Edição nº2472 28.04 Ver edições anteriores

Grandes questões, política miúda

Uma questão básica do mundo atual é a necessidade de imprimir coerência à ação de grandes organizações sem abdicar dos controles democráticos a que devem estar sujeitas. Gostemos ou não disso, o fato é que vivemos num mundo de big government: grandes burocracias, grandes empresas e sindicatos, grandes partidos. Por toda parte, objetivos sociais básicos como o crescimento econômico, a extensão de um mínimo de bem-estar a milhões de famílias carentes, a prevenção da guerra e a proteção do meio ambiente estão irreversivelmente colocados nessa escala de medida. Essa constatação projeta cores sombrias sobre a tragicomédia política que hoje prevalece no Brasil. Será nossa história regida pelo mito do eterno retorno: reaparições periódicas do populismo, de ideologias idiotas e de uma camada dirigente incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz? Não ignoro a importância da micropolítica praticada pelos partidos e pelo Legislativo; apenas afirmo que em certos momentos submergimos nela e não voltamos à tona.

Nosso PIB per capita anda atualmente pela casa dos US$ 11 mil anuais. A metade, exatamente, do da Grécia, um dos países mais pobres da Europa. Com um desempenho bem superior ao atual, crescendo em média 3% ao ano, levaremos mais de duas décadas para atingir o nível grego. E lá chegaremos, se chegarmos, com uma distribuição de renda muito pior que
a da Grécia atual. Será, pois, uma travessia socialmente turbulenta, no limite do sustentável.

Contrastada a esse cenário de longo prazo, nossa agenda política diária é intoleravelmente medíocre. No Supremo Tribunal Federal, os ministros batem cabeça entre si e com os líderes do Legislativo, no mais das vezes em torno de picuinhas. O Congresso assustou-se o suficiente para aprovar as propostas mais importantes do presidente Michel Temer – a PEC do teto de gastos é o exemplo mais reluzente –, mas dificilmente terá autoridade para levar avante reformas estruturais sabidamente indispensáveis, como a da CLT e das relações de trabalho, e já nem falo dos sistemas tributário e federativo. Enfrentar os interesses corporativistas incrustados no casco do Estado parece ser muita areia para seu caminhãozinho. Aprovar a modestíssima proposta de reforma do ensino médio já seria um avanço notável.

Não ignoro a importância da micropolítica praticada pelos partidos e pelo Legislativo; apenas afirmo que em certos momentos submergimos nela e não voltamos à tona


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