Comportamento

A farsa dos Modiglianis

Exposição vista por 100 mil pessoas na Itália é cancelada após acusação de que 21 das 50 obras eram falsificadas. ISTOÉ conseguiu, com exclusividade, detalhes de como os golpistas atuaram

A farsa dos Modiglianis

TUDO FALSO Entre as pinturas expostas em Gênova, um nu feminino pelo qual foram pedidos US$ 32 milhões

Entre os 100 mil visitantes da exposição de pinturas do italiano Amedeo Modigliani (1884-1920) no Palazzo Ducale, em Gênova, houve um que se impressionou acima dos demais: o crítico Carlo Pepi, especialista na obra do vanguardista e mestre em identificar falsificações. Meses antes da abertura das portas, Pepi havia jogado dúvidas sobre a veracidade de muitas das obras presentes nas galerias da mostra. Finalmente, depois do aprofundamento das acusações por outros pesquisadores de arte e de uma queixa formal à polícia, a exibição foi fechada três dias antes de seu encerramento oficial, em 16 de julho. Nada menos que 21 das 50 pinturas e esculturas expostas foram confiscadas pelas autoridades locais, sob a suspeita de fraude. “Às obras falsas falta alma, parecem mortas”, disse Carlo Pepi em entrevista à ISTOÉ. “Elas não emitem emoções, apenas repulsa”, afirma o responsável pela revelação da farsa.

Tantos Modiglianis falsos foram parar num mesmo lugar não por coincidência, mas como parte de um esquema para valorizar quadros ilegítimos. É o que afirmou à reportagem, em condição de anonimato, um membro do Comando dos Carabineiros para a Proteção do Patrimônio Cultural (TPC, na sigla original), a “polícia da arte” italiana, que investiga o caso. A quadrilha, composta de pessoal altamente especializado, como curadores e colecionadores, oferecia, a museus, mostras a preço de banana, visando facilitar sua realização. No caso da de Modigliani, uma exposição que custaria milhões foi realizada por apenas 150 mil euros. O passo seguinte era atrair donos de pinturas verdadeiras. Por fim, bastava pendurar as falsas ao lado das legítimas – o que lhes dava credibilidade (e valor). Ao vender as obras fajutas, o grupo lucrava milhões.

Considerado o braço financeiro da organização, o negociante de arte baseado nos Estados Unidos Joseph Guttmann é proprietário de vários dos quadros considerados falsos. Um deles, o nu feminino que ilustra essas páginas, não valerá nada caso a fraude seja confirmada. No entanto, pouco antes da abertura da exibição, ele tentou negociá-lo por 32 milhões de euros. Poderia ter conseguido mais caso os fatos não fossem revelados. Procurado, Guttman não respondeu às perguntas da revista. Além dos Modiglianis, alguns trabalhos do polonês Moïse Kisling (1891-1953), seu amigo próximo e também uma das estrelas da mostra, são suspeitos de serem cópias.

ANÁLISES QUÍMICAS

O motivo pelo qual existem diversos Modiglianis falsos por aí envolve uma conjunção de fatores. O artista, que viveu na miséria, dava muitas de suas obras de graça e não mantinha documentação adequada das que eram vendidas. Após sua morte, as telas tiveram rápida valorização, o que abriu espaço para falsificadores atuarem pouco depois do tempo de vida do artista. Isso facilita o uso de tintas e telas adequadas. É muito mais difícil fraudar quadros renascentistas, em que os materiais datam de 500 anos atrás. Mesmo assim, os bandidos usavam documentação forjada para atribuir veracidade às falsificações. E lançavam mão de processos judiciais para ameaçar qualquer um que coloque em dúvida esses trabalhos – um dos motivos pelo qual boa parte da comunidade artística permanece calada mesmo depois do escândalo.

“Às obras falsas falta alma, parecem mortas. Elas não emitem emoções, apenas repulsa” Carlo Pepi, crítico de arte

A polícia já começou a realizar análises químicas nos compostos dos quadros para confirmar as falsificações. De acordo com as informações recebidas pela reportagem, os resultados preliminares indicam se tratar realmente de fraude. Ainda é cedo para mensurar eventuais punições aos envolvidos, mas um caso anterior envolvendo obras do próprio Modigliani no eixo Roma-Paris acabou com o responsável preso. A TPC, inclusive, já firmou parceria com a polícia federal americana, o FBI, devido ao suposto envolvimento de Guttman. “Esse problema precisa chegar ao fim”, afirmou à ISTOÉ o principal especialista que ajudou a levar as acusações de Pepi adiante, Marc Restellini. “É preciso começar a queimar cópias assim que são descobertas, para evitar que elas voltem ao mercado.”