Edição nº2493 22.09 Ver edições anteriores

Secas Vivandeiras

ANOS DE CHUMBO, 1964 Marechal Castelo Branco passando a tropa em revista
ANOS DE CHUMBO, 1964 Marechal Castelo Branco passando a tropa em revista

“São as vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e causar extravagâncias ao poder militar”. A frase é empolada, convenhamos que é. Histórica, mas pouco conhecida. E extremamente hermética…

Quando o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco tomou posse na Presidência da República em abril de 1964, iniciando o período do regime militar que nefastamente se estendeu por mais de duas décadas, o general Eduardo Villas Bôas, atual comandante do Exército brasileiro, era então um garoto pré-adolescente de doze anos de idade. Como se vê, o tempo e as gerações separam o marechal do general, mas bem mais importante que isso, e para a felicidade geral da Nação, é que todo um ideário republicano também os distancia. Mais ainda: Castelo Branco, embora desejasse devolver o País à normalidade institucional em 1967, é inegável que conspirou na linha de frente a favor do golpe de Estado que rasgou a Constituição e apeou do poder o presidente João Goulart. Perdeu a parada para os militares da linha dura, foi sucedido por Arthur da Costa e Silva e o Brasil viu-se coberto pelo breu do totalitarismo. O quatro estrelas Villas Bôas está em posição diametralmente oposta: o seu temperamento e a sua formação intelectual são de rígido respeito à democracia, ao Estado de direito e de obediência ao presidente Michel Temer, comandante em chefe das Forças Armadas.

Há, no entanto, um ponto em comum entre Castelo Branco e Villas Bôas, não de aproximação ideológica, mas, isso sim, um ponto de destino – e aqui voltamos à frase que abriu esse artigo. Por meio dela, o que Castelo quis dizer, à época em que era chefe do estado maior do Exército, foi o seguinte: grupos de civis viviam indo até às altas patentes para cobrar-lhes intervenção no desgoverno de João Goulart. Nada diferente, como anotou o próprio marechal, do que já vinha acontecendo no Brasil desde o movimento tenentista na década de 1920. Pois bem, também agora, conforme relatou o general Villas Bôas ao presidente Temer, grupos de civis vão lhe visitar para dar ideia daquilo que na verdade é impensável: os militares novamente golpeando a ordem constitucional e a democracia, esfrangalhando com as instituições e tomando o poder. “A chance de voltarmos é zero”, disse Villas Bôas. “Aprendemos a lição e estamos escaldados (…) Mas há malucos e tresloucados civis que batem à porta pedindo intervenção militar”. O comandante do Exército garantiu a Temer que “o clima na tropa é de tranquilidade”, e fez uma rápida observação que, se não merece ser título de um livro, também não deve ser nota de pé de página. Digamos que tal observação componha um capítulo, ou menos, uma linha de um capítulo, mas é bom ser lida e pensada em uma república como a nossa, onde o povo, esse sim, sempre foi mesmo nota de rodapé. Realçou Villas Bôas: “Presidente, tudo isso é uma panela de pressão”.

ANOS DE CHUMBO, 1964 Marechal Castelo Branco passando a tropa em revista e cena de repressão a oponentes da ditadura, em São Paulo: “chance zero” de os militares voltarem ao poder
ANOS DE CHUMBO, 1964 Repressão a oponentes da ditadura, em São Paulo: “chance zero” de os militares voltarem ao poder

O certo é que Castelo Branco deixou-se seduzir pelas “vivandeiras” (que, entre outras acepções, significam mulheres que são pagas para chorar em velório, o mesmo que carpideiras). É certo também que Villas Bôas, se não os manda pentear macacos por uma questão de educação de berço, responde-lhes com o artigo 142 da Constituição, que disciplina as Forças Armadas como guardiãs do Estado de direito. Hoje é mais fácil a “panela de pressão” explodir em quem for “aos bivaques (acampamentos ao ar livre) bulir com os granadeiros (soldados)” do que estourar na sociedade. E isso se dá, sobretudo, porque as “vivandeiras” (civis conspiradores) podem teimar em ter memória curta, mas o povo não esqueceu do quanto esse País sangrou sob coturnos entre 1964 e 1985. Nos dias atuais de Lava Jato, lembremos da falácia dos ditadores militares e de seus dragões dos porões repressivos que apregoavam o combate à corrupção. É de chorar. Oponentes do regime eram presos, torturados e assassinados. Olhos foram vazados, corpos foram jogados ao mar, cadáveres foram enterrados clandestinamente como indigentes. A imprensa viu-se amordaçada, assistiu-se à diáspora de todas as cabeças pensantes do País. Os militares falavam em guerra contra a subversão e no fim da corrupção. Mais uma vez é de chorar, porque a ditadura das casernas no Brasil foi extremamente corrupta – e seus métodos obscurantistas de governo, como a censura à mídia, facilitaram-lhe a pilhagem.

“Vivandeiras”, vamos então a alguns exemplos, e tomemos o período do qual vocês mais gostaram da ditadura: os anos 1970, quando ela foi ainda mais brutal sob o tacão do general Emílio Garrastazu Médici. Fiquemos em alguns casos emblemáticos dignos de Lava Jato, se Lava Jato pudesse existir naquela época. Caso um: cabos, sargentos e capitães do Exército se envolveram diretamente com o contrabando. Foi acusado como um dos líderes das negociatas o capitão Aílton Guimarães Jorge, que recebera dos militares a honraria da Medalha do Pacificador. Caso dois: o ditador Médici indicou governadores a diversos estados do País, entre eles Haroldo Leon Peres, tido pelo regime como modelo de integridade ética. O leitor, certamente, sabe o velho ditado que diz “por fora é bela viola, por dentro é pão bolorento”. Pois então é isso: Peres, que vivia adulando os fardados, foi descoberto como extorsionário de um empreiteiro do qual arrancara US$ 1 milhão – e pensar que ele portava nas rodas palacianas o salvo conduto de homem honesto dado-lhe pelo Serviço Nacional de Informações. Caso três: mordomias e mais mordomias financiadas com dinheiro público davam conta de mulheres de ministros comprando vidros de laquê, piscinas sendo construídas em diversas residências oficiais, filmes eróticos que, mesmo proibidos pela censura, acabavam sendo importados a peso de ouro – como “Emmanuelle”, cujo ápice é a cena de sexo no banheiro de um avião. Era a lavagem-sacanagem do dinheiro do contribuinte. Como não se vive só de sexo, na casa de um governante compraram-se num único dia sete mil pãezinhos. Da tortura fraturando ossos à gatunagem do erário, dá para entender claramente o motivo pelo qual o general Eduardo Villas Bôas mostra-se taxativo ao afirmar que é “zero a chance” de retorno dos militares ao poder. Só resta mesmo, nesse momento e definitivamente, que as “vivandeiras” ponham um filmezinho para assistir em casa e deixem, de uma vez por todas, de encher a paciência de militares que têm mais o que fazer pelo bem do Brasil.


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