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Sou uma cantora homossexual feliz e fiel

Sou uma cantora homossexual feliz e fiel

Mauro Ferreira Foto Divulgação Cantora e compositora carioca que despontou em 2003 com canções confessionais que suscitaram comparações com o trabalho de Ana Carolina, Isabella Taviani chega ao quinto CD, Eu Raio X, com sua identidade já marcada e com disposição para exercer toda sua liberdade de expressão. Em sintonia com a transparência sinalizada no título do disco, que gerou turnê que chega a São Paulo no sábado 16, em apresentação única na casa HSBC Brasil, a artista dá voz a letras que deixam transparecer sua homossexualidade. Em entrevista à Gente, Taviani fala pela primeira vez de sua homossexualidade, entrando para o time um time assumido que já conta com nomes como Ângela RoRo, Cássia Eller (1962 ? 2001) e a própria Ana Carolina, com quem Taviani já chegou a dividir o palco em apresentação que lotou a extinta casa carioca Canecão. Seu disco Eu Raio X tem letras, como as das canções ?Estrategista? e ?A Imperatriz e a Princesa?, que deixam transparecer uma vivência homossexual. Essa opção de se refletir nas letras foi pensada? Isabella Taviani ? Não foi pensada. Por eu ser homossexual, estes temas sempre estiveram implícitos na minha composição, na minha música. Mas chegou um momento, que é agora, com este disco, em que eu sinto mais liberdade de me expressar. Mas ?A Imperatriz e a Princesa? foi pensada, sim. Com todas essas questões sobre a união afetiva em voga, eu e Myllena (parceira de Taviani na música) pensamos em narrar um conto de fadas de final feliz sobre uma união homossexual. Prega o amor, a felicidade, o final feliz entre duas mulheres. No que o fato de você ser homossexual influencia sua obra e contribui para a sua inspiração? A contribuição vem de eu poder expressar meus sentimentos livremente. Sou uma cantora e compositora que não sou racional na hora de escrever. Sempre usei e vou usar a música como um veículo para expressar meus sentimentos mais escondidos. É como um diário. Então, porque não falar desse assunto (a homossexualidade), se ele é uma coisa tão natural na minha vida pessoal? Sim, mas, de certa forma, sua homossexualidade estava implícita na sua obra. Todo mundo sabia, mas não era como agora. Eu não me declarava como agora… E o que a fez se declarar agora? Foi a sensação desse disco, de eu não querer mais viver aprisionada a conceito algum. É um momento meu, de não me importar mais com as críticas, de não ambicionar mais ser aceita por todos. Eu quero tentar ser aceita agora por aqueles que me respeitam e gostam da minha música. Aqueles que não vão deixar de gostar de mim porque eu fiz um conto de fadas sobre duas mulheres. Sou uma cantora homossexual que canta canções de amor, sobre todos os níveis de relacionamento, sobre todos os tipos de amor. Como sua homossexualidade já estava implícita em suas letras até então, você sofreu preconceitos do público? Não, jamais. Isso é muito bonito. Eu respeito muito meu público e sou respeitada por ele. Nunca fui vítima de nenhuma frase de agressão, ninguém nunca manifestou um sentimento ruim por mim nem em momento público nem em momento privado da minha. O que eu sofri como mulher, como homossexual, na minha adolescência, foi um processo natural, que acontece com todo mundo, de descoberta no seio da minha família de uma história de que ainda não se sabia. Com o tempo, eu passei a ser respeitada no seio da minha família. Meus relacionamentos sempre foram duradouros. Sou uma mulher de relacionamentos duradouros. Sou uma mulher para casar. Então minha família percebeu como esses relacionamentos ? eu tive três relacionamentos longos na minha vida ? eram positivos para a construção da minha identidade, do meu caráter, para a minha felicidade. O fato de a Cássia Eller ter assumido a homossexualidade nos anos 1990 foi importante para você em termos pessoais? A Cássia foi um exemplo para mim em muitos fatores. Primeiro, como uma artista extremamente autêntica que não cedeu às conveniências e convenções artísticas. Eu me vejo nela nesse sentido. Eu tinha 33 anos quando lancei meu primeiro disco, mas iniciei nesse meio profissional ainda imatura, ainda buscando referências musicais. Eu ainda estava tateando. Ela ter se assumido lésbica foi muito bacana porque isso em nada mudou o trabalho artístico dela. Ela conseguiu mais respeito inclusive das pessoas. As pessoas querem ver coragem, verdade, autenticidade. Não é possível que no século 21 a gente ainda esteja acendendo fogueiras da inquisição, à caça dos homossexuais. Não estou pregando, nem levantando bandeira. Você chegou a gravar um disco com músicas da dupla norte-americana Os Carpenters. Em que pé está este projeto? Está lindo. Já tenho duas músicas gravadas e pretendo retomar este projeto depois da turnê do disco Eu Raio X. Quero fazer um Carpenters meio k.d. Lang. O valor sentimental que eu tenho por esse disco é muito sério mesmo. Eu aprendi a cantar com Karen Carpenter (vocalista da dupla, morta em 1983). A minha referência musical sempre foi ela. Por que então o projeto foi interrompido no início das gravações? Porque eu percebi que estava com um número grande de canções inéditas que eu não poderia segurar. Eu já estava há dois anos sem gravar um disco e tinha que fazer algo autoral naquele momento. Não achei que ia ser legal ficar longe desse público que estava carente das minhas composições novas. Por que raspou o cabelo para a capa do disco e está mantendo o corte? Foi tudo por causa da canção ?Raio X?. O cabelo é a nossa moldura, né? A mulher pode ficar nua que, se o cabelo tiver lindo, ela está bem-arrumada. Raspei o cabelo por uma questão artística, porque este disco mostra quem eu sou na essência. Não há nada para camuflar. * Leia mais sobre Isabella Taviani na IstoÉ Gente desta semana que já está nas bancas! Siga Gente no Twitter!