Edição nº2457 13.01 Ver edições anteriores

O adultério do bruxo

Grandes escritores nos propõem grandes enigmas no plano ficcional. O gênio vai muito além, é imantado: nos atrai porque nos transfere de modo angustiante a tentação de queremos desvendar os mistérios de sua vida real diluída em excelente literatura. É o caso de Machado de Assis, nosso genial self made man, nascido no puxadinho de dona Maria na favela carioca do Livramento – e, com toda justiça, reconhecido em diversos países como um dos principais escritores e conhecedores da alma humana. Em Machado de Assis (pessoa e obra) há diversas esfinges ameaçando nos devorar, mas fiquemos com duas delas. A primeira: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. A segunda: o pezinho torto de Ezequiel, herdado de Escobar, dilacera de ciúme e dúvida Bentinho (e nos mata de ciúme e dúvida também), se sua mulher, Capitu, o traiu ou não.

Está nas livrarias do País uma obra-prima assinada pelo crítico Silviano Santiago (linha de frente das letras nacionais), intitulada “Machado”. Ao esmiuçar o amor protetor do Bruxo do Cosme Velho pelo medíocre escritor Mário de Alencar (a ponto de bancar seu nome à ABL), Santiago nos mergulha na hipótese bastante concreta de Mário não ser filho do romancista José de Alencar com sua esposa, Georgiana, mas sim de uma relação extraconjugal que Machado de Assis teria mantido com ela. “A arte existe porque a vida não basta”, dizia o poeta Ferreira Gullar, e assim o foi para Machado: sem a literatura a vida não lhe dava conta.

Flaubert afirmou que a histérica “Madame Bovary  sou eu”. Machado nunca disse “Capitu sou eu”. Machado foi melhor na criação de enigmas

Decifra-me ou devoro-te, sugere a esfinge. Pois bem, eis metade da esfinge decifrada: Machado mentiu porque na realidade teria transmitido “o legado de nossa miséria”, seja ela a filosófica miséria da dor da condição humana, seja ela a pontual epilepsia (Machado era epiléptico), vista à época com tanto preconceito. A outra metade: o pé torto de Ezequiel é o simbólico, porque o real (aquilo que, segundo Jacques Lacan, não cessa de não se inserir em nosso universo psíquico) é o fato de Mário
de Alencar também ser epiléptico (hereditariedade machadiana).

Caiu assim por inteiro a esfinge? Machado se desdobra em Machado, nasce outro enigma: Machado pode ser, ele próprio, a Capitu infiel.

Mas também pode ser o “casmurro” Bentinho se, por acaso, Georgiana o deixou na dúvida se sua gravidez era fruto da relação com ele ou com o próprio marido, José de Alencar. Gustave Flaubert afirmou que a histérica “Madame Bovary sou eu”. Machado nunca disse “Capitu sou eu”. Machado foi melhor na criação de esfinges.


Mais posts

Ver mais

Recomendadas