Edição nº2472 28.04 Ver edições anteriores

A felicidade fajuta do Facebook

Eu não tenho Facebook e ouço o diabo por isso. Pessoas como você, que certamente é um rato das redes sociais, me chamam de alienado, fracassado, covarde, tonto. Para um jornalista como o autor deste texto, manter distância do universo paralelo de Zuckerberg não tem nada a ver com transgressão. É apenas, me disseram, um ato de burrice. A vida real, falaram para mim com toda a convicção do mundo, não está nas ruas, mas nas telas de um computador e de um smartphone.

Sei que há coisa interessante no Facebook, mas deixarei isso para outra hora. Quero falar agora do lado mais miserável do Face. Uma pergunta para fazer você pensar: por que todo mundo é tão feliz nas redes sociais? De que tanto riem as pessoas no álbum de fotos virtual? Por que só há imagens de gente na praia, com o pôr do sol ao fundo, ou num boteco descolado no Leme? Por que todos parecem tão encantados com a vida, como se houvesse só alegrias?

Sinto muito dizer, mas aquela foto sua na praia, com o pôr do sol ao fundo, é tão comum quanto um dia trivial de trabalho. Aquele retrato com amigos no boteco é tão verdadeiro quanto uma apresentação em Powerpoint.

O Facebook alimenta fantasias. Por que todo mundo é tão feliz nas redes sociais? Você pode deletar uma foto ruim e fingir ser o máximo, mas não pode apagar a vida verdadeira

Eis o ponto a que quero chegar: o Facebook alimenta um rosário de fantasias. As pessoas querem que o mundo inteiro saiba que elas são, ó meu Deus, felizes demaaaaaaaais. Que estão curtindo de montão. Que a vida delas é muiiiiiiiiito louca e certamente melhor do que a sua. Que aproveitam cada minuto. Que tudo é lindo, belo, fofo e gracioso.

Você sabe, nós sabemos: a vida real está longe de ser assim. Por que ninguém diz que o dia foi terrível, que o chefe é uma mala sem alça, que na família há gente chata, que a namorada ou o marido torram a paciência, que as coisas negativas só fazem a gente ter vontade de fugir para sei lá onde e nunca mais voltar? Por que ninguém exibe fotos ruins, sem aquele maçante pôr do sol? Zuckerberg deveria proibir o maldito retrato do entardecer, e também beijo na boca, arco-íris e todo tipo de foto jeitosinha. Sem elas, muita gente não saberia o que postar.

A felicidade no Facebook é fajuta. Você pode deletar uma foto ruim e fingir ser o máximo, mas não pode apagar a vida verdadeira. Onde foi parar a boa e velha melancolia? Onde está a difícil, mas sincera, realidade?

Em tempo: vou criar um perfil no Facebook nos próximos dias.

 


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