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Entrevista

Rodrigo Maia

Rodrigo Maia: “Não estamos atrás de aplausos”

Rodrigo Maia: “Não estamos atrás de aplausos”

Por Mel Bleil Gallo
Edição 11.11.2016 - nº 2449

Bem-sucedido ao conduzir a votação das medidas econômicas e de olho na reeleição ao comando da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) vai continuar priorizando a votação de projetos que garantam a governabilidade, como a Reforma da Previdência, mas paralelamente vai dar andamento a agendas de interesse da Casa. Segundo ele, mudanças na lei dos acordos de leniência e anistia ao caixa dois serão discutidas ainda este ano. A pressa tem motivos. Ninguém sabe o que será do meio político depois de homologada a delação de Marcelo Odebrecht.

Sobre as críticas a essas medidas, ele é categórico. “A gente não está aqui só para votar aquilo que tem aplausos”. Isso vale também para a reforma da Previdência, prevista para chegar ao Congresso no próximo dia 30. “Temos de dizer à sociedade que ou nós reequilibramos o Estado ou a alternativa é o colapso”.

 “Temer está fazendo um pente-fino na reforma da Previdência para não encaminhar (ao Congresso) nada que ele seja contrário”
“Temer está fazendo um pente-fino na reforma da Previdência para não encaminhar (ao Congresso) nada que ele seja contrário”

Qual a prioridade dos deputados, agora que a PEC do Teto dos Gastos já foi aprovada na Câmara?

Temos o pré-sal (possibilidade de a Petrobras não ser operadora exclusiva das águas profundas) e o projeto de lei que substitui a Medida Provisória 739 (acerca da concessão de benefícios do INSS). Há também pautas que os parlamentares estão trazendo. O projeto dos acordos de leniência e as dez medidas de combate à corrupção, por exemplo, precisam ser votadas. Também há as agendas de interesse dos governadores, com a questão dos precatórios, a possibilidade de venda da Dívida Ativa e alguma mudança na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), pedida por prefeitos e governadores, que pode ser votada aqui depois que o Tesouro autorizar.

A mudança no acordo de leniência e a possibilidade de anistia ao caixa dois são muito criticadas pela opinião pública. Essas propostas atendem aos interesses da sociedade?

Acho que a sociedade quer ver as investigações avançando e a legislação ser modernizada, podendo punir melhor quem comete ilícitos. A população quer que os empresários que cometeram crimes respondam por seus atos, mas quer proteger as empresas e os empregos. Garantindo a liberdade das instituições como o Brasil tem feito até hoje, a sociedade quer que se crie um ambiente em que se possa enxergar um futuro de recuperação para o Brasil. Quer geração de empregos, recuperação da renda, redução do endividamento. E o Parlamento precisa responder a isso.

O senhor diz que a sociedade quer o combate a corrupção. Aprovar uma anistia ao caixa dois não é ir na direção oposta?

O que cabe aos parlamentares, de forma transparente, é fazer o debate na comissão como fizemos nos últimos meses e votar o texto. Que cada um assuma sua responsabilidade. Os líderes e os partidos terão de tomar essa decisão. Minha opinião é de que, tipificado o crime, a questão para trás está harmonizada. Se tipificou é porque não existia crime. Se olhar nos tribunais, é pequena a quantidade de processos que foram julgados sobre caixa dois. Então acho que a proposta do Ministério Público é boa, mas se precisa ser tipificado é porque o crime para trás não existia. Essa é uma opinião minha e o plenário vai ser soberano para tomar essa decisão. Hoje tem TV aberta, rádio ao vivo e ninguém esconde nada de ninguém mais. Só é importante não cometer o erro que se cometeu da outra vez, tentando votar isso em outro projeto. É preciso saber que a gente não está aqui só para votar aquilo que tem aplausos. As reformas de Estado muitas vezes não têm aplausos no curto prazo, mas depois a população reconhece. Por isso, sou tão defensor das reformas. Elas é que vão garantir o futuro do Brasil. Se nada for feito, vamos entrar na situação do Estado do Rio de Janeiro.

O governo já fala em uma reforma previdenciária possível. É um recuo?

A gente sabe que essa reforma nunca teve facilidade para passar na Casa. Mas acho que as condições do Brasil de hoje abrem uma condição melhor para sua votação. A situação nos estados e municípios nos permite dizer com tranquilidade que não há mais mágica, não há mais jeitinho. Tentaram ser bonzinhos no curto prazo e deu no que deu. A grave crise que o Brasil vive traz uma oportunidade. Temos de aproveitar a herança deixada para dizer à sociedade que ou nós reequilibramos e reorganizamos o Estado brasileiro ou a alternativa é o colapso.

Foi dito que o texto deve chegar à Câmara no dia 30 de novembro. Ele está pronto?

Me deu a impressão de que a proposta de fato está pronta e que agora o presidente Temer está estudando, depois do trabalho feito pelos técnicos. Acho que ele está fazendo um pente-fino para não encaminhar nada que ele seja contrário. Isso deve levar mais umas duas semanas.

Para 2018, já existe algum nome natural à sucessão de Michel Temer?

O processo sucessório vai depender muito do sucesso do governo. É difícil prever como será 2018 se a gente nem sabe como o governo vai chegar até lá. Se chegar forte, a tendência é a base estar unida. Caso chegue mais fraco, a base já deve ficar mais pulverizada, com vários atores entendendo que o papel do governo não será predominante e que, portanto, vale a pena disputar o processo.

A sucessão do senhor à Presidência da Câmara será um teste à capacidade do governo Temer de unificar a própria base?

São processos distintos. O Michel, pelo respeito que tem às instituições, terá de tomar sempre o cuidado de não deixar nunca transparecer que há participação do governo numa operação para intervir no processo da disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados. Na minha eleição foi assim.

Mas o senhor mesmo reconheceu que o governo quase sofreu um racha na última disputa, ao soltar completamente a base.

Agora é um momento distinto do anterior e acho que vão se construir menos candidaturas do que da outra vez. É claro que o governo, a partir dos seus partidos, influencia no processo. Mas agora tem tempo para fazer uma análise maior – naquela vez foram só cinco dias e hoje nós temos dois meses.

Muito se fala do seu interesse nessa disputa. O senhor é um pré-candidato?

Não, não sou pré-candidato. Alguns parlamentares e amigos colocam que eu poderia disputar a reeleição. Mas não acho que seja o momento de discutir isso, entende?

Juridicamente, há espaço para um reeleição já que estamos na mesma Legislatura?

Eu não tenho nenhuma consulta. Ninguém fez nenhuma e me encaminhou. Tem consultas do passado, do Garibaldi (Alves Filho, PMDB-RN), que queria ser candidato à reeleição na Presidência do Senado. Ele não foi porque o (José) Sarney (PMDB-AP) disputou. Naquelas consultas, cabia a possibilidade da reeleição. Mas acho que não é o tema do momento.

“O ministro Padilha pediu que eu sancionasse a MP que ampliou o FIES na ausência de Temer. Quem disse que fui oportunista é fofoqueiro”
“O ministro Padilha pediu que eu sancionasse a MP que ampliou o FIES na ausência de Temer. Quem disse que fui oportunista é fofoqueiro”

Qual é o perfil ideal do futuro presidente da Casa?

Sempre tentei construir na minha vida um perfil de conciliação e de harmonia com muito diálogo no processo legislativo na Câmara. Acho que na minha sucessão a gente tem que buscar construir esse caminho. O final eu não sei, só sei que o caminho é esse. Um perfil parecido com este que construí no processo eleitoral e na minha presidência. Leal à agenda econômica do governo, que é urgente, mas que dialogue com a oposição entendendo que o espaço deles é fundamental para que a instituição mantenha seu caráter democrático.

Integrantes do governo têm questionado a sua lealdade, por ter sancionado durante a ausência de Temer a ampliação de créditos para o Fies. Dizem que o senhor foi oportunista.

Tenho pena das pessoas do Palácio do Planalto que falam em off (sob condição de anonimato). Quem tem feito este tipo de fofoca tem prejudicado o presidente. O Palácio não fala, quem fala é o presidente, seu porta-voz e seus ministros – em on. Quem fala em off é covarde. Quando sancionei o Fies, estava de calça jeans e camiseta na residência, indo jantar com alguns amigos meus. O ministro Eliseu Padilha, que me parece que não foi nomeado por mim e nem é meu amigo há 30 anos, pediu que eu sancionasse a Medida Provisória naquela noite mesmo, às 23h. Foi o que eu fiz. Quem passou essa informação é fofoqueiro, não é homem e não quer ajudar o governo de Michel Temer.

O que o sr achou da vitória de Donald Trump nos EUA?

A primeira avaliação que eu faço é de que a democracia americana continua forte. Trump foi um candidato muito polêmico, mas que, na primeira entrevista que ele deu após o resultado, pareceu bem preocupado em deixar para trás a eleição e construir um ambiente de conciliação. Esse discurso de vitória é muito importante para a relação do Brasil com os Estados Unidos e deles com o ambiente mundial, pela força que eles têm. A partir de hoje, o que a gente sabe é que ele exerce uma influência grande sobre a economia mundial, por isso precisa desse perfil conciliador para que não se cause instabilidades no mercado. Mas minha impressão é que essa instabilidade do mercado mundial será transitória.

A eleição dele representa um fortalecimento do discurso conservador mundialmente?

É muito difícil ficar fazendo essas análises. As eleições passaram e ganhou um empresário. Ele teve a coragem de se colocar dentro de um partido e entrou num sistema em que não era para ele ter vencido as primárias, nem muito menos as eleições. Mas de forma democrática disputou e saiu vitorioso. Talvez muito mais pelos oito anos que os democratas estavam no poder, talvez por uma rejeição que a Hilary Clinton também tenha. É até incoerente, porque ela teve o apoio dos empresários, dos bancos, da grande mídia.

Foto: Dida Sampaio/Estadão conteúdo

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