Edição nº2471 20.04 Ver edições anteriores

Obama e a força da imagem

A máxima vale para políticos, jornalistas e também para aquele seu parente chato. Não basta ser bom. É preciso aparentar ser. Na vida em sociedade, funciona assim. Preste atenção nas coisas que acontecem
ao seu redor. No trabalho, sempre há alguém que brilha nas reuniões, que parece transbordar de tantas ideais, que é mestre em simular eficiência. Esse sujeito nunca estará por baixo mesmo se não fizer nada que preste. Observe com atenção. Por trás do embusteiro existe um sujeito discreto, indiferente à projeção de sua imagem para o mundo exterior, mas que segura a onda nas tempestades mais violentas.

Se você viu o discurso de despedida do presidente (ou ex-, a partir da sexta-feira 20) Barack Obama vai entender o que digo. Obama é um dos mais brilhantes oradores da história. Seus discursos têm pausas e ritmos adequados. O queixo erguido impressiona e transmite segurança. A voz firme e o olhar penetrante atraem a afeição. Nós nos identificamos com o que ele diz. Reconhecemos qualidades que gostaríamos de possuir. Obama falou, mais firme do que nunca, que é preciso preservar a democracia. Que o racismo é uma força que divide a sociedade. Que a intolerância não deve ser tolerada. Ele chorou e nos deixou sensibilizados com o seu pranto, especialmente agora que Donald Trump bate faminto à porta de entrada. Deus do céu, o que será do mundo sem Obama e com Trump?

Será talvez uma lástima, mas é preciso colocar as coisas em seus devidos lugares. Obama não foi um presidente tão extraordinário quanto parece ter sido. Ele não transformou tanto o mundo quanto nós acreditamos que tenha transformado.É uma pena que seja assim, mas eu, você e a maioria das pessoas ao nosso lado achamos que este americano de 55 anos é melhor do que a realidade dos fatos demonstra.

Obama não foi um presidente tão extraordinário quanto parece ter sido. Não podemos deixar impressões superficiais nos cegarem

Sob Obama, mais negros foram mortos pela polícia nos Estados Unidos. Como resultado de decisões tomadas por ele, civis se tornaram alvo de drones militares no Oriente Médio. O horror expandiu-se, e o Estado Islâmico virou a mais temida das organizações terroristas. Com o consentimento de Obama, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos grampeou telefones e teve acesso a emails de chefes de Estado, inclusive da ex-presidente Dilma Rousseff.

Obama teve méritos, mas não podemos deixar as impressões superficiais, a imagem projetada, nos cegarem.

 


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