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Polícia bandida

60Foi com uma enxuta frase de seis palavras, dita categoricamente na década de 1970, que Marcelo Fleming Spittscakoff tornou-se referência no estudo da criminologia no Brasil. Quem foi Spittscakoff? Qual a marcante frase? Pois bem, apesar de sempre manter sisudos ares de compenetrado pensador, nosso personagem de sobrenome complicado foi um dos mais famosos bandidos do País, filho da alta classe média do Rio de Janeiro, homem culto, inteligente e extremamente educado. Nome verdadeiro: Lúcio Flávio Villar Lírio, isso mesmo, o assaltante que inspirou o filme “Passageiro da agonia”, de Hector Babenco. Vamos agora à frase que o imortalizou nos meios policiais e marginais, criada quando homens da lei insistiam em propor-lhe acordos e ameaçavam torturá-lo — bem mais atrás de dinheiro que era produto de roubo do que de informação: “polícia é polícia, bandido é bandido”. Assim falou ele. Assim atraiu contra si a ira de policiais do todo o Brasil (somente para se ter uma ideia, Lúcio Flávio foi assassinado com 28 facadas, já preso, por um colega de cela. Esse colega, alcunha de “Marujo”, foi logo morto por outro presidiário. E tal presidiário, por sua vez, também morreu nas mãos de um detento. Era importante que se apagasse qualquer vestígio da vida e da morte desse ladrão.

Então, “polícia é polícia, bandido é bandido”, e iniciou-se esse artigo com tal frase antológica para se falar do caos instaurado na segurança pública do Espírito Santo com a greve da Polícia Militar. Ou seja: em Vitória, a capital capixaba, a cisão entre polícia e bandido anulou-se, e PMs estão atuando literalmente ao arrepio da lei (aliás, vale lembrar que foi também em Vitória que o Sr. Spttscakoff estreou na carreira criminosa, e, como tal, viu a sua candidatura a vereador ser barrada pelo regime militar). Quando se diz que policiais do Espírito Santo colocaram-se à margem do Estado de Direito ao deflagrarem uma greve reivindicatória por melhores salários, folheie-se a Constituição do Brasil e atente-se ao artigo 42: “os membros das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares, instituições organizadas com base na hierarquia e disciplina, são militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios”. A conclusão é mais do que clara no inciso IV do parágrafo 3º: “(…) ao militar são proibidas a sindicalização e a greve”. Não bastasse o que está fixado na magna Carta, a Justiça julgou ilegal a paralisação que já se espalha seu ideário de baderna e irresponsabilidade para Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Falando-se em ato criminoso e greves ilegais que se confundem, se sobrepõem e engendram cada vez mais caos e insegurança, o leitor já ouviu falar, é claro, em rebeliões de presidiários que começam com todas as cartas marcadas: os próprios familiares, em dia de visita, se colocam como reféns. Assim, ninguém pode dizer que são os detentos que estão promovendo a agitação nem dá para a tropa de choque da PM invadir o local porque vai sobrar cacetada e bala de borracha (quando não de chumbo e pólvora mesmo) para esposa, mãe e avó. Essa tática é mais manjada que manipulação de mesa de assembleia salarial por algumas lideranças sindicais. Mais: trata-se de uma estratégia covarde, e não foi outra a que se viu em Vitória. Policiais militares valeram-se covardemente de suas esposas e demais familiares como escudo, para que ninguém ousasse dizer que eles estavam rasgando a Constituição. Aquartelaram-se e declararam que não podiam sair porque os parentes não permitiam. Só rindo!

Tentar blindar-se com mulher em situação de ilegalidade (frise-se que a Justiça declarou a paralisação ilegal) não é em nada diferente de quando a polícia prende parente inocente de bandido para que ele diga aonde está escondido aquele que de fato é procurado. Talvez pouca gente se recorde ou saiba, mas raras vezes o Brasil frequentou de forma tão negativa o noticiário internacional (só perde para a Lava Jato) como no início da década de 1990: alguns policais detiveram no Rio de Janeiro a mãe do delinquente Maurinho Branco para que ela lhes apontasse o paradeiro do filho? Mãe é mãe, em mãe pode a polícia bater, em mãe pode a polícia dar choque, mãe emudece. E o mundo execrou a ação da polícia da Terra de Santa Cruz, da mesma forma que condenou, já nas primeiras horas, o motim de homens fardados que jogou à sanha do crime organizado a indefesa população de Vitória. É como se os policiais apontassem uma arma contra a cabeça do povo, e berrassem: ou o governo nos dá aumento ou vocês ficam sem proteção. Os manifestantes de rua ocuparam prédios públicos (subiram até em telhados), e isso é baderna. Já a greve, em si, é crime. É motim. E seu desdobramento no tecido social tornou-se barbárie, incivilidade, o “horror” declarado por Joseph Conrad em “O coração da trevas”, a “anomia social” teorizada por Émile Durkheim. Para se ficar nos delitos de furto e roubo, somente no primeiro dia da paralisação eles bateram na casa dos duzentos: média de pouco mais de oito por hora. Quanto aos homicídios, passaram de cento e vinte ao longo da semana.

Não é sem motivo, portanto, que surgiram comentários de que houve um distante entendimento para que o crime organizado agisse em Vitória e cidades litorâneas, apavorando a população, carente de segurança. Assim, também ela, a população, pressionaria o governo quanto às reivindicações salariais dos baderneiros. Se de fato se traçou tal plano de fragilizar a sociedade diante do terror, isso é tática barata de guerrilha urbana que constava dos manuais do terrorista Carlos Marighela, nos moldes do infantilismo da esquerda. Mais: é dedo no gatilho para lunático que sonha e delira com guerra civil. Para o bem da população, no entanto, três mil homens das Forças Armadas entraram em cena (aplaudidos pelo povo) e devem entrar também nas cidades nas quais a polícia tentar seguir os passos de Vitória. Além da covardia de deixar gente de bem nas mãos de criminosos, além da covardia (bisonha, mas covardia) de usarem familiares como proteção, há ainda um terceira covardia: a de entrar em greve tendo arma carregada no coldre. Aí configura-se uma perigosa, insana, ilegal e antidemocrática chantagem a ameaçar o Estado de Direito. São policiais militares metendo o “cano” na cara do cidadão, gritando “perdeu, perdeu”. Isso é irracional e ilegítimo, é o caso de polícia para a polícia.


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