Comportamento

Leandro Karnal: “A felicidade é um projeto de classe média”

Leandro Karnal: “A felicidade é um projeto de classe média”

Leandro Karnal é historiador, filósofo e professor da Unicamp (Crédito: Felipe Gabriel)

A edição de 5 de outubro de 2016 de ISTOÉ traz a matéria “Eles fazem a cabeça dos jovens“, que trata do trabalho dos autores, professores universitários e pensadores contemporâneos Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Durante esta semana, ISTOÉ ONLINE publicará as entrevistas feitas com os três profissionais para embasar a reportagem assinada pela repórter Fabiola Perez. Os temas abordados são diferentes dos que foram tratados na matéria.

Hoje, confira a conversa da repórter com Leandro Karnal, conhecido como o “pensador pop”, que se reveza entre aulas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entrevistas a programas de televisão e conversas com seus mais de 500 mil seguidores na internet. Confira vídeo de entrevista com Leandro Karnal no final da matéria.

Leandro Karnal: “A felicidade é um projeto de classe média”

Por Fabiola Perez

Quais são hoje as grandes questões da humanidade, inerentes à nossa época?
O ser humano está associado ao consumo, a vida adquiriu uma dimensão virtual, imagem é tudo, o outro é perigoso, família é meu centro, esforço resolve qualquer questão, o melhor virá logo em seguida se eu me sacrificar, informação virou conhecimento, tecnologia resolve, juventude será eterna, a vida pode ser controlada. Isto é quase toda a nossa filosofia atual.

O senhor acredita que hoje as pessoas estão tentando buscar o sentido da vida de uma forma diferente? Há uma retomada às tentativas de se compreender melhor?
Existem pessoas que se perguntam pela árdua questão do sentido da vida. Mas, a maioria busca a satisfação de necessidades rápidas como o consumo. O mais desafiador seria pensar, “sartreanamente”, que a vida em si não apresenta um sentido prévio, mas que devemos descobrir algo a partir da nossa realidade, pois a existência precede a essência.

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Existe ética hoje no País? Onde o senhor consegue vê-la? Qual o significado da ética hoje no Brasil?
Sim, existe e é muito expressiva. Nenhum sistema sobrevive se todos foram ilegais. Nós temos facilidade de ver a falta de ética em governos e dificuldade em vê-la no campo privado. A maioria dos alunos não cola. A maioria dos fregueses da padaria devolve dinheiro se o troco veio a mais. Mas temos um trânsito sem cidadania, violento, misógino e homofóbico. O trânsito é um campo onde a ética brasileira fracassou.

O desejo pela felicidade é uma constante dos nossos tempos? Por que é importante falar sobre a busca pela felicidade hoje?
Não. Ele é um projeto essencialmente burguês do século XIX. A felicidade neste mundo não era o foco da maioria das civilizações anteriores. Como nós a entendemos, hoje, felicidade é um grande projeto de classe média (que atinge gente de todas as classes) que deve apresentar uma vida integral, plena, com saúde, estrutura familiar, bem sucedida e cheia de controles. Felicidade é um projeto de classe média e isto marca todo o aconselhamento sobre felicidade disponível nas redes. Aristocratas e proletários pensam e agem por outro caminho.

Qual a importância da religião na vida das pessoas? Como o senhor vê o uso político da religião?
A religião sempre foi usada politicamente. Foi por interesse político que Getúlio Vargas apoiou a inauguração do Cristo Redentor, por exemplo. Este uso sempre foi paralelo à convicção pessoal de cada um dos seguidores de uma religião. Atualmente, a religião continua sendo um poderoso esteio de anseios e esperanças, de defesas contra o mal e catalisadora de todos os sentimentos humanos. E continua sendo usada politicamente, também.

Por que há tanta repressão – policial e até mesmo social – em relação aos movimentos sociais?
Porque alguns destes movimentos representam um desafio à ordem estabelecida nas formas tradicionais. Assim, a repressão é uma resposta consciente de negativa deste risco. Por vezes o próprio policial, mesmo que oriundo de uma classe baixa, internaliza certos valores e vê na passeata ou na greve um desafio que deve ser vencido.

Depois dessa intensa crise política e institucional pela qual passamos, o senhor acredita que devemos avançar social e politicamente?
O futuro é sempre uma incógnita. O debate sobre ética está com intensidade inédita no país. Logo, existe uma possibilidade dele originar uma cobrança maior sobre o campo da política e das relações pessoais. Chance apenas… Lembremos que após um esforço ainda maior de moralidade na Itália, a operação Mãos Limpas, o eleitorado apoiou o nome de Berlusconi, que encarnava o oposto ao obtido pela operação.

Por que a discriminação tem aumentado no Brasil? Por que assistimos a mais demonstrações de preconceito?
Porque mais grupos organizados estão tomando as ruas e a mídia, como feministas, grupos de combate ao racismo e contra a homofobia, isto aumenta o medo de muitas pessoas. Preconceito é filho do medo e do risco que eu vejo no deságio de alteridade, ou seja, da diferença (ou até da semelhança mal resolvida). No momento que negros, mulheres e gays passam à fase de celebração (tendo superado a fase de intolerância e de tolerância simples ou passiva) algumas pessoas são obrigadas a confrontar seus fantasmas.

Qual a sua opinião em relação às escolas sem partido, que prevê o impedimento do debate político em ambientes escolares?
Há um pressuposto otimista na premissa: o aluno seria o espelho do professor. Mas nossa atual lei de diretrizes e bases já estabelece a pluralidade como princípio. O problema das escolas, especialmente das públicas, não é centrado na suposta unidade ideológica do corpo docente, mas na falta de papel higiênico e até do roubo da merenda das crianças. Judicializar a sala de aula pode ter o efeito contrário. Pais que desejam uma formação específica para seus filhos, dentro de parâmetros criacionistas, por exemplo, podem matricular seus filhos em escolas religiosas. Há professores marxistas (e monarquistas também) e, ao final de intensos estudos marxistas no ensino médio, o aluno não sai com desejo de ler o Capital, mas de possuir um iPhone 6 e de visitar Miami. Se nós somos marxistas doutrinadores, temos sido um fracasso absoluto.

O senhor já afirmou que o eleitorado brasileiro é centrista. Mas ele é centrista por falta de conhecimento político, pelo distanciamento da política?
O centro é a posição dominante sempre. Os extremos são excepcionais. Só situações específicas levam ao poder a extrema direita ou a extrema esquerda. Não se trata de deficiência ou de falta de conhecimento, pois o de extrema direita não é mais consciente do que o centrista, mas do papel que a maioria dá à política. O foco das pessoas está na família, na carreira, no consumo e na sua individualidade. O centro atinge mais a estes valores do que os extremos.

A morte continua sendo uma angústia coletiva?
Virou um medo: a tanatofobia. Não queremos mais vê-la e nem falar dela. Jovens não vão a cemitérios e evitam hospitais. Velhos também não gostam de ir, mas acham que é um dever de solidariedade, e se irritam com os jovens que expressam o que não podemos dizer de maneira direta. Sempre tivemos medo da morte, mas hoje cultivamos a ideia de que ela seria evitável. Não é… Nunca.

No vídeo abaixo, o historiador Leandro Karnal destaca como as relações humanas mudam ao longo do tempo

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