Internacional

O que ele vai fazer com o mundo?

Às vésperas de assumir a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump protagoniza uma série de confusões envolvendo de Hollywood à China. Com o mesmo tom agressivo usado na campanha, ele chegou a comparar os tempos atuais à Alemanha nazista

O que ele vai fazer com o mundo?

E AGORA? Donald Trump, que promete anunciar grandes notícias nas próximas semanas: o medo é que ele faça o que prometeu

O 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assume o cargo mais cobiçado da política internacional na próxima sexta-feira 20. Ele ainda nem chegou ao Salão Oval da Casa Branca e suas medidas populistas e reações exacerbadas já assustam o mundo. Nas semanas que antecederam a cerimônia da posse, Trump se meteu em várias confusões: brigou com a imprensa por conta de um suposto dossiê relatando negócios escusos e orgias com prostitutas; xingou a atriz Meryl Streep pelas críticas endereçadas a ele durante um discurso na cerimônia de entrega do prêmio Globo de Ouro; se contradisse a respeito de ataques feitos por hackers russos à campanha eleitoral adversária e, se não bastasse, começou um incidente diplomático com China e Taiwan. Tudo isso, repetindo, antes de ocupar a cadeira presidencial.

Sob intenso bombardeio daqueles contrários às suas posturas, Trump comparou os tempos atuais com a Alemanha nazista. Nessa farsa, os cínicos diriam, quem faz o papel de Adolf Hitler é o próprio Trump. Devido à sua xenofobia e ao seu discurso inflamado – e com a apreensão de quem sabe que muito mais está por vir – líderes globais e cidadãos comuns se perguntam: e agora? “Grandes, grandes notícias vão ser anunciadas nas próximas semanas”, afirmou Trump, com seu linguajar característico, durante entrevista coletiva para jornalistas na quarta-feira 11. “Na inauguração, vamos fazer um belo evento. Temos grande talento, tremendo talento.”

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CHANTAGEM

No mesmo dia em que Barack Obama se despedia da presidência após cumprir dois mandatos (leia no quadro), Trump realizou uma audiência para apresentar o governo e se defender de acusações que haviam sido publicadas na véspera. De acordo com a imprensa americana, um relatório atribuído a um ex-espião do serviço secreto britânico diz que a Rússia juntou dados comprometedores sobre Trump com o objetivo de chantagear o empresário. Cópias circularam em Washington durante a campanha do ano passado, e, ainda segundo a mídia local, um resumo de duas páginas do dossiê foi dada ao magnata e a Obama. O documento afirma que o presidente eleito aparece em um vídeo de sexo com prostitutas russas em um hotel de Moscou. Relata ainda que sua empresa fechou contratos na China e em países emergentes por meio de pagamento de propinas. Como as informações não foram confirmadas, sua publicação causou controvérsia nos meios de comunicação dos Estados Unidos. A rede CNN e o site Buzzfeed, que divulgaram a notícia, foram ameaçados de banimento da cobertura da Casa Branca e classificados como “monte de lixo” durante a coletiva. “As agências de inteligência nunca deveriam ter deixado essas notícias falsas vazarem”, disse Trump horas antes, em seu Twitter. “Estamos vivendo na Alemanha nazista?”

A difusão do conteúdo, verdadeiro ou não, reviveu velhas desconfianças sobre a relação entre Trump e a Rússia. Semanas atrás, as principais agências de inteligência dos Estados Unidos, como a CIA, o FBI e a NSA (National Security Agency), certificam que hackers russos invadiram o comitê de campanha dos democratas e liberaram informações comprometedoras da rival, Hillary Clinton. Trump passou todo esse tempo negando que o ataque havia acontecido, mas mudou de tática na entrevista coletiva, quando admitiu “achar” que a Rússia interferiu no pleito, sem dar mais detalhes nem reconhecer que a manobra o beneficiou diretamente. Com a posse de Trump, o diálogo entre os países, que não ia bem com Obama e não mudaria com Hillary, realmente será outro. A mudança afetará principalmente o futuro do conflito na Síria (do qual os russos participam ativamente) e a expansão do poder do Kremlin sobre seus vizinhos, em regiões como a Ucrânia e a Crimeia. “Se Putin gosta de Donald Trump”, se gabou o americano na entrevista, “vejam só, pessoal, isso é uma vantagem, não uma desvantagem.”

Além de causar estrago no âmbito doméstico, as afirmações intempestivas de Trump podem queimar relações dos Estados Unidos com países aliados. E até fazer com que o mandatário seja manipulado por adversários que conhecem seu comportamento. O presidente venezuelano Nicolás Maduro, por exemplo, tem tudo a ganhar com ataques vindos de Trump, através dos quais poderá fortalecer a narrativa de que seus problemas são culpa dos “yankees”, como sustentava Hugo Chavez. Uma prévia do que pode estar por vir na era Trump foi o incidente diplomático iniciado com os chineses depois que o presidente eleito dos EUA atendeu à ligação da mandatária de Taiwan. O regime comunista da China não aceita que outras nações reconheçam a soberania da ilha. Por isso, o contato de quase todo o mundo com o território se dá de maneira não oficial. No entanto, o empresário confessou que foi parabenizado por telefone pela taiwanesa, o que despertou a ira de Pequim.

O Ministério do Exterior da China emitiu nota de protesto depois de a conversa vir à tona. “Deve ser levado em conta que há apenas uma China, e Taiwan é parte inalienável da China”, escreveu o porta-voz Geng Shuang. “O governo da República Popular da China é o único governo legítimo que representa a China.”

CONFLITO de interesses Rex Tillerson, indicado por para o cargo de secretário de Estado: ele tem negócios na Rússia
CONFLITO DE INTERESSES Rex Tillerson, indicado por para o cargo de secretário de Estado: ele tem negócios na Rússia

FANFARRONICE

O episódio pode ser tanto fruto da ingenuidade como um cálculo político de Trump. Isso porque, ao lado do México, os chineses são pintados pelo presidente como os grandes vilões da economia dos Estados Unidos. Em sua campanha, ele prometeu combater sem descanso as importações dos dois países para gerar mais empregos em solo americano. O magnata pode ter criado o imbróglio justamente para disfarçar o fato de que a maior parte de suas declarações não passa de fanfarronice. Em primeiro lugar, porque a maior beneficiária da promessa de Trump de sair do Acordo Transpacífico é justamente a China, que estará livre para expandir sua influência no leste asiático. O mesmo vale para o isolacionismo do presidente eleito em relação à África e América Latina, territórios para onde os chineses poderão crescer. Em segundo lugar, porque as economias das duas nações são profundamente conectadas. Se, por um lado, Washington importa toneladas e toneladas de componentes chineses, por outro, Pequim é o maior portador de títulos da dívida pública americana. Um embate entre as duas potências afetaria drasticamente o mundo, mas os grandes prejudicados seriam justamente os principais envolvidos. “Temos que ver se essa briga vai ou não existir”, diz Ricardo Mendes, responsável pelo escritório em Miami da consultoria internacional Prospectiva. “Os chineses são muito pragmáticos, aguentam essa retórica. E os maiores perdedores disso seria os próprios americanos.”

No âmbito doméstico, o risco é maior para a população mais vulnerável. “Quem vai sofrer mais são os mais pobres”, afirma Geraldo Zahran, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ele, o cenário que se desenha é de “estudantes endividados, minorias perseguidas e imigrantes deportados”. Um dos exemplos de como o novo governo pode piorar a vida dos mais humildes está personificada no Procurador-Geral de Trump, Jeff Sessions. Ele enfrentou diversas acusações de racismo no passado, e sua sabatina no Senado contou até com manifestantes contrários vestidos de membros do grupo supremacista branco Ku Klux Klan. Em 1986, Sessions foi recusado para uma vaga de juiz federal sob a justificativa de que era muito retrógrado para os valores americanos. Em 2017, ele será provavelmente aceito pela maioria dos senadores, majoritariamente republicanos aliados. O Senado também referendará a nomeação de Rex Tillerson, presidente da companhia petrolífera ExxonMobil, para o cargo de secretário de Estado, responsável pelas relações exteriores dos Estados Unidos. Apesar de o empresário ter negócios na Rússia, o que implica em conflito de interesses, ele é dado como certo no cargo. A única nomeação que corre algum risco de ser barrada é a de Jared Kushner, genro do presidente eleito e escolhido como assessor sênior da Casa Branca. Sua aprovação não passa pelo Congresso, mas pode ser vetada pela lei contra o nepotismo. Mesmo assim, a jurisprudência americana dá brechas para que ele seja efetivado. No fim das contas, Trump levará com ele essas e outras figuras ligadas ao que há de mais obscurantista nos Estados Unidos. São eles que vão definir as pequenas e grandes questões da política americana daqui para frente.

DESPEDIDA Barack Obama, com Michelle e a filha Malia: no último discurso como presidente, ele disse que é preciso combater a discriminação
DESPEDIDA Barack Obama, com Michelle e a filha Malia: no último discurso como presidente, ele disse que é preciso combater a discriminação

ISOLAMENTO

Ao menos o muro separando Estados Unidos do México, promessa mais emblemática de Trump, não deverá ser erguido. Apesar de o presidente eleito ter confirmado na coletiva de imprensa da quarta-feira 11 que a construção está de pé e que pretende enviar a conta para os mexicanos, os custos superiores a US$ 25 bilhões e as dificuldades operacionais de um projeto desse porte inviabilizam a obra. Para não desagradar seus eleitores, no entanto, o empresário deve recorrer a uma barreira policial, ao invés de física, com endurecimento de leis de imigração e aumento do aparato de segurança das fronteiras. O mesmo se dá em relação à reforma de saúde do Obamacare. A promessa inicial era acabar com o projeto, mas as 20 milhões de pessoas atendidas pela medida inviabilizam sua dissolução. Trump prometeu substituir o programa, mas não explicou exatamente pelo quê. “Em relação ao muro, em relação ao Obamacare, em relação à política internacional, a retórica de Trump é sempre mais forte do que a prática”, diz Ricardo Mendes, da Prospectiva.

Como homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos serve de exemplo para os líderes de outros países. Como empresário que é, vê o comando de uma nação como um balcão de negócios em que se deve buscar o acordo mais vantajoso. Por esse lado, o magnata possui uma visão reducionista, porém legítima, das responsabilidades do cargo que conquistou. “De grão em grão, ele vai buscar vantagens pontuais. Mas não possui um grande plano de mudanças”, afirma Zahran, da PUC-SP. No entanto, seu desprezo pelos valores e pelas normas de conduta da democracia é um perigo não só para os americanos, mas para todas as nações do mundo. Uma onda de populistas, oportunistas e aventureiros vem conquistando espaço nos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil. Eles já alcançaram vitórias eleitorais expressivas, como a saída do Reino Unido da União Europeia. Em 2017, podem se elevar à posição mais alta de países importantes como a França. “Os Estados Unidos são uma referência cultural. Quando a coisa vai mal por lá, isso é ruim para todas as democracias”, diz Stuenkel, do Instituto Global de Política Pública. O problema é Trump, mas não só ele. O problema é também o que vem pela frente justamente por causa dele.

As últimas DE TRUMP

As confusões que o novo presidente já arranjou

Dossiê secreto
A imprensa americana publicou um suposto relatório de espionagem informando que a Rússia possui informações sobre negócios escusos do presidente eleito e vídeos de orgias dele com prostitutas. O conteúdo, porém, não foi confirmado

Briga com Hollywood
Criticado pela atriz Meryl Streep por conta de sua política para imigrantes e de sua imitação vexatória de um jornalista com deficiência, Trump referiu-se a ela como superestimada e disse que era amante da candidata derrotada
Hillary Clinton

Espionagem da Rússia
Mesmo com as principais agências de inteligência americana confirmando que hackers russos atacaram a campanha oposicionista do Partido Democrata, o presidente eleito segue negando que a gestão de Vladimir Putin o tenha beneficiado

Gafe com a China
O magnata recebeu uma ligação da presidente de Taiwan e abriu uma crise diplomática com os chineses. O regime comunista considera o país como parte de seu território e não tem relações com quem reconheça o governo oficialmente

Nomeações suspeitas
Trump apontou o genro como assessor sênior da Casa Branca, mas ato pode ser barrado pela lei contra o nepotismo. Indicações incluem também empresário com conflito de interesses com a Rússia e procurador-geral acusado de racismo

Herança dúbia

Barack Obama deixa posto com aprovação pública, mas também lega poderes perigosos para Trump

Ao deixar a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama não precisará se preocupar com desemprego. O serviço de reprodução de música via internet Spotify ofereceu ao americano a vaga de “presidente de playlists” após o mandatário brincar que gostaria de um cargo na empresa. Num anúncio fictício publicado online, a companhia escreveu que a experiência necessária era de pelo menos oito anos no comando de uma nação importante e um prêmio Nobel da Paz. Desde 2015, Obama compartilha no Spotify listas de suas músicas preferidas, que incluem artistas como Bob Marley, Coldplay e Justin Timberlake. Em seu discurso de despedida, na quarta-feira 11, o presidente afirmou que a democracia está ameaçada e fez críticas veladas a políticas de Donald Trump , dizendo que é preciso combater a discriminação. Na fala, Obama também chorou ao falar de sua família. Com esses sinais, ele sai do posto com avaliação positiva e fama de líder “gente boa”, mas a expansão que promoveu da autoridade do Executivo também beneficiará seu rival e sucessor. Hoje, presidentes podem começar guerras sem a aprovação do Congresso, ordenar ataques de drones no exterior sem acusação formal e coletar informações de e-mails e telefonemas privados quase livremente. Esse poder todo agora está nas mãos de Trump.