Artes Visuais

Os cinco ciclos do Brasil

Individual de Marcone Moreira no Paço Imperial do Rio de Janeiro evoca tensões do mundo do trabalho e dos ciclos econômicos

Marcone Moreira/ Paço Imperial, RJ/ até 20/11

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Quatro meios de transporte e locomoção se entrecruzam no Paço Imperial do Rio de Janeiro, onde está montada uma exposição de Marcone Moreira. As rotas que hoje se anunciam nos trabalhos em exibição são traçadas por barcos, caminhões, trens e a pé. A soma desses trechos compõe a trajetória do artista nascido no Maranhão, criado no Pará e hoje residente em Minas Gerais. Trata-se de uma trajetória que “obedece mais à lógica de uma espiral, em que ideias e coisas passadas vão sendo resgatadas a cada volta feita e acrescidas a outras que no caminho são apropriadas”, segundo aponta Moacir dos Anjos, curador da exposição.

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O caminho se inicia por barco. A partida é Marabá (PA), cidade surgida no entorno do Rio Tocantins, rasgada pela rodovia Transamazônica e pela ferrovia Carajás, onde Moreira viveu e começou sua produção. Da observação de um fluxo cada vez mais rarefeito de pessoas e de cargas pelos rios, surgiu o “Projeto Margens”. Na imagem do barco dissecado, com a estrutura dilatada como a espinha de um peixe, que abre a exposição, escreve-se um comentário sobre a desconstrução de um sistema econômico outrora estruturado sobre as águas dos rios. “Nas ilhas do sul do Pará vimos a substituição dos barcos por caminhões, o que foi determinado pelas políticas públicas do Amazonas”, diz Marcone Moreira a ISTOÉ.

ÁGUA E TERRA Madeira coletada de embarcações e de carroceiras compõem esculturas de Moreira
ÁGUA E TERRA Madeira coletada de embarcações e de carroceiras compõem esculturas de Moreira

Os rastros rodoviários compõem duas das esculturas em exposição. Numa delas, formada por fragmentos de carrocerias e de embarcações, dispostas em um grande painel, esses dois universos convivem em harmonia visual. Próximo dali, está instalado o vídeo “Horizonte de Ferro” (2014), filmado na malha ferroviária construída nos anos 1980 pela empresa Vale, após a descoberta da mina de Carajás. Se, por um lado, os trabalhos esboçam uma história dos fluxos econômicos do Amazonas, eles também traçam um paralelo com a história pessoal do artista, já que a linha ferroviária São Luis–Carajás foi percorrida por Marcone quando criança, ao mudar-se de uma cidade a outra.

Entre esculturas que, segundo Moacir dos Anjos, “evocam conflitos do mundo do trabalho motivados pela posse ou por deslocamentos forçados de territórios”, destaca-se também “Ausente Presente”, díptico fotográfico que apresenta imagem de pés esculpidos em barro, dentro da lama, e texto memorial com nomes de 19 trabalhadores mortos pela polícia militar do Pará, na chacina dos Carajás, em 1996.

As rotas do conflito terminam no centro da sala, em “Território” (2016), instalação composta por quatro porteiras de fazendas de diversas regiões do Brasil. Ali estão representados quatro ciclos econômicos: a cana de Pernambuco, o leite de Minas gerais, o café do Paraná e o gado do Sul do Pará.

A tensão dessa história só se dissipa do lado de fora da sala, no páteo interno do Paço Imperial, onde está montada a “Visualidade Ambulante” (2016). São torres de isopores adornados com fitas coloridas, que brindam a peça com a exuberância do espetáculo. A peça evoca os episódios festivos nos quais ambulantes venderam sua mercadoria. Aqui está insinuado o quinto ciclo econômico brasileiro: a festa.

COMÉRCIO: A instalação “Visualidade Ambulante” faz homenagem ao vendedor ambulante carioca, traço identitário do Rio
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