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Não há santos no governo do Amazonas

Governador do Amazonas, José Melo, que disse não haver santos entre os 56 mortos do massacre de Manaus, muitos deles decapitados quando estavam sob a tutela do Estado, entende de pecados e pecadores.

Em julho do ano passado, o Ministério Público Eleitoral pediu a cassação do seu mandato por abuso de poder econômico e compra de votos, numa operação que deixou até recibos. Em outra denúncia referente à sua reeleição, Melo foi acusado de usar a PM para intimidar eleitores. Numa das gravações, um coronel manda parar os ônibus com eleitores do rival Eduardo Braga, que foi derrotado por Melo em 2014, e jogá-los na água.

Se isso não bastasse, Melo foi também acusado de negociar com a agora notória facção criminosa Família do Norte, que teria sido responsável pelo massacre. Num dos áudios, um subsecretário do governo Melo dialoga com um traficante, que promete 100 mil votos – em contrapartida, Melo deveria garantir que a FDN não seria prejudicada em seus negócios.
Ao minimizar as mortes dos presos, dizendo que ali havia “assassinos e estupradores”, Melo cometeu mais um pecado: antecipou o julgamento de muitos detentos que estavam no presídio Anísio Jobim antes mesmo de qualquer condenação. E mesmo que fossem matadores ou estupradores, estavam sob a guarda do Estado para serem reabilitados – e não decapitados.
O massacre de Manaus também serviu para desmontar os argumentos dos que defendem o Estado mínimo.

José Melo será julgado por compra de votos e já foi acusado de negociar com facção criminosa e intimidar eleitores
Os presos sob administração da empresa privada Umanizzare custavam mais, por exemplo, do que os detentos de São Paulo e dos presídios federais.

Além disso, como a lógica da privatização é receber um valor unitário por detento, quanto mais presos, melhor. Em 2016, a Umanizzare recebeu R$ 429,4 milhões do governo do Amazonas, 115% a mais do que em 2015. Coincidência ou não, foi também uma das doadoras para a campanha à reeleição de José Melo e de diversos políticos locais.

No governo federal, o que se viu foi uma tentativa de jogar a bomba no colo do governo amazonense, tarefa que ficou sob a incumbência do ministro Alexandre de Moraes. O “acidente pavoroso”, na definição de Michel Temer, foi apenas a crônica de uma tragédia anunciada, onde se misturam elementos como superlotação dos presídios, detenções sem que haja culpa formada, privatizações malfeitas e confusões entre interesses públicos e privados nas doações de campanha.De fato, não há santos no banho de sangue de Manaus.


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