Cultura

Memórias do front

Obras com personagens reais da Segunda Guerra Mundial consolidam-se como um dos gêneros mais vigorosos do mercado literário

Memórias do front

Histórias dramáticas envolvendo personagens reais estão entre os temas mais atraentes da literatura. Elas tornam possível ao autor e ao leitor encontrarem-se com sentimentos caros e comuns à humanidade, como a alegria, a dor, o medo. Quando o

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BIOGRAFIA Charlotte, autora do quadro acima, tem sua vida relatada em novo lançamento de David Foenkinos

enredo se passa durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o fascínio é maior. Desde a publicação dos primeiros três mil exemplares do ‘Diário de Anne Frank’, em 1947, por Otto Frank, pai de Anne – a jovem judia que morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha -, o mercado de livros contando a vida de pessoas que viveram os horrores do conflito é dos mais vigorosos. O ‘Diário’, por exemplo, está entre os maiores fenômenos literários do planeta, com 35 milhões de cópias vendidas.

O mais recente sucesso do gênero a chegar no Brasil é ‘Charlotte’, de David Foenkinos. Lançado em 2014 na França, conta a história da pintora alemã Charlotte Salomon (1917-1943). Nascida em Berlim, a artista integrava uma rica família judia marcada pela tragédia. Franziska, sua mãe, suicidou-se quando Charlotte era criança.

O pai, Albert, foi um destacado cirurgião que experimentou o declínio na carreira e a destruição da família com a ascensão nazista. Para fugir da perseguição, pai e filha exilaram-se em um vilarejo próximo de Nice, na França. Entre os anos de 1941e 1943, ela produziu 769 pinturas, autobiográficas. Em outubro de 1943, Charlotte foi morta em Auschwitz.
A pintora estava grávida.

O livro virou best-seller na França, onde vendeu 500 mil exemplares. Para recriar a trajetória da pintora alemã, Foenkinos realizou uma extensa pesquisa, visitando lugares e pessoas que podiam servir de referência. O autor é o mesmo de “A delicadeza”, romance adaptado para o cinema em 2011.

BIOGRAFIA Charlotte, autora do quadro acima, tem sua vida relatada em novo lançamento de David FoenkinosNo Brasil, a escritora Maura Palumbo comemora o sucesso de ‘O perfume das tulipas’, romance ambientado na Segunda Guerra fruto de nove anos de pesquisa histórica e coleta de depoimentos. Os personagens são fictícios, mas construídos com base em fatos verídicos. Resultado de um projeto pessoal da autora, o livro foi lançado em setembro de 2016 e é vendido somente pela internet. Até agora foram comercializadas cinco mil cópias, média considerável para o mercado brasileiro. Está indo para a segunda edição.

HERÓIS COMUNS

Maura está envolvida agora com outro projeto, associado ao mesmo período. Ela irá escrever a biografia do uruguaio Francisco Balkanyi, filho de judeus húngaros. Seus pais se mudaram do Uruguai para a cidade de Cakovec, na antiga Iugoslávia (hoje Croácia), quando Francisco tinha somente um ano. Era 1929, justamente no difícil período entre os dois maiores conflitos do século 20. A Primeira Guerra havia terminado onze anos antes e os fatores que desencadeariam a segunda, dez anos depois, estavam em pleno florescimento.

Quando o conflito eclodiu, Francisco foi levado para Auschwitz junto com o pai. No braço, tem o número 186550, marcado pelos nazistas assim que chegou ao campo. Na década de 1960, já casado, ele se mudou para São Paulo, onde mora até hoje. “Quero contar tudo o que aconteceu com Francisco ao longo desses anos”, diz Maura.

“As memórias desse período precisam ser preservadas” Maura Palumbo, autora de “O perfume das tulipas”
“As memórias desse período precisam ser preservadas”
Maura Palumbo, autora de “O perfume das tulipas”

“As memórias desse período precisam ser preservadas.” O livro será lançado até o final do ano. Parte da fascinação exercida pelas histórias das pessoas que viveram a guerra pode ser explicada pelo fato de que o conflito produziu realmente eventos heróicos, promovidos por pessoas comuns. E, em alguma medida, foi considerada uma guerra justa, na qual o bom e o mau estavam claramente posicionados. “Não vimos isso em nenhuma outra guerra posterior”, afirma o historiador Claudio Batalha, da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo. Somado a isso, tem-se a profusão de imagens das batalhas
e dos horrores produzidos em um evento do tipo.

As cenas, de um impacto sem igual à época e ainda muito perturbadoras nos dias de hoje, ajudaram a revelar um contexto que, mesmo hoje, é difícil de ser completamente compreendido.

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