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|  N° Edição:  2228 |  20.Jul.12 - 21:00 |  Atualizado em 23.Abr.14 - 01:17

O fim da caçada

Um dos criminosos nazistas mais procurados do mundo é preso aos 97 anos e reacende a polêmica: ainda é possível fazer um julgamento objetivo e justo dos responsáveis pelo holocausto?

Mariana Queiroz Barboza

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NAS SOMBRAS
Aos 97 anos, Csatary (acima) vivia como um pacato cidadão. Ninguém desconfiava que ele
era o carrasco que mandou 15,7 mil judeus húngaros (abaixo) para o matadouro de Auschwitz

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O húngaro Laszlo Csizsik-Csatary viveu os últimos 17 anos como um pacato senhor. Morava sozinho num bairro nobre de Budapeste, na Hungria, fazia suas próprias compras num shopping perto de casa e evitava maiores contatos com seus vizinhos. Aos 97 anos, parecia, enfim, um homem como tantos outros, à procura de paz e conforto para o fim de sua vida. Tudo seria corriqueiro se Csatary não tivesse sido, na semana passada, identificado como o criminoso nazista mais procurado do mundo. Ele foi localizado pelos repórteres do jornal britânico “The Sun” que seguiam informações do Centro Internacional de Combate ao Antissemitismo Simon Wiesenthal. Csatary é apontado como um dos responsáveis pelo envio de 15.700 judeus à morte em Auschwitz, o maior campo de concentração nazista, em 1944. Também é acusado pela deportação de cerca de 300 judeus para a Ucrânia, onde foram assassinados, em 1941. Na quarta-feira 18, ele foi interrogado pela polícia e colocado em prisão domiciliar por 30 dias. “Instamos as autoridades húngaras para completar o resto do processo judicial e levar Csatary à Justiça o mais rápido possível”, declarou Efraim Zuroff, diretor do Wiesenthal em Jerusalém. “Esta é a dívida para com as muitas vítimas que ele torturou e extraditou para que fossem assassinadas.”

Durante a Segunda Guerra Mundial, Laszlo Csatary chefiou a polícia de Kosice, área ocupada pela Hungria, aliada dos nazistas na época, e que hoje pertence ao território da Eslováquia. Segundo o “The Sun”, documentos relatam que Csatary batia nas mulheres de um gueto judeu com um chicote que levava pendurado no cinto e com uma coleira de cachorro, e as forçava a cavar valas no chão congelado com as próprias mãos. “Apesar de idoso, ele ainda é responsável pelos crimes que cometeu”, disse à ISTOÉ Robert Rozett, um dos diretores do Centro Mundial de Pesquisas do Holocausto Yad Vashem, em Israel. “Não é só porque o tempo passou que temos de esquecer o que os nazistas fizeram.”

A MARCA
Csatary batia nas mulheres do gueto judeu com um chicote e as
forçava a cavar valas no chão congelado com as próprias mãos

Csatary alega inocência e diz que apenas seguia ordens. Mesmo assim, em 1948, ele foi condenado à revelia na ex-Tchecoslováquia por crimes de guerra e sentenciado à morte. Naquela época, já havia fugido para o Canadá, onde viveu sob falsa identidade, comercializando peças de arte. Em 1997 ele foi descoberto pelo governo canadense, que estudava sua deportação. Fugiu então para a Hungria, onde agora deve enfrentar um novo julgamento. Um processo judicial como esse, que se inicia mais de 70 anos depois que os crimes foram cometidos, enfrenta inúmeros obstáculos. Como a maioria das testemunhas já morreu, o crime e as condições em que foi cometido são difíceis de provar. Vivian Curran, professora de direito da Universidade de Pittsburgh, diz que há casos em que um réu é responsável pela morte de milhares de pessoas, mas acaba acusado por apenas uma pequena fração disso, porque não há evidências suficientes para levar adiante as demais acusações. “Isso torna o julgamento ridículo perto do que realmente aconteceu”, afirma.

Como o atual processo pode demorar anos para ser concluído e dada a idade avançada do réu, Efraim Zuroff apelou para que as acusações fossem agilizadas. A questão provoca controvérsias. O escritor britânico David Irving, especialista na Segunda Guerra, disse à ISTOÉ que “não é razoável, depois de tantos anos, ir atrás de esqueletos humanos por crimes que eles podem não ter cometido”. Irving, que também é biógrafo de líderes nazistas como Hermann Goring e Joseph Goebbels, argumenta: “É impossível fazer um julgamento objetivo e justo nessas condições. É repugnante ver um homem tão velho ser preso e processado.” O cientista político americano Norman Finkelstein, filho de judeus sobreviventes do Holocausto, concorda com ele: “Quantos remanescentes do nazismo ainda podem existir? Quantas pessoas vivem até os 97 anos? Será que não deveríamos gastar tanto tempo e dinheiro em outras questões?” Para o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, a incessante perseguição aos nazistas tem papel importante na história e não se trata de vingança, mas de um dever. “A única forma de repararmos as vítimas da violência, já que não podemos trazê-las de volta, é assegurar que o mundo de hoje seja mais justo do que o mundo onde elas viveram”, afirma. “O Holocausto é um dos episódios mais vergonhosos e tristes da história humana, porque foi obra de homens e não de um desastre natural.”

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Fonte: Centro Internacional de Combate ao Antissemitismo Simon Wiesenthal
*São considerados vivos, porque não há evidências conclusivas de
suas mortes aceitas pelo Centro Simon Wiesenthal

fotos: Bea Kallos/AP Photo/MTI; AP Photo

Berel Hofjud

EM 01/08/2012 15:39:52

Caro Artur. Mesmo que esse canalha seja velho ,ele tem que ser julgado pelos crimes que cometeu.Se sua familia tivesse alguem que foi deportado por ele para Auschwitz,voce nao iria querer um julgamento?


Renilda Cruz

EM 31/07/2012 17:27:41

Ele está velho, ok! Mais isso não significa que ele não tenha que ser julgado pelo sofrimento que casou a tantos a quase 70 anops atrás, velhice ou a justificativa que cometeu tais crimes ao comando de sue superiores não respalda tais ações e será julgado não por vingaça e sim por justiça de muitos.


Josué Sales Almeida

EM 31/07/2012 11:57:52

Enfiem este nojento numa prisão. O que ele fez é imperdoável, principalmente contra idosos, mulheres e criânças inocentes.


Artur

EM 28/07/2012 12:31:23

Tremenda covardia contra um velho que, se bobear, não lembra mais nem do próprio nome.





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