Artes Visuais

Que Brasil é esse?

Exposição comemorativa dos 30 anos do Itaú Cultural compartilha com o público o desafio de pensar modos de organizar uma coleção e de refletir sobre a história e a atualidade do País

Crédito: Divulgação

VERSO E REVERSO “Bandeira Nacional #10” (2016), de Jaime Lauriano, é uma das imagens que propõem uma revisão da história do Brasil (Crédito: Divulgação)

Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos/Oca, SP/ até 13/8

Na entrada da Oca, edifício projetado em 1951 por Oscar Niemeyer em referência às moradas indígenas brasileiras, está instalado um totem. Com 5,35 metros de altura, a escultura vertical foi realizada nos anos 1970 pelo artista Ascânio MMM, encomendada pelo então prefeito de São Paulo Olavo Egídio Setúbal, para um parque de esculturas na Praça da Sé. Anos depois, em administração posterior, a obra foi removida do local, dada como deteriorada e irrecuperável. Ficou décadas esquecida em um depósito, ao lado de dezenas de monumentos públicos abandonados, até ser resgatada, adquirida e finalmente restaurada pela família Setúbal. Hoje ela está na abertura da exposição “Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 anos”, agregada à coleção de mais de 15 mil itens do Itaú Unibanco. Mas tão logo a mostra se encerre, em agosto, será devolvida ao espaço público paulistano e instalada no parque de esculturas do Ibirapuera, agora em caráter permanente.

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Maquete de escultura pública de Ascânio MMM (Divulgação)

Mais que um ícone de uma coleção, essa obra tornou-se o emblema de um comprometimento social que já não conhecemos no Brasil. Enquanto tudo é pilhagem, roubalheira deslavada e terra arrasada na vida pública brasileira, eis que a mostra comemorativa de 30 anos de um instituto cultural se oferece como um presente à sociedade. A mostra é generosa e exigente. Dedica-se a todos os públicos — os mais e menos familiarizados com a arte —, mas espera de todos a mesma postura ativa.

MONTE VOCÊ MESMO “O Estrangeiro” (2011), de Sidney Amaral
MONTE VOCÊ MESMO “O Estrangeiro” (2011), de Sidney Amaral (Crédito:Divulgação)

Oferece em cada uma das cerca de 750 obras expostas, significativos extratos da vida brasileira. Mas que significados eles carregam? A mostra faz perguntas e entrega pistas, muitas, em cuidadosos textos de parede. Mas não respostas. Nesse sentido, é intelectualmente desafiadora e extremamente estimulante.

A biblioteca montada no espaço expositivo e “Palíndromo Incesto” (1990-2004) de Tunga.
A biblioteca montada no espaço expositivo e “Palíndromo Incesto” (1990-2004) de Tunga. (Crédito:Divulgação)

A curadoria de Paulo Herkenhoff, Leno Veras e Thais Rivitti parte do pressuposto de que a história da construção do Brasil passa pelas obras da coleção e pela cadeia de ações desempenhada pelo instituto nesses 30 anos. Ao longo da exposição, às vezes essas construções intelectuais são montadas a partir de escolas e movimentos conhecidos. Um módulo sobre o construtivismo, por exemplo, alinha Miton Dacosta, Volpi, Mira Schedell, Maria Leontina, Judith Lauand. Mas logo a narrativa perde a linearidade. Enlaçadas, as três histórias se multiplicam em muitas mais. A imagem escolhida para dar conta desse sistema heterodoxo de leituras cruzadas é a da constelação. Assim, no terceiro andar, dedicado ao confronto das cosmovisões de matriz eurocêntrica e afro-descendente (apagada pela história), justapõem-se Mestre Didi e Albert Eckhout; Jaime Lauriano, Sidney Amaral e Frans Post.

Obras da exposição se comportam como peças de um quebra-cabeças
Obras da exposição se comportam como peças de um quebra-cabeças (Crédito:Divulgação)

“Quebramos várias vezes a expografia para que ela se torne labiríntica”, explica o curador Leno Veras. “A exposição é um mapa para se perder”. O crítico Mario Pedrosa dizia que a arte é um exercício de liberdade. Essa é a proposição que faz-se ao visitante. “A exposição é montada como um dispositivo educacional e uma dinâmica comunicacional”, continua Veras. O objetivo é construir acervos de memória e revelar esses sistemas de pensamento. Assim, o desafio de pensar os modos de organizar uma coleção é compartilhado pelos três curadores com o público. Isso se dá dentro dos espaços labirínticos da Oca e no ambiente virtual de um aplicativo criado a partir da Enciclopédia Itaú Cultural, um compêndio de 170 mil verbetes on-line.

Alinham-se ao objetivo comunicacional da mostra uma biblioteca para consulta dos cerca de mil volumes publicados pelo instituto e o app com uma constelação de palavras, conceitos, artistas e teóricos, envolvidos no trabalho curatorial. Com essa ferramenta, o visitante faz da mostra um jogo de memória ou um jogo de montar, criando seu próprio modo de ver o Brasil. Mais que nunca, precisamos desenvolver modos de critica.