Edição nº2480 23.06 Ver edições anteriores

Ô

Esse artigo vai em homenagem a Noel Rosa, brasileiro genial e honesto, nos oitenta anos de sua morte.“Samba, agoniza mas não morre, alguém sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro”. Ao longo de mais de cem anos pensou-se que o Rio de Janeiro era perene feito a letra desse samba de Nelson Sargento. Erro: o Rio de Janeiro agonizou nas mãos do poder público corrupto, agonizou nas mãos de traficantes, e ninguém o socorreu. O Rio de Janeiro, ao contrário do samba, morreu.

A agonia começou em 1906 quando o prefeito Pereira Passos importou pedras da Europa para fazer o calcadão com desenhos de ondas em Copacabana (calcita branca, basalto preto), imitando o Passeio do Mar Largo, em Lisboa. Era a época de urbanização, e muita gente (trabalhador de macacão de zuarte e malandro de lenço no pescoço) foi literalmente chutada para o alto – sem ter onde morar, subiu os morros. A nossa música popular, única coisa que melhora nesse País, é claro que não tem a menor culpa no passamento da ex-cidade maravilhosa – nem seus compositores e intérpretes. É por meio da música, no entanto, que é possivel se fazer a sociologia do desatino e do destino carioca.

A música explica por qual razão o Rio de Janeiro deu no que deu: em nada.

Houve tempo em que a pobreza da favela era romantizada pelo morador do asfalto. Nem acho que era por mal, era ingenuidade mesmo, mas tal visão se fez perversa. A MPB registrava então tal comportamento. Em setenta e oito rotações, nos vem do passado a voz de Roberto Martins: “hoje distante de ti, se vejo a lua surgir, eu relembro a batucada e começo a chorar”.

Ou, então, a voz de Sílvio Caldas: “tudo que eu tinha era uma esteira e uma panela, ô, e ela, ô, gostava”. O problema é que, se no grosso da população não havia maldade, o mesmo não ocorria com o poder público, que pouco se importava com a miséria. Para o Palácio do Catete, se “tudo que eu tinha, ô, era uma esteira e uma panela, ô”, isso não o afetava. O que contava era “Copacabana, princesinha do mar, tu és a vida eternamente a cantar”.

Aí a favela cansou de ser musa esfarrapada. Tom e Vinicius avisaram: “o morro não tem vez, e o que ele fez já foi demais”. Ninguém os ouviu. Era então inevitável que o crime, já organizado entre políticos como corrupção, se organizasse também nas comunidades do alto, como tráfico. A quadrilha da poeira decorre da do asfalto. Inscreva-se na lápide do Rio de Janeiro o seguinte epitáfio: o crime organizado tiroteia lá em cima porque governantes surrupiaram cá em embaixo. Ô.

“E o povo já pergunta com maldade, onde está a honestidade?” Samba de Noel Rosa


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