Artes Visuais

O museu está vivo

Sob nova direção artística, MuBE oferece ao público experiência sensorial com a escultura, a arquitetura e a paisagem urbana

Crédito: Paula Alzugaray

EM BALANÇO Móbile de Albano Afondo (acima) e esculturas pendulares de Raul Mourão (abaixo) (Crédito: Paula Alzugaray)

NOTÍCIAS DE UM NOVO MuBE – 2/ Museu Brasileiro da Escultura, SP/ até 31/7
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Paula Alzugaray

Em vinte anos de existência, o maior patrimônio cultural gerado pelo Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, foi tão e somente o edifício projetado por Paulo Mendes da Rocha, arquiteto brasileiro laureado com o Prêmio Pritzker em 2006 e Leão de Ouro na Bienal de Veneza, em maio deste ano. Em abril, a entrada em cena de um novo projeto curatorial começou a fazer jus a um dos espaços mais mal aproveitados da cidade. À frente da tarefa, o crítico e curador Cauê Alves concebeu para este ano duas exposições que colocam em prática ideias que estavam na origem do MuBe, mas que nunca haviam sido levadas a sério, de fato: sua vocação pública e sua relação com a cidade. “Há algo de escultural no próprio projeto do MuBE”, diz Cauê Alves à Istoé. “Mas na realidade este prédio é um anti-monumento, uma construção semi-subterrânea, com uma grande praça externa, onde queremos estimular o convívio”.

Em cartaz até o final de julho, “Notícias de um Novo MuBE – 2” ressalta as relações da arte com a arquitetura e a paisagem urbana. Integram a exposições três mostras individuais, articuladas entre si, que apresentam diferentes formas de pensar e entender a escultura. O artista carioca Raul Mourão ocupa a Grande Sala e área externa visível aos motoristas engarrafados na avenida Europa, com esculturas do projeto “Você está aqui”; o artista paulista Albano Afonso, “Em Estado de Suspensão”, ocupa Pinacoteca e área externa; e a dupla Chiara Banfi e Kassin sonoriza a praça externa com a intervenção “Fase 3”.

“Albano Afonso é um escultor”, diz Cauê Alves. “Mas não faz uma escultura inteiriça e sólida, como no século 19. Ela se espalha para o entorno”. Sua escultura é feita de móbiles suspensos que colocam em tensão e tênue equilíbrio elementos escultóricos tradicionais – bustos, fragmentos de corpo humano, vasos talhados em bronze – e “imateriais”, como a luz natural, a luz artificial, projeções, sombras e espelhos.

Os cristais, em sua solidez mineral, sua transparência vítrea e seus poderes energéticos, são os elementos que dão a “liga” entre os dois mundos. “Anatomia da Luz”, assim como os outros trabalhos, são composições escultóricas, luminosas e instáveis, que alimentam a imaginação do espectador com ideias sobre a natureza, o gênero pictórico da natureza morta, o cinema e o universo
ao redor do edifício do MuBE.

O “estado de suspensão” sugerido pelos móbiles de Albano Afonso se projeta para o exterior da instituição por meio das esculturas pendulares de Raul Mourão, objetos cuja monumentalidade atende à generosa escala dos espaços do edifício; e da peça sonora da artista Chiara Banfi e do produtor musical e compositor Kassin, produzida a partir de sons do espaço captados pela NASA, Agência Espacial Americana. Com esta intervenção, a curadoria intensifica sua saudável especulação em torno da questão “como dar conta de um museu dedicado à escultura, hoje?”. A resposta que se pode extrair da composição “Fase 3” é que a função do museu não se restringe a conter, guardar, proteger. Este aqui expõe, projeta, amplifica.

O som torna-se um guia, convidando o visitante atento a percorrer e desfrutar os espaços, intensificando sua percepção não apenas dos trabalhos artísticos, mas das linhas do edifício, dos sons da cidade, do balanço das árvores do jardim, do voo circular dos pássaros. Uma visita ao MuBE pode se fazer, então, um momento de contemplação e escuta, intervalo e suspensão.