Artes Visuais

No limite da tensão

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro remonta exposição de Carlos Zílio que há 40 anos fez história ao propor uma reflexão sobre a insegurança durante o regime militar

No limite da tensão

ATENSÃO – CARLOS ZILIO/ MAM-RJ/ até 05/3

Na década de 1970, o artista plástico Carlos Zilio fez sua primeira exposição solo em uma instituição de arte após ser preso durante dois anos, acusado de subversão. Em 1976, o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM) exibiu “Atensão”, um conjunto de obras que exploram equilíbrios tênues, prestes a serem desfeitos. Quarenta anos depois, a exposição está de volta ao mesmo MAM, onde permanece até 5 de março. Até lá, novos visitantes poderão conhecer trabalhos que lidam com a tensão através da ameaça ao limite, como pedras sustentadas por cabos ou placas de madeira equilibradas em tijolos, entre outras experiências.

Remontada por iniciativa de Zilio e a curadora Vanda Klabin, que organizou a primeira exposição e coordena a atual, a mostra encontra também um “eco histórico” no cenário político atual, segundo o artista, devido ao fato de ser reaberta poucas semanas depois da invasão do Senado, em Brasília, por manifestantes que pediam o retorno do regime militar. “A exposição é um comentário plástico sobre a vivência de estar sob o permanente temor de não saber o que pode acontecer, sob a insegurança do que você pode ou não fazer. Esse grupo de pessoas que pediu a intervenção militar quer trazer de volta a experiência traumática do passado (ditadura)”, afirma Zilio, hoje com 72 anos.

ATUALIDADE Para Carlos ZIlio, a exposição dialoga com o presente
ATUALIDADE Para Carlos ZIlio,a exposição dialoga com o presente

Quase meio século após a primeira exposição, Zilio ainda vê relevância no que as obras dizem para o público, motivo pelo qual não a considera datada. “Ela também dialoga com o presente, é um trabalho que eu tiro da gaveta com muita segurança. Fala de uma época mas nós voltamos a viver em um Brasil com situações tensas na política”, diz, referindo-se às transformações em curso no País. Zilio olha para o passado de sua mostra com gratidão ao MAM. “Na época, não havia espaços culturais dedicados à arte moderna e as galerias não estavam abertas aos trabalhos que reverberavam a década de 1970. Até o mercado de arte estava fechado para nós. Havia uma aversão às obras novas. Só se voltava para o que já estava consagrado ou para o que era moda”, afirma. Nada como a passagem do tempo, acredita Zilio, que está feliz em ver sua exposição novamente no mesmo espaço, provando que a repressão de uma época pode inspirar trabalhos artísticos contundentes e duradouros. Igor Costa

EQUILÍBRIO Tábuas sustentadas por tijolos e pedra suspensa por um fio: alusões ao temor sobre o que pode acontecer
EQUILÍBRIO Tábuas sustentadas por tijolos e pedra suspensa por um fio: alusões ao temor sobre o que pode acontecer

ROTEIROS
Esta obra pode causar vertigens e tonturas

NO LUGAR MESMO: UMA ANTOLOGIA DE ANA MARIA TAVARES/ Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP/ até 10/4

A obra de Ana Maria Tavares é uma arqueologia do presente. As instalações, esculturas e objetos que se espalham por sete salas, corredores e octógono da Pinacoteca, podem ser interpretados como “hieróglifos sociais” (título de série de 2011), ao dizer respeito aos hábitos, vícios e idiossincrasias dos habitantes das grandes cidades. Com curadoria de Fernanda Pitta, “No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares”, prêmio de melhor retrospectiva de 2016, pela APCA, traz uma seleção de 160 obras realizadas pela artista de 1982 até hoje. Apresenta os conceitos e problemáticas expostos em toda sua produção. A começar pelo diálogo entre arte, design e arquitetura.25

Esculturas na forma de catracas, colunas, retrovisores, poltronas e todo tipo de anteparos e estruturas de apoio do corpo, nascem de sua observação dos espaços tradicionais da vida cotidiana: galerias de arte, aeroportos, hospitais, academias de ginástica. “A consideração desses espaços públicos caracterizados pelo fluxo constante de pessoas, está na base da conceituação das esculturas tratadas como estruturas de suporte de um corpo em trânsito”, aponta a artista.

A onipresença de espelhos utilizados na manufatura das obras incita à auto-reflexão. Sala a sala, nos descobrimos presos no labirinto de nossa própria imagem – pessoal ou social. Contra as angústias que essa situação pode gerar, encontramos subterfúgios, pequenos confortos descritos em painéis e totens com as palavras de ordem da sociedade de consumo: credit card, sparkling water, Lexotan…

A última das sete salas é como um retorno à caverna. Na entrada da videoinstalação “Utopias Desviantes (da série Hieróglifos Sociais)”, 2015, um aviso: Esta obra pode causar vertigens e tonturas. O enunciado ganha, no contexto da antologia, um estatuto diverso ao de mera sinalização. É um statement conceitual. PA