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Entrevista

Lucio Vieira Lima

João Doria tem espaço no PMDB

ED FERREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

João Doria tem espaço no PMDB

Débora Bergamasco
Edição 05.05.2017 - nº 2473

Presidente da Comissão que discute a reforma política, o deputado Lucio Vieira Lima (PMDB-BA) escancara em entrevista à ISTOÉ como pensam os representantes do povo, quais suas preocupações durante a elaboração de um texto tão importante para o País e aponta as prioridades dos governantes na hora de promover uma revisão do sistema político. Irmão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, afastado do governo federal por suspeitas de tráfico de influência, Lucio diz que se o prefeito de São Paulo, João Doria, não tiver espaço para concorrer à Presidência da República pelo PSDB, encontrará abrigo no PMDB. Lucio defende também que a classe política encontre novas fontes de financiamento das campanhas políticas. “Sem reforma política vamos tirar dinheiro de onde? Do banco imobiliário? Como fazer eleição se não existe almoço de graça?”.

O PMDB vai lançar candidato à presidência da República no ano que vem?

Acho difícil, até porque o PMDB não vem se preparando para ter candidatura própria, sempre teve projeto de poder no Legislativo. E não se constrói um projeto desse da noite para o dia. A não ser que venha um fenômeno, como um João Doria peemedebista.

Se não houver caminhos para o prefeito de São Paulo, João Doria, concorrer à Presidência da República pelo PSDB em 2018, ele teria espaço no PMDB?

Não sou dono do partido, mas do jeito que está hoje, o Doria tem espaço no PMDB, dá para recebê-lo, sem problema nenhum. Dá para receber Doria, Geraldo Alckmin (governador de São Paulo, pelo PSDB), José Serra (senador do PSDB). Mas o ideal seria não ter que chamar alguém de fora só para ganhar a eleição.
Muitas propostas de reforma política já foram discutidas. Essa vai sair do papel?
A diferença dessa para outras reformas é que a situação exige. O modelo atual se exauriu e está impossível com este modelo de financiamento das campanhas políticas, com a proibição do financiamento privado. Há que se ter uma fórmula porque a democracia tem custo.
O modelo se exauriu por que temos corrupção, por que o caixa dois contaminou todo o sistema político?

Não só. Estamos vendo na Câmara quase 30 partidos com assento na Casa. Como identificar as bandeiras de todos esses partidos? Hoje, se perguntar qual é a bandeira do PMDB não se sabe, do PT não se sabe, do PSDB também não. A Lava Jato também influencia, mas ela é uma consequência do sistema atual.

Já que existe esse diagnóstico dentro do PMDB, quando essa mudança começará a acontecer na prática?

Já começou quando a sociedade deu um basta. Ninguém vai mudar por conta própria. Todo mundo é forçado a mudar, quando novas situações se apresentam. Então, caso o PMDB não mude, vai ficar cada vez mais para trás, vai deixar de eleger representantes e vai se extinguir.

Esse poder do eleitor de “julgar” o candidato por meio do voto não será enfraquecido com a idéia discutida na comissão da reforma política de votação em lista fechada?

A lista é o sistema que permite maior redução dos custos. Nos outros sistemas, para cada candidatura você tem uma campanha. Sem reforma política vamos tirar dinheiro de onde? Do banco imobiliário? Como fazer eleição se não existe almoço de graça? Na lista, você faz a campanha para o partido político. Estão colocando o conceito de lista fechada de modo equivocado.

 

Equivocado como?

Passando a ideia de que lista fechada é lista secreta. Na campanha, o eleitor já terá acesso a ela. E dizem quem é para acobertar envolvidos na Lava Jato, porque poderá estar elegendo alguém envolvido em irregularidades ou com a imagem comprometida. Eu discordo, porque a fiscalização será do próprio partido. A impressão que dá é que você não vai saber que o candidato com suposto envolvimento estará na lista.
O voto em lista tentaria minimizar o problema do financiamento de campanha, que é grave e enseja a corrupção. Porém, a impressão é que para tentar resolver um problema está sendo criado outro. Você tapa de um lado e descobre o outro…

Não. Estamos falando do fortalecimento dos partidos políticos. Não é correto fulanizar as eleições. Quando você votar em um candidato daquele partido, você saberá como é que ele vai representar as idéias. No Congresso, tem gente que acaba votando de determinado jeito se tiver um cargo no governo, ou se o executivo liberar uma emenda, isso não é bom para a democracia.

Uma das críticas ao voto em lista fechada é a perpetuação dos caciques dos partidos e dos congressistas previamente incluídos nessa listagem. O modelo também abre brecha para um candidato rico comprar sua vaga.

Os coronéis de partidos, ou o que tem de ruim aí é fruto do sistema atual. Se temos que culpar alguém, temos que culpar o sistema atual e não o que vai vir. Sim, mas o sistema que virá pode enfraquecer ou fortalecer a ação dos coronéis. Eu volto a dizer, a mudança maior é feita na sociedade. Acabou-se o tempo aqui na Casa que você tinha lideranças que chegavam aqui com 20 votos, bastava dar um ministério e ele resolvia todo o grupo. Hoje, cada deputado quer pleitear um cargo, não é mais aquele coronel que será o tutor de um grupo de parlamentares. E quando você me diz, “ah, um coronel que for rico vai comprar sua vaga na lista e vai corromper”. Mas para ele corromper, tem que ter o corrupto.

E a Câmara vai insistir na anistia ao caixa dois?

Isso é o que se tenta vender a toda hora como se isso estivesse ocorrendo. Em nenhum momento eu participei de reunião na comissão que eu presido nesse sentido. Eu sempre disse que lá não votaria nenhum tipo de anistia a caixa dois. Não vejo como tecnicamente, e não vou ser hipócrita a tal ponto de dizer que não tenha desejo disso. Mas, tecnicamente, não há condição de se aprovar nada que se anistie o caixa dois.
Mas no caso específico da anistia ao caixa dois…

Não tem anistia ao caixa 2.

Vou mudar minha pergunta. O eleitor que elegeu esse Congresso como seu representante gostaria que o caixa dois fosse criminalizado?

Tivemos o mensalão, tão grave quanto o Petrolão. Naquele momento, o presidente Lula, com o PT, que estava envolvido diretamente no mensalão, terminou sendo reeleito porque a economia estava funcionando. Por que hoje a sociedade está revoltada com a classe política? Ela vê o desemprego aumentando, a facilidade que tinha crédito não ter mais. Então ela se pergunta: “Enquanto está ocorrendo tudo isso no país minha vida está andando para trás?”.

 

Perguntei se a população queria a criminalização do caixa dois e o senhor acabou de dizer que “é claro que quer”.

Certo, mas de que forma ela quer? A população não quer dinheiro público no fundo partidário, então como é que ela quer que façamos o combate à corrupção? E se não tiver dinheiro de empresa, nem de financiamento pessoal, nem público, quem vai financiar? O narcotráfico! Teremos aqui traficantes e sequestradores. Vamos fazer a campanha como, de jegue?

Essa reforma política tem muita coisa estranha. Como o candidato ser votado sem saber exatamente para qual cargo.

A proposta é que ele pode ser candidato a um cargo majoritário, como presidente ou governador, e também fazer parte da lista. Os defensores da ideia dizem que é para elevar o nível do Congresso, porque tem um quadro teoricamente mais preparado. E, como é só uma vaga, você pode perder a eleição no Estado e vir para o Congresso. Os críticos chamam de “emenda Lula”. E, de fato, se o Lula concorrer à presidência, teríamos uma enxurrada de deputados do PT entrando. Os dois lados têm razão.

A reforma, como está sendo encaminhada, vai representar o desejo da população ou representará só o desejo pessoal do parlamentar?

Algum desejo vai, porque é votada por parlamentares. E quem votar pelos seus próprios interesses certamente não retornará, pois não terá o voto daqueles que ele dizia representar e não representou.

De repente ele pode voltar ao Congresso com a ajuda do voto em lista fechada, por exemplo.

Pode. E cabe ao eleitor não votar na lista em que ele esteja. Cabe ao partido político fazer campanha contra a lista do outro. Todo cidadão tem sua reforma política na cabeça, mas na hora de colocar no papel, não dá a solução. É como a seleção brasileira, todo mundo tem a sua ideal. O que define a legitimidade de um parlamentar? Nós fomos para uma eleição e vamos agora para outra. Se você pegar alguém que na ótica da mídia não deva estar aqui no Congresso, ele vai para a eleição e é eleito.

O julgamento de um político não é feito pelo povo nas urnas? Então se ele foi reeleito com uma ampla votação, que culpa tem?

A culpa vai ser de quem o elegeu. Vamos deixar isso claro, sobre a responsabilidade do eleitor. Ninguém está aqui sem voto. Aí você diz: “Mas eles não dizem que vão fazer isso quando pedem o voto”. E aí eu lhe pergunto: “Você diz que tem gente que está citado, investigado, mas está aqui há vários quantos mandatos. E por que está aqui?”

 

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é réu, tem mais de dez inquéritos e está no terceiro mandato só como senador.

Se ele está aqui é porque está merecendo a confiança de quem o reelegeu. A televisão dá cobertura aos casos em que ele é investigado e mesmo assim é reeleito. Então, para o povo de Alagoas, ele deve ter alguma coisa de bom. E se o discernimento não for do povo vai ser de quem?

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