Edição nº2493 22.09 Ver edições anteriores

Inventando a democracia

Para Martin Hilbert, especialista alemão em comunicações, a era digital está destruindo a democracia. Segundo ele, na democracia, tal como inventada nos tempos modernos, era impossível consultar todas as pessoas sobre todos os assuntos. Daí a eleição de representantes que decidiriam pelos representados. Com o avanço das telecomunicações, da internet e das redes sociais, a consulta sobre qualquer tema junto a todos os cidadãos já é possível. Por outro lado, essa mesma tecnologia que amplia oportunidades pode vulnerar a privacidade.

Para Hilbert, a democracia representativa precisa se reinventar para não se transformar em uma ditadura da informação onde quem controla o processo tecnológico fica em vantagem.

E o que significa o controle do processo? Ter acesso privilegiado aos hábitos, aos interesses e até aos pensamentos do eleitorado a partir do controle das telecomunicações e das redes sociais. Decorreria daí, naturalmente, o fim da privacidade. Hilbert aponta como um grave retrocesso a lei aprovada nos EUA que permite a venda de dados pessoais dos consumidores de serviços como Netflix, entre outros.

No Brasil, o risco que essa possibilidade representa é ainda mais grave. Pois aqui vivemos uma democracia fragilizada pela debilidade da representação, pela precariedade do fluxo de informação e por uma educação deficiente. Privacidade ainda não é um direito plenamente exercido por nossa cidadania. Talvez o que reste de privacidade para o brasileiro decorra mais de atraso tecnológico que de respeito à intimidade de cada um.

Concordo com Hilbert quando ele diz que a democracia representativa tem de ser reinventada. No Brasil, porém, com tudo o que vimos devido ao naufrágio fiscal da era Dilma e aos desdobramentos da Operação Lava-Jato, a democracia precisa primeiro ser inventada.

A era digital nos atinge em cheio com um sistema político precário e em meio a uma sociedade carente de informações. Pulamos do analfabetismo funcional para a era da hiperinformação, dos factoides, das redes sociais e da pós-verdade. Tudo em bases frágeis de educação e cultura. Pior, com baixa capacidade de reflexividade sobre o que é dito e consumido. O naufrágio fiscal e a Lava-Jato nos impõem um recomeço. O desafio é como recomeçar num momento em que o mundo político se encontra em frangalhos. As redes sociais, ao mesmo tempo que são uma ameaça, podem ser o instrumento de construção dessa democracia que ainda não temos.

Talvez o que reste de privacidade para o brasileiro decorra mais de atraso tecnológico que de respeito à intimidade de cada um


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