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A líder do retrocesso

Theresa May, a nova primeira-ministra britânica, comandará a ruptura do país com a União Europeia. A escolha representa enorme atraso para uma economia globalizada e para os imigrantes que ali vivem

Crédito: AP Photo/Kirsty Wigglesworth

 

Em meio à mais grave crise política de sua história recente, deflagrada depois que os cidadãos votaram pela saída da União Europeia (UE), o Reino Unido tem uma nova premiê. Ex-ministra do Interior, Theresa May foi escolhida pelos conservadores, na semana passada, para liderar o país num movimento isolacionista, que já provoca danos à sexta maior economia do mundo. Diferentemente de Margaret Thatcher, ícone do liberalismo que ocupou a residência oficial em Downing Street por 11 anos, Theresa tem dado sinais de que pretende aumentar a intervenção do Estado na economia em nome de um protecionismo perigoso, que pode contagiar a Europa e ameaçar a globalização, e provocar enorme retrocesso em temas como direitos humanos e imigração.

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EUA Hillary Clinton enfrentará as urnas em novembro

Numa das primeiras ações como chefe de Estado, Theresa nomeou como chanceler o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, principal porta-voz da ruptura com a UE dentro do Partido Conservador. Embora Johnson não seja o responsável por negociar com os líderes europeus, já que May criou um ministério exclusivo para lidar com essa tarefa, sua indicação pode representar uma guinada arriscada na política externa britânica. Ele, afinal, defende uma cooperação com o presidente russo, Vladimir Putin, e o ditador sírio, Bashar al-Assad, para derrotar o Estado Islâmico, numa visão que contraria não só a atual postura britânica no conflito sírio, como também a de seu principal aliado, os Estados Unidos.

Durante a campanha do plebiscito sobre a saída da UE, Theresa discretamente apoiou a permanência dos britânicos no bloco, mas chegou a sugerir que o país deixasse a Convenção Europeia de Direitos Humanos. A nova premiê também disse que, após o “Brexit”, até os cidadãos europeus que já viviam em território britânico antes da votação seriam repatriados. A afirmação não causou surpresa, porque, enquanto titular do Interior, Theresa sempre tratou os estrangeiros e imigrantes com pulsos de aço.

ALEMANHA Angela Merkel, a líder da zona do euro
ALEMANHA Angela Merkel, a líder da zona do euro

Há três anos, num momento em que Londres e Brasília tentavam uma aproximação comercial, partiu dela a proposta de exigir o visto para turistas brasileiros que passassem pelo Reino Unido. A ideia surgiu depois que a líder conservadora detectou que essa era a quinta nacionalidade com maior número de imigrantes ilegais no país, mas foi considerada uma “loucura”, sobretudo, porque o Brasil aplica o princípio da reciprocidade na diplomacia e, em pouco tempo, sediaria a Copa do Mundo e a Olimpíada. Essa medida não prosperou, mas Theresa teve tempo de colocar em prática outros exemplos de intolerância prejudiciais à economia britânica. Em 2011, por exemplo, ela revogou o visto de estudantes que haviam recebido o direito de permanecer e trabalhar no Reino Unido por dois anos após sua graduação e impôs restrições aos empresários que quisessem contratar esses recém-formados. Neste ano, May ameaçou deportar trabalhadores que simplesmente não ganhassem o suficiente para viver ali – nos cálculos do governo, menos de 35 mil libras esterlinas por ano. Agora a presença de Johnson no governo é uma espécie de alçapão para a imigração: ele é uma armadilha para os que pretendem migrar para o país.

Não bastasse a cruzada da nova primeira-ministra contra os imigrantes e a UE, os desafios domésticos são enormes. Segundo Ben Worthy, pesquisador de política da Universidade Birkbeck de Londres, os primeiros-ministros que foram eleitos pelo partido majoritário no Parlamento, e não pelos cidadãos, como May, não costumam ser bem avaliados no cargo. “Sua tática de culpar os outros pelos erros que ela mesma cometeu pode ter funcionado no Ministério do Interior, mas dificilmente funcionará em Downing Street”, diz. “Além disso, May é herdeira de um partido rebelde e que teme o avanço do Ukip (sigla ultranacionalista).”

Mulheres super poderosas

Se a democrata Hillary Clinton vencer as eleições para a Presidência dos Estados Unidos, em novembro, não só será a primeira presidente americana, como fará parte do trio feminino mais poderoso do planeta, ao lado de Theresa May e da chanceler alemã, Angela Merkel – uma configuração histórica. Juntas, as três potências ocidentais representam mais de 20% da economia global. Ainda que a participação feminina esteja crescendo na política – nos últimos 20 anos, o número de mulheres parlamentares praticamente dobrou –, elas ainda representam apenas 10% dos chefes de Estado dos países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Aliás, a própria ONU tem sofrido pressão para eleger uma mulher como secretária-geral até o fim desse ano.

Quem é Theresa May

Idade 59 anos
Partido Conservador
Último cargo político Ministra do Interior por seis anos
Família Filha de um pastor anglicano e uma dona de casa, Theresa é casada com  o banqueiro Philip John May há 36 anos e não tem filhos
Educação Graduada em  Geografia pela  Universidade de Oxford