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CRITÉRIO O cirurgião paulista critica a banalização do uso da tecnologia

Entrevista

Sidney Klajner

“O ensino médico é o mesmo de cem anos atrás”

“O ensino médico é o mesmo de cem anos atrás”

Cilene Pereira
Edição 13.01.2017 - nº 2457

A área destinada à direção e à presidência do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, está passando por reformas. É em meio às obras que o médico Sidney Klajner começa a se acomodar na cadeira de presidente da instituição, a mais importante da América Latina no setor médico privado. Ele substitui o oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do hospital nos últimos quinze anos. Cirurgião gastrointestinal, Klajner está no Einstein desde 1998 e ajudou a forjar algumas de suas marcas, como o trabalho multidisciplinar e o respeito à adoção de práticas que tenham a eficácia devidamente comprovada pela medicina. Também defende a aquisição de novas tecnologias somente quando houver vantagem evidente na sua utilização. “Não adianta comprar uma máquina só porque ela tem uma música diferente ou mais luzes do que a anterior.”

Que marcas o sr. pretende deixar na administração do Einstein?

Quero devolver a liderança da prática médica para o médico. Por muito tempo os hospitais determinaram o que deveria ser comprado, quantos leitos precisariam ser criados, como seria o centro cirúrgico.

Qual a vantagem de passar o controle ao médico?

Ele se sente engajado. São os médicos que vêem os pacientes. Acho que o Einstein chegou aonde chegou porque até de modo estatutário presume-se que seu presidente seja médico.

Que tipo de erro de gestão pode ser cometido por quem não é médico?

Há cerca de quinze anos o hospital comprou um equipamento a laser para tratar problemas de próstata. Logo nos primeiros meses deu uma complicação e a máquina ficou parada. Isso aconteceu porque um gestor achou que ela seria a máquina do futuro, quando nenhum urologista sabia usá-la.

O hospital possui várias equipes multidisciplinares. Por que isso é tão importante?

Há patologias que exigem olhar multidisciplinar, como doenças do sono e síndrome metabólica. E para nós o trabalho em equipe é fundamental.

De que maneira?

O trabalho em equipe deve preponderar sobre o individual, algo que não cabe mais na medicina. Até porque acaba influenciando a sustentabilidade da saúde como um todo. A figura do médico sozinho em seu consultório, com sua caneta e seu estetoscópio, não tem mais lugar. Há protocolos a serem cumpridos baseados nas evidências levantadas pela medicina.

Mas muitos médicos não são formados com essa mentalidade.

Na sua maioria, o ensino médico hoje é o mesmo de cem anos atrás. Prega o modelo hospitalocêntrico e com um médico autônomo. Isso resulta em uma medicina ineficaz, que desperdiça porque exige uma série enorme de consultas, com repetição de exames e tratamentos menos integrados.

O Albert Einstein ficou conhecido pela adoção em primeira mão de tecnologias avançadas. Isso vai continuar?

De fato, o hospital ganhou essa fama. Qualquer que fosse a tecnologia, o Einstein tinha. A primeira ressonância magnética do Brasil foi aqui. Os equipamentos eram comprados conforme o faro. Mas hoje a tecnologia já não é um fator competitivo. E há necessidade de eficiência e corte de desperdício. Comprar um recurso que não agrega ao tratamento é desnecessário.

Como o hospital compra um novo equipamento hoje?

Não se pode substituir uma tecnologia por outra só porque a nova tem uma música melhor ou duas luzes a mais. O mais importante é saber se ela permite que mais pacientes sejam atendidos e se reduz o tempo de recuperação, entre outros benefícios.

Pode dar um exemplo de uma tecnologia recente que atenda a esses requisitos?

O robô para tratar doenças da próstata. A cirurgia robótica demanda a aquisição de um equipamento caro, a formação de médicos para seu uso correto, o uso de insumos de preços diferentes. Mas o tempo de retorno às atividades normais é menor em comparação ao necessário depois de operações convencionais e a chance de o paciente ter como sequelas impotência ou incontinência urinária é menor.

A exibição de aparelhos modernos ainda fascina médicos e pacientes. Há banalização no uso da tecnologia?

Vamos analisar um caso que tivemos, considerando os pinos usados em cirurgias de coluna como tecnologia. Formamos um grupo para dar uma segunda opinião nos casos de indicação de operação. Com a nova análise, caiu à metade o número de cirurgias. O programa foi feito em conjunto com uma operadora de saúde e gerou à empresa uma economia de mais de R$ 20 milhões. A indicação desnecessária dos procedimentos é exemplo de tecnologia mal utilizada e banalizada.

Situações assim também são incentivadas por médicos interessados em receber por procedimento realizado?

Vivemos um modelo de remuneração médica que prevê o pagamento por quantidade de serviço. Quando passarmos a remunerar por valor, isso deve mudar.

De que maneira se daria essa remuneração?

Voltando ao exemplo da coluna: parte da economia feita poderia ser usada na remuneração do grupo que contribuiu para a redução de cirurgias desnecessárias.

Isso exige mudança na mentalidade também de pacientes. Queixas são comuns quando o médico não indica um exame ou procedimento.

A informação deve chegar de maneira adequada ao paciente para que ele seja informado do que agrega valor à sua saúde. Quando bem informado, ele entende que uma tomografia pedida a mais é um risco maior de câncer daqui a 30 anos. Compreende que fazer ressonância do joelho uma vez por mês para ver se o tratamento está indo bem não traz beneficio.

Na sua prática diária, o sr. vê exageros com frequência?

Vira e mexe estou contra-indicando a realização de colonoscopia (exame que permite a visualização do revestimento interno do intestino grosso). Sei que se for encontrado um número determinado de pólipos com características específicas, o exame deve ser repetido somente depois de cinco anos. Caso não seja encontrado nada, depois de dez anos. Não se trata da minha opinião. Está demonstrado. Mas canso de ver médicos, de novo, sozinhos, pedindo colonoscopia todo ano. Sabe aquela linha “aproveita e faz”? É isso.

No ano passado, dois cardiologistas do hospital foram demitidos por suspeita de privilegiarem o uso de um tipo de stent (dispositivo usado na desobstrução das artérias) para obter vantagens financeiras com o fornecedor. Como isso afetou a reputação do hospital?

Vimos que poderia existir uma quebra de confiança no setor de Hemodinâmica. Achamos por bem afastar os profissionais e entregar o caso à Justiça. Foi traumático, mas valeu a pena a correr o risco de imagem. Mostramos que temos barreiras para evitar que isso aconteça novamente.

Que impacto a crise teve nas contas do hospital?

Nos preparamos muito bem durante as gestões do Claudio Lottenberg. Fizemos as lições de casa, apresentamos uma boa performance em 2016 e não postergaremos o que havíamos planejado para investir neste ano.

Um caso raro diante do cenário difícil do ano passado. Qual o segredo desse desempenho em um setor de custos notadamente altos?

Independentemente do contexto, saúde é sempre uma área em crise porque a inflação desse segmento é maior do que a de qualquer país. O consumo e o número de idosos aumentam, a tecnologia é cara e o desperdício, grande. Hoje qualquer estudante de saúde tem que saber lidar com isso.
O sr. poderia apontar o que considera os erros principais na gestão da saúde pública brasileira?
O sistema é fragmentado. Não temos informações adequadas dos pacientes. Além disso, há uma desproporção da concentração de médicos pelo país, resultando em áreas onde não existe atendimento.

O Mais Médicos é um erro?

Se pensarmos no programa de forma estruturante, ele é adequado ao tentar povoar regiões sem médicos. O problema é a forma como ele foi feito, com a importação de profissionais. É preciso fomentar a formação local de médicos e oferecer condições de salário, de educação para sua família. Não simplesmente importar um médico, jogá-lo no lugar e achar que vai funcionar.

E qual sua avaliação em relação ao cuidado com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão?

É necessário investir pensando no futuro. A população de idosos cresce e é preciso dar condições para que eles adoeçam mais tarde do que hoje. Se não cuidarmos com prevenção, lá na frente vamos pagar o que não precisaríamos ter pago.

Como principal hospital privado do País, o Albert Einstein tem responsabilidade social de peso, especialmente em um setor tão carente quanto o da saúde. O que está sendo feito nesse sentido?

Isso é um valor. Não existe falar em Einstein sem pensar em responsabilidade social. E conseguimos fazer isso em várias frentes, com parcerias públicas e campanhas que atingem a população como um todo.

Pode dar um exemplo?

O programa parto adequado (parceria com o Ministério da Saúde, aplicado em 40 hospitais, com o objetivo de reduzir o número de cesarianas e de morte materno-infantil). Temos colhido frutos muito bons.

O que será a medicina do futuro segundo o Einstein?

A atividade tem de ser norteada pela medicina de evidência, centrada no que é bom para o paciente, e que tenha sustentatibilidade para o sistema como um todo. Tudo isso com o senso de responsabilidade social. Queremos trazer isso para o país e a sociedade. Se conseguirmos assumir um papel de protagonismo nesse sentido, estamos com o papel cumprido.

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