Edição nº2479 15.06 Ver edições anteriores

Não foi por falta de aviso

Demorou, mas apareceu. Apareceu o cadáver que uma parte dessa gente “politizada” que ocupa escolas desejava ver – ou, se não desejava, por certo sabia que cedo ou tarde poderia aparecer.

Não apareceu segundo o figurino tradicional, enrolado numa bandeira vermelha e enfrentando as tropas da “repressão”. Não. Apareceu na figura de um jovem de 16 anos esfaqueado por um colega, amigo de infância, numa briga ligada a drogas. Um cadáver e duas vidas destruídas. Por ser também menor, o que esfaqueou poderá até se livrar da cadeia, mas de sua memória, não se livrará jamais. Companheiros numa ação à qual presumivelmente atribuíram um sentido político comum e importante, desentenderam-se, e um deles portava uma faca de cozinha. Tudo isso lá dentro, bem entendido: dentro de uma escola ocupada, no bairro Santa Felicidade, em Curitiba.

Ocupação é violência, quanto a isso não há dúvida. Por que não se manifestam como tantas
outras comunidades, num auditório, com uma pauta organizada, de forma pacífica e civilizada?

Ora, é óbvio que não só estudantes e professores, mas qualquer cidadão tem o direito de se manifestar sobre a proposta de reforma do ensino médio – ou de qualquer outra reforma. A questão, no fundo, é muito simples: por que as comunidades ligadas à educação às vezes optam por exercer seu direito recorrendo à ocupação de escolas e até das reitorias universitárias? Ocupação é violência, quanto a isso não há dúvida. Por que não se manifestam como tantas outras comunidades, num auditório, com uma pauta organizada, de forma pacífica e civilizada? Sagrado como norma constitucional, é evidente que o direito em questão se torna questionável no caso particular, ou seja, na forma específica mediante a qual se tenta exercê-lo.

Por último, mas não menos importante, é que tais manifestações são convocadas com uma enorme dose de hipocrisia por parte de seus líderes e organizadores. Por trás delas, como ninguém ignora, é comum encontrar militantes dos pequenos partidos de esquerda e do próprio PT. Se o leitor deseja entender essa gente, não perca tempo lendo Marx. Vá direto a Georges Sorel, o fundador do anarco-sindicalismo, cujas “Reflexões sobre a violência” explicam tudo direitinho. Em muitos casos, o objetivo declarado de um movimento é o que menos importa. O que importa é a atividade, a tensão, o adestramento para o confronto. A isso os nossos militantes de esquerda denominam “politização”.


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