Tinha me preparado para uma gradual desaceleração dos trabalhos de pesquisa e orientação quando me vi envolvida pela emergência.

Alguma vez imaginou que pudesse participar de um trabalho de tamanha importância?

Não. A vida é sempre surpreendente. Embora para cientistas a pesquisa do momento seja sempre a mais importante, a busca por evidências em período de epidemia requer urgência e, às vezes, vem cercada de muito ruído.

A sra. afirmou que quando começou seu trabalho não havia livro a ser seguido. Como se sente agora, tendo escrito um dos capítulos mais importantes da medicina?

Sinto-me privilegiada em fazer parte de um grupo grande de cientistas brasileiros. E reconheço o investimento feito pelo Brasil na minha formação. Estudei medicina na Universidade Federal de Goiás, fiz pós-graduação mestrado na LSHTM, na Inglaterra, financiado pelo CNPq, e doutorado na Universidade de São Paulo com excelentes professores. E trabalhei sempre em instituições públicas com colegas muito comprometidos com o que fazem. Compartilho com eles esse reconhecimento.

Vocês foram protagonistas de uma das mais belas epopeias científicas da história. É plausível comparar o que fizeram com o que ocorreu no início das pesquisas sobre Aids, quando o mundo também não sabia nada sobre o HIV e passou a pesquisá-lo obsessivamente?

As comparações com eventos em diferentes épocas são problemáticas. Podemos dizer que a história desse capítulo das ciências da saúde foi surpreendente. E o que chama a atenção é o protagonismo dos cientistas do país trabalhando em conjunto com os órgãos públicos de saúde.


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