Cultura

Stálin: criador do império vermelho

“Paradoxos do Poder – 1878-1928” detalha as origens e a ascensão do ditador que espalhou o terror para levar a União Soviética do caos à condição de superpotência

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CONFIANÇA Stálin (à dir.) e Lênin, em 1922: fotografia tirada pela irmã do líder bolchevi que serviu para o futuro ditador mostrar influência (Crédito: Divulgação)

Na metade das 1112 páginas de “Stálin – Vol. 1: Paradoxos do Poder, 1878-1928” (Objetiva), o leitor sente-se perfeitamente familiarizado com a incomum história de Iósseb Djugachvíli, nome de batismo do ditador que liderou a transformação da caótica União Soviética pós-revolucionária em uma superpotência capaz de polarizar com os Estados Unidos o equilíbrio bélico global. Nascido em Góri, na Geórgia, o quarto filho (e único a vingar) de um sapateiro e uma serva “que os rumores diziam ser prostituta”, o homem que seria temido como um dos grandes genocidas da história passou seus primeiros anos em um porão, sobreviveu à varíola (que deixaria seu rosto marcado para sempre), foi expulso do seminário, recusado pelo Exército por ser fisicamente incapaz, esteve preso diversas vezes e, numa improvável ascensão à base de autoconfiança, conquistou um lugar de destaque no núcleo central da Revolução Russa e em seus desdobramentos.

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Uma boa biografia de Stálin (palavra russa para “Homem de Aço”) permite compreender melhor o que levou o mundo a ser o que é. Ao contar sua trajetória, desde os tempos em que Stálin era editor e articulista do jornal “Pravda” até assumir o comando de uma gigantesca nação que cobria dois continentes e 11 fusos, o livro do americano Stephen Kotkin dá conta de boa parte das transformações geopolíticas, culturais, ideológicas e militares do século passado.

Talvez por isso mesmo, na página 729, o autor faça uma advertência: “As biografias remetem muitas vezes à formação da personalidade de seus retratados. Mas será que precisamos mesmo localizar as fontes da postura política de Stálin ou até de sua alma perturbada nas surras que ele supostamente levou quando criança?”. A resposta vem pouco depois: “Os traços pessoais marcantes de Stálin que influíam em suas decisões políticas momentosas surgiram em consequência da política”. E leva a concluir que esse líder nato passou por “provações psicológicas significativas na luta para ser aclamado sucessor de Lênin”.

Vitória Baionetas do Exército Vermelho, liderado por Trótski, após a vitória na Crimeia, em 1920: Stálin soube superar seu maior rival
Vitória Baionetas do Exército Vermelho, liderado por Trótski, após a vitória na Crimeia, em 1920: Stálin soube superar seu maior rival (Crédito:Divulgação)

Poder ilimitado

As condições que lhe permitiram ascender até o ponto de criar uma ditadura pessoal, vencendo a acirrada disputa com seu antagonista Liev Trótski (Comissário da Guerra), são minuciosamente explicadas no livro a partir de fatos e de interpretações. Há longos trechos em que o nome de Stálin sequer aparece: são páginas que penetram nos bastidores da política internacional, como o Tratado de Versalhes, de 1919, que definiu o futuro da Alemanha após a Grande Guerra. Stálin não teve qualquer participação ali, mas o destino da URSS traçado por autoridades da França, Inglaterra e Estados Unidos foi decisivo para as estratégias que ele adotaria para seu país ao ser investido de um “poder ilimitado” — o que ocorreu em 1922, quando foi nomeado secretário-geral do Partido Comunista.

Por tratar apenas dos 30 primeiros anos de Stálin, o livro não se ocupa das atrocidades que ele cometeu a partir da década de 1930 e durante a Segunda Guerra (tema do “Vol. 2”, previsto para novembro). Ainda assim, a obra envolve o leitor com um ritmo impressionante e uma quantidade colossal de dados, incluindo dezenas de fotografias e mapas.

O que emerge com mais força dessa leitura é o retrato de Stálin como um ser político pertinaz, o propagandista feroz de uma causa na qual acreditava piamente (“Todo o poder aos sovietes”) e um estrategista capaz de tirar vantagem das circunstâncias, especialmente ao mudar suas alianças para perseverar em seu obstinado propósito de ampliar o poder, sempre.

28Fidel merecia bem mais

Escrita pelo cubano Norberto Fuentes, “A Autobiografia de Fidel Castro” (Leya) é uma obra ficcional. Baseado em discursos, ideias e memórias do líder da revolução que se tornou um ditador sanguinário e uma figura folclórica, o “autorretrato” escrito no exílio está longe de esclarecer a personalidade que forjou o mito.