Brasil

Infidelidade ideológica

Governo de coalizão pressupõe afinidade de ideias. Quem destoa, segundo a lógica do governo, deve abrir mão de cargos na Esplanada. Tem funcionado

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À PROVA Para Temer, chegou a hora de a base aliada mostrar seu valor (Crédito: Divulgação)

No início da manhã de quarta-feira 3 de maio, o presidente Michel Temer passou a mão no telefone e ligou para os líderes dos partidos da base aliada do governo na Câmara. Recebeu alguns deles para o café da manhã no Palácio do Jaburu, sua residência oficial. Na hora do almoço, parlamentares influentes, como Pauderney Avelino (DEM-AM) e Beto Mansur (PRB-SP) o visitaram no Palácio do Planalto. À tarde, encontrou-se com o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. À noite, abraçou o ex-presidente Fernando Henrique durante jantar ladeado por parlamentares do PSDB. Em todos esses encontros, o tema foi um só: reforma da Previdência. Temer está fazendo marcação cerrada, homem a homem, para conseguir conquistar maioria confortável de votos e levar a matéria a plenário. O governo diz já ter os 308 votos necessários na Câmara para aprovar a medida e levá-la ao Senado, mas quer ter certeza que a situação será confortável, com ao menos 330 favoráveis.Porém, congressistas importantes contabilizam menos de 200 votos.

Um governo de coalizão, como o que vigora hoje no Brasil, prevê que o Executivo e a base aliada no Legislativo se entendam em questões primordiais para o País e que remem todos para a mesma direção. Porém, não é o que está sendo visto em votações recentes. Partidos como o PSB, que comanda os ministérios da Defesa e da Cultura estão, em sua maioria, contra as reformas trabalhista e previdenciária. Mesma situação está o PTB, que comanda a pasta do Trabalho, além de Pros, Solidariedade, PTB, PSD, PP, PR… Ao ver uma sucessão de traições dentro até do próprio PMDB, o presidente manteve a postura de articulação, porém tomou a drástica decisão de punir os que teimam em votar contra o governo e contra as reformas. Exonerou funcionários de órgãos como o INSS, ao menos dez, e de servidores vinculados ao Ministério da Agricultura.

DANÇOU O deputado Deley (PTB-RJ) votou contra a Reforma Trabalhista. Resultado: seu apadrinhado Marcelo Xavier de Castro, da diretoria de Finanças e Administração das Indústrias Nucleares do Brasil S.A. (INB), foi demitido
DANÇOU O deputado Deley (PTB-RJ) votou contra a Reforma Trabalhista. Resultado: seu apadrinhado Marcelo Xavier de Castro, da diretoria de Finanças e Administração das Indústrias Nucleares do Brasil S.A. (INB), foi demitido (Crédito:Marcos Corrêa/PR)

Boquinhas

Essa medida mais enérgica de Temer tem dois efeitos. Por um lado, deixou alguns parlamentares em situação delicada porque, se mudarem de posição depois de perderam suas “boquinhas”, o eleitorado pode acusá-los de se vender. Por outro, serve como exemplo para os que estão cogitando a infidelidade. Eles já pensam melhor.

O ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy (PSDB) anda com a lista dos infiéis a tiracolo. Temer tem se encontrado com cada um deles. Além de retaliações e ameaças, o presidente tem negociado novos cargos, antecipação de liberação de emendas do orçamento e aceleração em repasses. A caneta presidencial continua sendo um atrativo reluzente.

Infiéis punidos
Temer mandou demitir ao menos 30 funcionários indicados por deputados aliados e que votaram contra o governo

> Três exonerações foram publicadas no Diário Oficial da União de terça-feira 2, derrubando indicações dos deputados Deley (PTB-RJ), Expedito Neto (PSD-RO) e Ronaldo Fonseca (Pros-DF). Os três votaram contra a reforma trabalhista

> Outras demissões não foram publicadas por serem administrativas. Mas derrubaram comissionados no INSS, de órgãos vinculados aos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente, de Minas e Energia, entre outros

> O Palácio do Planalto indica que continuará punindo com corte quem não votar com o governo