Comportamento

Mario Sergio Cortella: “Vivemos num momento incômodo que pode levar à reinvenção”

Mario Sergio Cortella: “Vivemos num momento incômodo que pode levar à reinvenção”

Mario Sergio Cortella, 62 anos, é filósofo, professor e educador há mais de 30 anos e faz mais de 300 palestras anuais (Foto: Felipe Gabriel)

A edição de 5 de outubro de 2016 de ISTOÉ traz a matéria “Eles fazem a cabeça dos jovens“, que trata do trabalho dos autores, professores universitários e pensadores contemporâneos Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Durante esta semana, ISTOÉ ONLINE publicará as entrevistas feitas com os três profissionais para embasar a reportagem assinada pela repórter Fabiola Perez. Os temas abordados são diferentes dos que foram tratados na matéria.

Hoje, confira a conversa da repórter com Mario Sergio Cortella. Paranaense de Londrina, Cortella, é filósofo, professor e educador há mais de 30 anos e faz mais de 300 palestras anuais. Nesta entrevista, ele fala de ética, redes sociais, rotina, felicidade e o momento que vive o País.

Mario Sergio Cortella: “Vivemos num momento incômodo que pode levar à reinvenção”

Por Fabiola Perez

Como o senhor se sente sendo considerado um dos intelectuais contemporâneos mais influentes
Me sinto confortável e preocupado. Sou professor há mais de 40 anos e, portanto, minha tarefa é formar opiniões não no sentido de “pense isso”, mas no sentido de “pense nisso”, colocando uma provocação e ajudando as pessoas a trazer temas para pensar. Um professor quer ser alguém que ajude a formar opiniões sólidas, não meramente a achologia. Isso exige de mim uma formação continuada que me encanta e me agrada, me coloca o tempo todo no risco de ser alguém em quem as pessoas prestam muita atenção. Isso exige afastar o risco da superficialidade sem deixar de ser simples. Sou da área de filosofia, preciso fazer uma reflexão da filosofia sem banalizá-la. Isso exige um esforço grande que me agrada, mas me deixa sempre em estado de atenção, nunca em estado de tensão. Na tarefa que escolhi da educação, fui beneficiado, imensamente, pelo mundo digital. Durante décadas na sala de aula, eu tinha um alcance mais restrito, com o rádio, com a tevê e com a internet meu público aumentou muito.

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O senhor tem uma agenda repleta de palestras e outras atividades. Como divide seu tempo? Quais atividades prioriza?
Passei 35 anos na Universidade Católica de São Paulo. Em 2012, me aposentei das aulas. Continuo como professor, mas não tenho mais tantas aulas. Organizo meu dia em algumas frentes: cuidar da minha família, dos meus filhos, netos, mulher, amizades. Aprecio imensamente cozinhar, é algo que me agrada e me distrai, gosto de fazer carnes. Outro pedaço da minha existência são minhas atividades como intelectual público. O outro terço é o mundo da formação acadêmica e da produção de livros. Gosto de descansar. E sou extremamente metódico. Quanto mais metódico, mas você descansa. Acordo as 4h30 da manhã, é um hábito antigo. Aproveito para escrever, gosto de escrever de madrugada, mas quando a madrugada está no início do dia. O equilíbrio da vida é o equilíbrio da bicicleta, você se equilibra em movimento.

Quais são os temas mais recorrentes em suas palestras atualmente?
Os dois temas mais demandados são a ética na convivência no âmbito da política pública, mas também no campo privado. Em segundo lugar, o campo da gestão do conhecimento, das pessoas estarem sempre com a necessidade de estar de prontidão para uma formação. Como lidar com cenários turbulentos é outro tema recorrente. A pessoa precisa ter clareza de que a vida é sempre um processo de mudança. Que aquilo que muda substitui aquilo que antes vinha. Mas há muita coisa que é antiga e que deve ser levada adiante. E tem muita coisa que é velha, ultrapassada. Uma sociedade que tem uma tecnologia avançada, às vezes, descuida do antigo e fica só em busca de novidades. Velho é aquilo que não tem mais lugar. É necessário saber distinguir, num mundo de mudanças, o que se guarda, o que se eleva e o que se descarta. É importante saber o que se guarda porque é algo antigo, mas não é velho e o que se descarta porque é anacrônico e o que eu elevo a uma qualidade superior.

Como o senhor se sente incitado a pensar e formar opiniões em um momento tão delicado da história político-social brasileira?
É o momento mais especial da minha trajetória. Nunca imaginei que pudesse viver um momento tão especial na trajetória do meu País. Vivemos um momento estupendo por que vivemos um momento incômodo, perturbador, febril, mas ele é magnífico porque traz uma ocasião de nossa reinvenção. Nunca tivemos a chance, nos últimos cinco anos, de impedir que a patifaria fosse sempre vitoriosa, e isso nos colocou em duas dimensões. A de olhar para cima e procurar aqueles que sujaram o nosso dia a dia. E de olhar para dentro e perceber o quanto de sujidade existe em nossas ações do cotidiano. Tenho uma visão esperançosa na medida em que vivemos uma circunstância absolutamente inédita e importante. Não há cura sem febre. Estamos em um momento febril. Porém, em uma democracia mais consolidada. Podemos ter uma postura acovardada ou fazer da decência nossa referência. A democracia é uma plantinha frágil que precisa ser regada todos os dias.

É possível falar em ética hoje no Brasil?
Falar sobre ética não é falar sobre alguém. É falar sobre nós. Ética são princípios e valores que usamos em nossa conduta. Podemos ter uma ética saudável, uma ética malévola, uma ética canalha, mas a ética é o conjunto de valores que regem uma determinada conduta. No Brasil, nós não temos a falta de ética, temos a falta de uma determinada ética. Existe a antiética. Há uma conduta hoje que está faltando.

O senhor acredita que o atual momento político que atravessamos poderá render frutos?
Se tivermos firmeza conseguiremos fazer esse momento gerar bons frutos, se sossegarmos, se acharmos que o passo inicial será o passo final não renderemos bons frutos. Se não aproveitarmos essas circunstâncias dos últimos anos, nos arrependeremos profundamente. Nossa história é escrita por nós no nosso dia a dia. Não podemos ficar de um jeito acovardado. Temos que construir isso desde agora. Podemos construir o pântano e também o jardim.

Como o senhor se sente, como filósofo, quando tem seus livros classificados como de autoajuda?
Meus livros são provocações filosóficas. Escrevo livros de autoajuda também, afinal escrevo sobre filosofia. A autoajuda nasce no Ocidente, com Sócrates como seu principal representante. E o lema socrático é “conhece-te a ti mesmo” e esse é o princípio inteligente de autoajuda. Porém, em alguns momentos a autoajuda ganhou um ar de banalização. Uma parte da má literatura existe em qualquer área. Alguns dos meus livros estão no campo da reflexão pessoal. Não me incomodo com a palavra autoajuda. Ela pode ser banal, mas pode não ser. Se eu sou um formador de opinião, preciso chamar para mim aquele que está distraído, despertar a capacidade de viver de um modo que não seja robótico.

O senhor teve uma experiência em um convento. O que traz como legado dessa vivência até os dias de hoje?
Vivi três anos em no convento da Ordem dos Carmelitas Descalços e atuei em estruturas da Igreja Católica. Quando era menino em Londrina, sempre quis ter uma experiência religiosa intensa. Tive um aprendizado imenso, mas percebi que o que desejava não era uma vida sacerdotal. Quando estava no último ano de filosofia, me chamaram para ser professor. Comecei a dar aulas com 21 anos. Não tenho uma religião, mas tenho uma religiosidade. Tenho uma reverência à vida. Durante muito tempo vivi na Igreja Católica. Trago desse período a disciplina, sou absolutamente disciplinado. Também trago comigo o hábito da partilha. Havia uma caixa no convento onde quem ganhava um dinheiro colocava lá e quem precisava pegava. Aliado a isso, tive uma herança intelectual fortíssima, convivi com um monge que viveu na Segunda Guerra Mundial.

Uma de suas palestras mais comentadas está baseada no livro “Se você não existisse, que falta faria”. Por que este tema gera tanto interesse?
As pessoas estão distraídas em relação a essa questão. Quando eu me for, eu quero ficar. Mas como não dá pra eu ficar, tenho que fazer falta. Morrer é ser esquecido. Para isso, preciso ser importante. A fama passa e a importância fica. Há pessoas na vida que a gente porta para dentro, há pessoas que se não existissem não fariam falta, há outras que fariam uma falta imensa. Eu quero fazer falta. Como você está construindo a sua obra. Quando você se for, qual vai ser a sua herança.

As pessoas também estão mais ansiosas para ler sobre a felicidade?
Lancei, com Leonardo Boff e Frei Betto, um livro chamado “Felicidade foi se embora?” para as pessoas não imaginarem que felicidade é um ponto inatingível em um futuro incerto. As pessoas dizem “eu queria muito ser feliz”, “um dia eu vou ser feliz” como uma lamentação e não como um projeto de vida. Felicidade não é um estado contínuo, é um estado eventual. Só se percebe a importância da felicidade porque ela se ausenta. Só percebemos aquilo que é importante quando aquilo se ausenta. Hoje se vive muito a mitificação da felicidade numa sociedade consumólotra como a nossa. A real felicidade está na partilha. É por isso que hoje há uma obsessão com as redes sociais. Esses temas estão vindo à tona porque há uma rarefação dessas condições.

As redes sociais e o mundo virtual colaboram para isso em que medida?
O mundo digital é uma ocasião inestimável. Todo mundo junto e ninguém perto. A sucessão de imagem, o contato o tempo todo leva ao esgotamento. O prazer da água está em ter sede. As redes sociais saturam. Não gosto da palavra seguidor, por exemplo. Refere aos profetas, algo dogmático. Desde que isso não seja obsessivo. Toda obsessão é doentia. A vida tem muitas faces.

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